A de botas vermelhas

Conheci o trabalho de Sole Otero (1985), quadrinista argentina que também é ilustradora infantil e têxtil, no 2º Encontro Lady’s Comics, realizado entre os dias 29 e 31 de julho na cidade de Belo Horizonte (pausa na resenha para dizer que o evento foi maravilhoso e que quem não conhece precisa conhecer). Ela foi uma das convidadas estrangeiras dessa edição, junto com Clara Lagos (que também é colaboradora do Lady’s Comics), Mariela Acevedo e Supnem, todas da Argentina, à exceção da Supnem, que é chilena. Além do fanzine La de las botas rojas adquiri outros quadrinhos delas (Matérniti, Lía y sus Líos, Genre as vehicle e Clítoris), recomendo muito todos eles, mas esse em questão, causou-me maior impacto.

Tragédia terrível / Uma pena de verdade / Vamos a um corte e voltaremos com a coluna policial de Enrique Sorech

Talvez pela exposição nua e crua da verdade infeliz, que nos deixa desarmadas justamente por sua fidelidade às injustiças recorrentes nas vidas de tantas mulheres; La de las botas rojas, lançado em setembro de 2015, mostra de forma direta como a vida de alguém se transforma de uma hora para outra. Diferente do traço bonitinho, redondo e linear da maioria das suas tiras em La pelusa de los días, esse zine traz uma arte cheia de ângulos retos, sombras e riscos; que complementam a linguagem seca e lacônica da narrativa e também das personagens na maior parte do tempo. Nas partes mais difíceis da história o traço chega a ficar mais rabiscado ou distante, como se a autora não quisesse ter que desenhar aquela cena ou fazer quem a lesse ter que enfrentá-la.

botas3

1. Mamãe, o que faz com a luz apagada? / Não preciso dela acesa / “Sabão em pó”
2. Vou comer algo com Mauro / Pfff
3. Não tem vergonha? Uma mulher casada! Com filhos!
4. Faz um ano que estou divorciada / Carlos te quer. Deverias voltar com ele / “desodorante”

Baseada em fatos reais, essa história narra a perseguição que Nilda, a mulher de botas vermelhas, sofre da mãe e da mídia quando se vê envolvida em uma fatalidade, que quando lhe dizem que deverá ser forte ela apenas responde “mais?”. Então nos envolvemos e compadecemos no curto espaço de tempo que a história nos permite ter contato com ela, desejando que fosse esta uma daquelas histórias em quadrinhos em que o leitor pode escolher o final que deseja. Mas independente da empatia causada pela tragédia da mulher, o final, justamente por ser tão real, será sempre o mesmo.

botas4

1. Também gosto do Carlos, e isto decidimos os dois. Já te disse mil vezes.
2. Já estou bem grande pra que me digas o que fazer.
3. Sou sua mãe e não te criei pra virar puta.

Para conhecer melhor o trabalho de Sole Otero, visite La pelusa de los días ou entre em contato por e-mail para adquirir La de las botas rojas e outros trabalhos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *