Entrevista – Egocêntricas

Em Entrevistas

Enaltecer sua própria personalidade. Exagerar no “eu”. O egocêntrico não leva em conta a opinião dos demais, e sim o seu própio interesse. O mundo dos quadrinhos tem um montão de egocêntricos, mas as egocêntricas de quem iremos falar são um pouco diferente do que a psicologia define. São egocêntricas que exageram, mas que também valorizam o “eu”. Num meio em que os quadrinhos já possuem seus rostinhos carimbados, surge um um blog com o ideal de fugir das panelas, que brinca com os quadrinhos-diários e com o seu anonimato. Um blog de pessoas que querem falar de si mesmas, porque não há nenhum problema nisso.

Lady’s – Como surgiu a parceria?

Lila: De uma conversa deprê? rs

Fefê: Pela internet, pelo grupo mulheres em quadrinhos, pelos blogs, pelo facebook? Pelo fracasso e anonimato em comum?

Lila: Bem, a gente se conheceu pelo grupo, mas começou a conversar pq tava afim de criar alguma coisa fora de panelas. Anonimato em comum é lindo. Hahahahahaha.

Lady’s – Qual é a formação de vocês e como foi o contato com os quadrinhos?

Fefê: Eu fiz Artes Plásticas, precisava de dinheiro então resolvi desenhar pra fora. Foi quando conheci o mundo dos quadrinhos, através de tirinhas pela internet, como Penélope Balgieu e Margaux Motin, minhas primeiras inspirações do tipo. Dinheiro eu não encontrei, mas enfim, estou me divertindo depois anos de redundância acadêmica…

Lila: Eu sou jornalista. Meu contato com os quadrinhos, pelo menos a produção frequente de quadrinhos, começou mesmo na faculdade, fazendo tiras pros jornais e revistas de lá. Depois comecei a fazer quadrinho sobre ex namorado (o que rendeu muita polêmica…rs) e quando comecei a me sentir minimamente segura a respeito do que estava fazendo é que comecei a trabalhar com isso.

Lady’s – Egocêntricas e ignoradas. Porque essa descrição?

Lila: Porque é bem por aí mesmo: a gente gosta de fazer quadrinhos sobre nós mesmas..e estamos fora do circuito, porque pra entrar no circuito dos quadrinhos em qualquer lugar é preciso ter contatos, fazer amizades, estar nos eventos. Quase como uma coluna social.

Fefê: Uma vez eu pedi opinião de alguns ilustradores mais experientes sobre o meu trabalho quando um deles falou que eu não conseguiria ir muito pra frente porque eu me desenhava demais. “È como se a tua especialidade fosse desenhar você mesma” ele disse. E então caiu a ficha, eu sou a minha maior especialidade, é o assunto que eu mais conheço, e ainda assim conheço muito pouco. Contei pra Lila e ela se identificou de imediato. Afinal qual o problema falar sobre nós mesmas? Muito cartunista faz isso e é reverenciado como gênio subversivo.

Lady’s – Atualmente é comum ouvir que quadrinistas mulheres não têm seu trabalho reconhecido pelo fato de serem mulheres. Vocês concordam?

Lila: Não acredito nem que seja só uma questão de quadrinistas mulheres, acho que ficou um pouco pior que isso. Porque a maior parte das quadrinistas mulheres mais famosas no meio, por exemplo, conta piadas como os caras, os amigos-quadrinistas-famosos. Então acho que o universo das quadrinistas mulheres, e claro que existem excessões, se transformou num grupo apadrinhado pelos caras que acham que cartum é coisa de macho. O resto nada na ampla piscina do limbo. E de vez em quando uma ou outra se sobressai.

Fefê: Eu concordo plenamente. Inclusive isso já foi um tema desenvolvido pelo Egocêntricas… O trabalho de umA cartunista é sempre rotulado de alguma coisa, ou é fofo, ou é tpêmico (acabei de inventar e acho que vai pegar!) ou sobre flores e sentimentalidades, ou sobre maternidade ou qualquer coisa vista e taxada condescendentemente como feminina. Muito cara faz quadrinhos fofos, e não cai no mesmo esteriótipo. Tudo é como na escola, muitos grupinhos fechados, onde o mais popular faz as regras e quem quiser fazer parte tem de seguí-las. A diferença é que o grupo principal é feito de homens e algum pingado de mulheres que falam a língua deles direitinho, e o resto é resto, ou seja eternos amadores.

Lady’s – Se a resposta for sim, o que deve ser feito, na visão de vocês, para que o trabalho de quadrinista seja valorizado?

Fefê: Eu acho que a única coisa a ser feita é continuar a trabalhar (just keep swimming!). O acesso a informação e a facilidade de divulgação é o nosso trunfo atual. Eu acredito (ingênua?) que basta manter um trabalho consistente e de qualidade para que com o tempo esse tipo de preconceito caia por terra. Eu não escrevo pensando num público especificamente feminino, na verdade eu nem penso num público abrangente, o meu público sou eu mesma, eu mesma rio sozinha, me divirto fazendo e lendo e relendo depois. Quem sabe tem mais gente por aí como eu que vai gostar também, eu sei que já encontrei uma na Bahia. A gente sempre escuta que para um artista brasileiro fazer sucesso no mundo ele precisa fazer arte brasileira, falar sobre o que ele sabe. Pois bem, diminuindo as escalas, é isso que eu acho que estou fazendo. Falando sobre o que eu sei e com verdade, não fingindo ser o que eu não sou.

Lila: Opa, pergunta difícil. Dá pra ver no Egocêntricas que estamos tentando de tudo. haha. Acho que precisa ser um processo de dois lados: quadrinistas que estão começando precisam colocar a cara na rua, como fizemos. E os meios de comunicação especializados precisam dar espaço, porque isso é bem complicado também.

Lady’s – Vocês buscam referências para os desenhos? Quais seriam?

Fefê: Eu não tenho nenhuma referência específica quando faço os quadrinhos do Egocêntricas. Só vou desenhando o roteirinho que eu bolei antes… Mas o que eu faço é um conjunto de inspirações de trabalhos alheios, a forma vertical eu peguei dessas francesas que eu mencionei antes. Foram os primeiros quadrinhos verticais que eu vi, aproveitando a forma de se ler em um blog. No mais eu nem sei. Tem tanto trabalho por aí que eu INVEJO (sim isso mesmo!) que eu sempre quero abandonar de vez o meu estilo sem graça e fazer i-gual-zi-nho! Alguns: Ryan Andrews, Hellen Jo, Sam Alden, (depois eu encontro os outros…).

Lila: Pras Egocêntricas me inspiro nas minhas conversas com a Fefê mesmo, são dignas de sitcom. Pros meus desenhos diários, minhas inspirações são a Alison Bechdel, Lucy Knisley, Ana Koehler (gente, ela é a rainha da aquarela) e Daniel Clowes.

Lady’s – Deixem seus contatos!

Tumblr das Egocêntricas: egocentricass.tumblr.com
Blog da Fefê: http://www.blogdafefe.com.br/
Colorlilas (site da Lila): colorlilas.com

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Sendo mãe

Em Especiais

Enfim vou escrever com mais propriedade sobre este dia, que para o comércio é a maior maravilha, para as mães experientes é almoço no domingo e para mães de primeira viagem, assim como eu, é uma descoberta. Para não dizer, uma doidera. Porque doidera? Explico: você passa a fazer parte de um grupo novo, agora em cada lugar que você vai tem crianças, e automaticamente você já tá junto. Parece um imã! Tem uma criança perto, você dá um sorrisinho, pede pra sua/seu filha/filho cumprimentá-la, e já vai falando os truques dela/dele (parece cachorro, né? Hahaha). Rola até uma “competição”. “Ele já faz isso? E aquilo? O meu já…”. Você não almoça mais sentadinha e mastiga com calma. É verdade o que dizem: “Depois que pari, barriga nunca mais enchi!”.

Você só anda descabelada e fica na neura de que não pode adoecer e só atravessa a rua quando o sinal está verde! A rua pode estar vazia, mas só a ideia de você morrer e deixar sua cria sozinha já é o bastante para seguir todas as regras de trânsito. A gente não consegue nem deixar a casa minimamente arrumada (Tem um texto ótimo sobre isso inclusive. Leia aqui.).

Com o dia das mães chegando você pensa: “Já sou mãe”. Rola aquela sensação entranha, e agora que sou mãe como vai ser? Outro dia me peguei perguntando se podia comprar aquela roupa cute cheia de gatinhos, ou se já sou velha pra isso -  afinal agora sou mãe! Mas comprei assim mesmo! hahaha

Então, chega de diário maternal!! Estou aqui só pra dizer que entrou um tema novo na minha vida e, com ele, quadrinhos “novos” também. Tô louca pra ler o quadrinho “VOCÊ É MINHA MÃE?”, da Alison Bechdel que será lançado pela Cia das Letras no mês de junho.  E cada tirinha que vejo sobre mães morro de dar risada, porque me identifico! E esse lance de se identificar com o quadrinho é batata! Se você se vê naquela situação, já vira o quadrinho favorito!

E ser mãe e quadrinista? Deve ser um pouco mais difícil, já que trabalhar em casa requer muita disciplina, tendo o pimpolho do lado te chamando o tempo todo, sem contar que seu material de trabalho é bem atraente!

Já falamos aqui da mãe e quadrinista Adriana Mello (que deixou a profissão por um tempo pra cuidar da cria), da SuperMãe, criada por Ziraldo, e hoje vou apenas colocar algumas tiras das mães que estão aí nos quadrinhos. Espero que se divirtam… Sendo mãe ou não! ;)

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Quadrinhos que não entendo

Em Autora

As vezes queria muito que tivesse mais pessoas traduzindo quadrinhos em geral (fansubs), assim como temos milhares de sites de mangás, em que os fãs se dispõem a scanear, limpar, traduzir, revisar, postar na internet, fazer manutenção da página e gastar dinheiro para manter o acervo em algum servidor. Tudo isso porque milhares de títulos não são traduzidos para português e raramente são licenciados por aqui. Existe um forte empenho, um certo carinho e animação para esse trabalho coletivo funcionar. É de se admirar a iniciativa por trazerem títulos de todos os tipos, uma vez que as editoras/quadrinistas não os torna acessível ao disponibilizar para venda o formato digital.

Tem algumas quadrinistas que queria que tivessem hqs traduzidas para português, espanhol ou inglês, mas, diferente do que acontece com os mangás, não há quem possa trazê-los em formato digital, já que não parecem muito conhecidas no meio ou existe uma descrença com o suporte digital por parte das autoras e editoras. Fico, logo, só na função de admirar o desenho, imaginando do que se trata o conteúdo.

Trago aqui as três que acompanho o trabalho, mesmo não entendendo (quase) nada.

1. Little Thunder – Hong Kong, China

KYLOOE – Imagem: Little Thunder


Conheci o trabalho dela no meio de 2011. Não sei ao certo como cheguei no site. Estava lá, no flickr, com inúmeras páginas de quadrinhos de conteúdo incerto, algumas delas já foram retiradas do ar. Odiei minha ignorância em não saber chinês e me apaixonei pelas cores, traços e as imagens que vi. Tentei uma entrevista para entender mais sobre seu trabalho, mas só tive o retorno breve se dispondo a responder e falando que conhecia o Lady’s Comics, para a minha surpresa. O contato se perdeu. O quadrinho KYLOOE possui em francês e italiano.

Neste ano ela está reproduzindo cenas de filmes para quadrinhos, o que diminuiu a barreira do idioma. É lindo demais. Adorei o Lady Vingança (esq.)

2. Anna Haifisch – Leipzig, Alemanha

Quando soube que alguém podia trazer quadrinhos da Alemanha para mim, busquei mulheres que produziam lá. Uma delas era Anna, com histórias envolvendo animais e alguns deles com semblantes de loucos – me fez lembrar do Gato Felix em algumas imagens. As expressões, as situações absurdas dos personagens me chamaram a atenção. Meu desânimo em ter uma HQ que não entendia nada me fez priorizar outros que conseguia entender por completo.

Fonte: Anna Haifisch


3. Anna Deflorian – Trento, Itália

HQ: Disko Universo – Ten steps until nothing

Ela possui um traço tosco e uma paleta de cor interessante nas ilustrações e nos quadrinhos. Um pouco diferente das de cima, ela tem uma história com tradução em inglês, abaixo dos quadros. Outro problema é que mesmo vendo na internet o trabalho, apenas consigo ter acesso a algumas páginas dos comics já publicados.

HQ: Typerä / Kuti 21

Fica aqui minha sugestão, quanto leitora, para os quadrinistas: façam versões digitais, tentem traduzir seus quadrinhos para inglês e dispor para venda facilmente na internet. Pensem nas pessoas que moram num quarto, que têm pouco recurso para pagar “livro+frete”, que têm uma estante lotada de coisas e não têm mais espaço para dividir com os livros. O HD do seu leitor pode ter muito espaço, assim como a nuvem. Pensem na acessibilidade do teu quadrinho, para além das fronteiras físicas e de línguas.

E você? Já teve um quadrinho que nunca entendeu?

 

 

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