A entrevistada da vez é considerada uma das primeiras mulheres a fazer quadrinhos no Brasil. Neide Harue atuou a partir de 1986 e durante os anos 90 publicando histórias no estilo mangá. A mais conhecida é Drácula, A Sombra da Noite, que fez em parceria com o roterista (e seu marido) Ataíde Braz. Drácula possui 300 pág. foi dividida em 5 edições e publicada também na França, Bélgica e Holanda.
Em uma entrevista feita ano passado Neide cita que quando começou o seu desenho tinha forte influência de mangá, “uma maldição na época” e que “muitos homens ainda acham que uma mulher jamais consiga fazer um desenho acadêmico.” E incentiva: “para as garotas que sonham com as HQs, posso dizer para viverem integralmente esse sonho, enfim, deem tudo de si, para que futuramente não sintam frustrações de espécie alguma. Eu vivi e existi, com total consciência e posso dizer, sem arrependimento.”
Valéria Fernandes, autora do blog “Shoujo Café” – um dos melhores sobre mangás - narra aqui seu contato com a HQ – trabalho que considera o mais próximo do legitimo mangá.
Confira a entrevista
Lady’s – Por que escolheu desenhar HQs?
Neide – A verdade é que não houve “escolha”. É como se desenhar HQs sempre fosse o meu destino. Sei que soa dramático, mas o fato é que, essa “profissão” estava em meu sangue desde sempre…
Lady’s – Quais os autores e quadrinistas que te inspiravam?
Neide – Eu admirava a arte final do Alcala e das mulheres do Milo Manara. Anteriormente, minha influência foi todo do mangá.
Lady’s – Haviam mais mulheres publicando quadrinhos na época em que começou?
Neide – Não tenho conhecimento de outras mulheres desenhando quadrinhos. Tinha algumas que faziam cartum. Mas é possível que no Estúdio do Mauricio de Souza houvesse alguma mulher desenhando seus personagens.
Lady’s – Houve algum tipo de preconceito por ser mulher e ter escolhido fazer isso?
Neide – Não posso dizer que sofri preconceito. Sempre, desde o início, pude transitar livremente entre os desenhistas (muitos, vários notáveis) e editores independentes, falar livremente, apresentar projetos, etc. Houve ocasiões em que senti preconceito sim, mas foi em relação ao meu estilo de desenho na época, muito influenciado pelo “mangá”. Mas tudo se mostrou passageiro.
Lady’s – De onde surgi às idéias para os desenhos? Baseava-se em alguma pessoa para desenhar mulheres?
Neide – As idéias vinham do roteiro, sempre criados pelo Ataíde Braz, que eu sempre considerei o melhor roteirista. Discutíamos muito até chegarmos a um consenso. Depois, era só mergulhar no mundo dos desenhos. Simplesmente fantástico! Muitas vezes, aliás, era muito comum, caminhar, viajar, onde quer que eu estivesse, sempre observava atentamente vários rostos, perfis, algum detalhe que me despertasse a atenção, para posteriormente utilizar em meus desenhos. Pesquisava os tipos de roupas que pudesse representar e indicar visualmente a personalidade de cada uma. Ou seja, procuro sempre transmitir a essência das personagens no visual, no jeito de se vestir, de se portar. Nas capas, nos personagens masculinos, me baseie em alguns atores que estavam em destaque na época. Uma forma de chamar a atenção das mulheres para a revista.
Lady’s – Por que parou de desenhar?
Neide – Após o nascimento de minha filha, não quis criá-la na Capital do Estado (SP), e sim, no interior, onde acreditei que a vida teria mais qualidade. Com a distancia, os trabalhos se tornaram escassos.
Lady’s – Ainda lê quadrinhos? O que acha da produção atual?
Neide – Atualmente, estou muito afastada do mundo dos quadrinhos, mas o pouco que vi me faz crer que o sonho não acabou! Há muitos sonhos se realizando… E bem!

Lady’s – O que mais sente falta de quando fazia HQs?
Neide – Ah, sim. O prazer de fazer, trabalhar em algo que se ama é indescritível!
É isso. Agradeço ao interesse pelo meu trabalho e que o site continue divulgando o trabalho das mulheres, pois o talento se impõe, mas a divulgação incentivará outras mulheres a abraçarem a profissão e aumentar a visão feminina nos Quadrinhos!


























