A Bedeteca de Amadora e as mulheres nos quadrinhos

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No final do mês de abril, no dia 25 de abril, estive na bedeteca de Amadora. o convite veio do Clube Português de Banda Desenhada, com sede na Amadora, por intermédio de um de seus membros Pedro Bouça. A bedeteca corresponde à gibiteca que temos no Brasil. Em Portugal usa-se o termo Banda Desenhada (BD) para se referir às Histórias em Quadrinhos (HQ), por essa razão o espaço de armazenamento consulta deste material recebe o nome de bedeteca. Anteriormente, os quadrinhos em Portugal eram denominados de histórias em quadradinhos ou mesmo histórias em quadrinhos, como no Brasil. Mas, há algumas décadas atrás, tornou-se usual o termo banda desenhada, uma tradução do francês, Bande Dessinée.

Amadora é uma pequena cidade nas imediações de Lisboa, onde acontece um dos maiores festivais de quadrinhos da Europa, e o maior de Portugal, o festival de Amadora, que este ano será na última semana de outubro e vai adentrar o mês de novembro. Os quadrinhos têm muita importância para a cidade, que ela se com considera a cidade dos quadrinhos de Portugal.

Pediram-me para falar sobre mulheres nos quadrinhos brasileiros. Para quem não sabe, eu trabalho com História das Mulheres nos Quadrinhos. Foi basicamente o tema da minha pesquisa, por ocasião do meu mestrado, e tem sido um dos temas que eu abordo em meus trabalhos já há alguns anos. Estudo tanto a representação feminina nas HQs quanto a produção feminina.

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Comecei analisando as pioneiras no jornalismo ilustrado, como Nair de Teffé, nossa primeira caricaturista. Depois fiz um breve estudo sobre Hilde Weber, chargista considerada uma das precursoras do jornalismo em quadrinhos no Brasil. Nenhuma delas produziu quadrinhos, mas sua participação no jornalismo por meio de suas ilustrações são um marco para a História das Mulheres no Brasil.

Minha palestra se resumiu a um breve balanço da produção feminina Brasil no século XX e uma explanação sobre a participação feminina nas primeiras décadas do século XXI. Citei algumas jovens autoras, cerca de dez. Poderia ter citado muitas outras, pois temos atualmente uma participação relativamente grande de mulheres nos quadrinhos brasileiros, cerca de 35%, segundo o site Minas Nerds, média muito superior a de países com longa tradição na produção de quadrinhos como a França, por exemplo.

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Mas nem sempre foi assim. Há um hiato muito grande no século XX acerca da produção feminina. Encontrar e identificar mulheres que produziram HQs antes dos anos de 1960 é um desafio enorme. Um dos registros mais antigos é dos quadrinhos de Patrícia Galvão, a Pagu, na década de 1930, para o Jornal “O Homem do Povo,” que durou apenas alguns fascículos. Nele, Pagu publicava suas tiras, que contestavam os costumes e continham uma forte crítica política.

Pagu pode ser considerada uma precursora das HQs produzidas por mulheres no Brasil. No entanto, como o estudo e a (re)descoberta destas mulheres ainda é bem recente, poderão surgir dados mais precisos e a possibilidade de se localizar outras autoras anônimas, que publicavam produziam quadrinhos no Brasil em anos anteriores. Não é exagero dizer que o estudo da história das mulheres nos quadrinhos brasileiros é quase que arqueológico e que o historiador literalmente busca por pequenos vestígios pra montar um quadro geral da produção nacional. O importante é que estamos falando das mulheres que fazem quadrinhos e as pessoas querem ouvir.

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Independentemente de gênero ou estilo, as mulheres estão ganhando espaço no mercado dos quadrinhos. Muitas possuem trabalhos de qualidade e um público leitor cativo. Um dos fatores que contribuíram para a maior visibilidade de jovens quadrinistas, tanto homens quanto mulheres foi a internet. Algumas autoras que hoje publicam por editoras iniciaram sua jornada em sites onde postavam periodicamente tirinhas ou histórias curtas.

Elas foram conquistando um público leitor cativo e chamaram a atenção de editoras. Dentre muitas podemos citar o caso de Bianca Pinheiro, cuja tira Bear tornou-se um sucesso na internet e, pouco tempo depois, migrou para as livrarias na forma de um álbum, publicado pela Nemo. Não podemos deixar de reconhecer, também, a importância dos fanzines, tanto quanto veículo de divulgação do trabalho de jovens quadrinistas, quanto como forma de incentivo para que tantos outros busquem se expressar artisticamente por meio dos quadrinhos.

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Claro, há obstáculos que ainda precisam ser superados. Existe preconceito com relação ao trabalho feminino assim como em muitas outras áreas, mas vivemos um momento ímpar para a história das mulheres nos quadrinhos brasileiros. Estamos na nossa era de ouro. Contra os 12% de mulheres que participam da produção de quadrinhos, segundo dados divulgados pela organização do festival de Angoulême, na França, o Brasil contrapõe os já citados 35%.

O Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ), de Belo Horizonte, homenageou as mulheres que produzem quadrinhos e elas representaram um número considerável de participantes do evento. Somam-se a isso mesas redondas, projetos de pesquisa, coletivos, financiamentos coletivos e muitos outros meios encontrados para se divulgar os quadrinhos feitos por mulheres.

Retornando ao tema original deste texto, a palestra que ministrei em Amadora ajudou-me analisar de forma mais ampla o momento que vivemos no Brasil. Após minha explanação inicial deixei abertura para que o público levantasse questões. A princípio todos pareceram surpresos com o número de mulheres que produzem HQs no Brasil e revelaram que, em Portugal, há poucas mulheres atuando na área. Na própria bedeteca o acervo de originais produzidos por mulheres é mínimo. Exemplo disso é que, em exposição inaugurada no dia 28 de abril, intitulada “Jóias da Bedeteca”, que apresenta algumas das obras originais do seu acervo, há apenas uma mulher e nem mesmo era uma autora portuguesa, e sim francesa, Chantal Montellier.

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Mas existe o interesse em dar mais visibilidade e incentivar o trabalho feminino. O curador da exposição, Pedro Moura, afirma a necessidade de se conseguir um equilíbrio, de forma que autores de ambos os gêneros sejam igualmente contemplados tanto em eventos da bedeteca quanto em relação à preservação de seu trabalho no acervo da instituição.

Sobre o público em si, vale destacar a presença de personalidades de peso na própria História dos Quadrinhos portugueses.Dentre eles Geraldes Lino, blogger, faneditor e vice-presidente do Clube Português de Banda Desenhada, e um grande incentivador dos fanzines em Portugal; os quadrinistas José Garcez e Fernando Relvas e o estudioso e colecionador e também vice-presidente do Clube Português de Banda Desenhada Carlos Gonçalves, Além deles, um dos pilares das HQs portuguesas, José Ruy, autor de mais de 40 álbuns, entre eles a adaptação para HQ dos Lusíadas.

Uma grande responsabilidade falar para plateia tão seleta. Por outro lado, uma oportunidade única de poder conhecer mais sobre os quadrinhos portugueses, trocar impressões e poder divulgar o trabalho que é realizado no Brasil, tanto na pesquisa quanto na produção de HQs. Uma coisa é certa, as pessoas querem conhecer nossa produção.

Exposição na Bededaca_Com José Ruy

Exposição na Bededaca. Ao meu lado José Ruy

É preciso pensar na produção de HQs num contexto mais amplo. Fazemos parte de uma grande comunidade de países de língua portuguesa cuja produção encontra-se dispersa. Precisamos resgatar a história das mulheres nos quadrinhos no Brasil e buscar, também, as outras mulheres, que produzem quadrinhos em países de língua portuguesa. Minha visita a Portugal serviu para ampliar minha perspectiva acerca desta participação e trouxe à tona a necessidade de buscar um intercâmbio que nos permita não apenas descobrir quem fez e faz quadrinhos, mas promover uma troca de experiências.

Quem sabe, em um futuro próximo, não teremos um amplo estudo acerca destas mulheres, o que não apenas representaria um avanço em termos de historiográficos, mas também, sociológicos. Quem somos, onde estamos e o que estamos fazendo. Talvez na próxima década o Festival de Angoulême seja forçado a reconhecer a existência de um grupo bem superior aos 12% apontados no início de 2016, para justificar a ausência de mulheres na lista final dos indicados ao grande prêmio.

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