A mulher negra e os quadrinhos

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Se a representação feminina nos quadrinhos sofre constantemente com padrões estéticos distorcidos e consequentemente situações preconceituosas e inexistentes relacionadas ao gênero, imagine o que acontece com a representação feminina da mulher negra nos quadrinhos.

Sempre tento fazer uma pesquisa minuciosa sobre as personagens e quadrinistas para as publicações aqui. O que percebo é que a mulher negra nos quadrinhos é praticamente nula.

Quando me deparo com a representação da mulher negra o que eu vejo é o que você vê nas novelas, nas passarelas e em tantas outras esferas da sociedade: elas são poucas, secundárias, a empregada ou a babá. Isso em um país em que 51% da população é negra.

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A pesquisadora Natânia Nogueira publicou um artigo sobre Jackie Ormes (já citada aqui no Lady’s). No artigo intitulado “Jackie Ormes a ousadia e o talento da mulher negra nos quadrinhos norte-americanos (1937-1954)” Natânia confirma a dificuldade em achar as personagens negras: “Analisando uma amostragem de dezoito revistas (num total de aproximadamente 1200 páginas), com histórias publicadas originalmente nos anos de 1940, 1941,1942, 1951, procuramos nelas personagens femininas negras. Nessas dezoito revistas analisadas, a mulher negra aparece por sete vezes. Na maioria delas, ela compõe o pano de fundo (Imagem 02) como parte do cenário, sem nenhuma participação ativa. É silenciosa, tem olhar amedrontado, está ou assustada ou fugindo de alguma ameaça em meio a uma multidão de homens. Aliás, a África é representada como um continente masculino onde a mulher está praticamente invisível.”.

A invisibilidade não é exclusiva das personagens femininas. Recentemente o pesquisador da USP, Nobuyoshi Chinen, defendeu sua tese sobre a representação e representatividade dos afrodescendentes nos quadrinhos brasileiros. O estudo fez um levantamento da presença de negros no período de 1869 a 2011. Ele encontrou poucos personagens e quando apareciam eles normalmente estavam em papéis de subordinação, aparecendo como elemento cênico para provocar efeito cômico e sempre de forma estereotipada. Os personagens que destacou em sua teste foram Jeremias, Benjamin, Pererê, Azeitona, Pelezinho, Ronaldinho Gaucho, Luana e Aú. Destes apenas Luana é uma personagem feminina.

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Outra personagem negra que está entre as personagens no Brasil é a Suriá, criada pel@ cartunista@ Laerte. Suriá é uma menina de 9 anos que é trapezista e mora em um circo com seus pais.

Fora do Brasil a personagem que nitidamente se destaca é a Tempestade (Ororo Munroe). A personagem é africana e já foi líder dos X-men. Apesar disso, segue o estereótipo de super-heroína bela e forte, com formas musculosas e uniforme ousado.

Quanto à produção de quadrinistas mulheres a situação é diferente, que me faz pensar que há a possibilidade dessa situação melhorar. Depois de Jackie Ormes poucas quadrinistas se tornaram reconhecidas. As que se destacam são: Marguerite Abouet autora de Aya de Yopougon, e Barbara Brandon, que publicou para grandes jornais suas tiras “Where I’m Coming From?” de 1991 até 2005. Barbara é filha de Brumsic Brandon, criador do quadrinho “Luther” sobre Martin Luther King.

A necessidade da visibilidade dessas mulheres é tão importante que foi criada a Ormes The Society, que promove autoras negras de quadrinhos. No site da instituição podemos ter acesso a uma enorme lista de criadoras.

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Apesar das tristes constatações temos uma boa notícia para lhe dar: Temos uma nova personagem negra nos quadrinhos brasileiros! Criada pela quadrinista Ana Luiza Koehler, Vitória Azambuja é moradora do Beco do Rosário, local que dá título a sua HQ. Ana descreve em seu blog a personagem da seguinte forma: “Ávida leitora e inconformada com o que se fala dos becos de Porto Alegre nos jornais, ela vai colocar seu talento de escritora a serviço dos que estão sendo despejados de suas casas para a abertura das grandes e modernas avenidas. Assim, ela será confrontada ao desafio de superar as rígidas expectativas que lhe impõe a sociedade da época, e conquistar seu lugar numa atividade vista como sendo quase que exclusiva dos homens das elites da época.”

A reflexão desses fatos ultrapassa a questão da cor. Nos faz pensar sobre nossa história e sua construção.

Saudemos Zumbi, mas também saudemos Dandara, que se jogou da pedreira mais alta de Palmares para não voltar a ser escrava.

Leia aqui:

O artigo Natânia Nogueira: http://periodicos.est.edu.br/index.php/identidade/article/viewFile/649/670

A tese de Chinen http://www.vinetas-sueltas.com.ar/congreso/pdf/Historieta,HistoriaySociedad/chinen.pdf

 

4 comentários em “A mulher negra e os quadrinhos

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