A mulher que foi rejeitada pela Disney

Ontem a tarde via Twitter recebi a seguinte mensagem: Carta da Disney rejeitando candidata a desenhista pq “mulheres não são criativas p/trabalhar c/cartoons”. Eu ri, e fui ler a informação. Descobri que quem divulgou esta carta foi o neto da citada Miss Mary V. Ford, Kevin Burg. Ele a publicou em seu flickr há mais de dois anos atrás. Segundo Kevin  ninguém sabia da existência desta carta, ela foi achada depois que sua avó morreu aos 70 anos de idade.

A carta é uma resposta para Mary V. Ford depois dela se candidatar para trabalhar na animação “Branca de Neve e os setes anões” em 1938. Baseado no conto dos irmãos Grimm, esse foi o primeiro longa-metragem de Walt Disney.

O Lady’s então foi atrás de mais informações. Via email entramos em contato com Kevin Burg, perguntamos sobre a carta e se ele tinha algum desenho da sua avó, ele nos respondeu da seguinte maneira:

I don’t have a drawing of hers, unfortunately. She drew often – mainly sketches of elegant, 1950’s style women.

After she received this letter she went on to teach middle school (12-14 year olds) art classes. She maintained a passion for art, drawing and sometimes painting but never professionally. By 1946 she started a family and had two children. Throughout her life she volunteered teaching art at the Nelson Atkins Museum of Art in Kansas City, Missouri and took trips where she could see art around the world. She passed her love of art on to me – I am a designer and illustrator and I have very fond memories of how she would bring art in to my life.”

Tradução Literal:

Eu não tenho um desenho dela, infelizmente. Ela desenhava frequentemente – principalmente esboços de mulheres elegantes, da época de 1950.

Depois de ter recebido esta carta, ela passou a lecionar aulas de arte no ensino médio (12-14 anos). Ela manteve a paixão pela arte, desenho e pintura por vezes, mas nunca profissionalmente. Em 1946 ela começou uma família e teve dois filhos. Ao longo de sua vida, ela se voluntariou no ensino de arte no Nelson Atkins Museum of Art, na cidade do Kansas, Missouri e fez viagens, onde podia ver a arte ao redor do mundo. Ela passou o seu amor pela arte para mim – sou um designer e ilustrador, e tenho muitas boas recordações de como ela trouxe a arte para a minha vida.

Depois da carta de rejeição, Mary V. Ford fez alguns trabalhos com animação durante a Segunda Guerra Mundial. Neste mesmo período Walt Disney produzia desenhos animados de treinamento para soldados e ajudou a criar a “Aliança do Cinema para a Preservação dos Ideais Estadunidenses”, com o objetivo de combater o comunismo no meio artístico. ¬¬

Essa carta não só mostrou o preconceito vivido pelas mulheres da época, mas questionou a maneira de se fazer arte. Um detalhe: quem assina a carta é também uma mulher.

Afinal o que é arte? No filme Sorriso de Monalisa Júlia Roberts é uma professora de artes em uma escola só para mulheres. O filme se passa no início da década de 1950, onde as mulheres eram mal vistas por pedirem divórcio, terem seu emprego, ou seja, de serem independentes. Muitas acreditavam que era seu dever se dedicar ao casamento e nada mais.

Cena do filme O Sorriso de Monalisa:

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A famosa pintora mexicana, Frida Khalo, também sofreu diversos preconceitos (a poliomielite, sua bissexualidade…). Não era só o fato de ser uma mulher dedicada à pintura que fez com que fosse criticada, mas o que desenhava. Suas pinturas tinham sempre sangue, órgãos expostos, material ortopédico, retrato seus em situações nada comuns. Um de seus quadros mais famosos é a pintura “Coluna Partida”. Ela foi retratada após Frida sofrer um acidente. Um bonde no qual viajava chocou-se com um trem. O pára-choque perfurou suas as costas, atravessou sua pélvis e saiu por sua vagina.

Em 1938 André Breton qualifica sua obra de surrealista em um ensaio que escreveu para a exposição de Kahlo na galeria Julien Levy em Nova Iorque. Mais tarde ela declara: “Pensavam que eu era uma surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade.”

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9 comentários em “A mulher que foi rejeitada pela Disney

  1. Acho que fui eu que enviei o link pra vocês! ;-)

    Tudo bem que eram outros anos, e o pessoal daquela época ainda eram cheios de preconceitos bobos sobre as diferenças de sexo. Mas estes dias recebi um e-mail q achei até graça.

    Um cara pedia orçamento de logotipos para um produto de beleza, mas como meu negócio não é design e sim ilustração (o pessoal adora por tudo no mesmo balaio né?) eu indiquei um amigo meu. Mas imagine a minha surpresa quando o cara respondeu que “designer homem não tem sensibilidade adequada para criação de marcas femininas”. Putz! nada a ver… se fossemos pensar assim, os maiores designers de moda feminina não seriam homens né? cada um… ;-)

    Beijos Ladys!

    • Na verdade recebi da Silva e retuitei, mas acho que muita gente citou ontem. XD É engraçado pensar que antigamente, e infelizmente hoje também (como citou), se escolhem trabalhos como este por questão de gênero. A Adriana Mello na entrevista para TPM dissse que não é raro ela ouvir coisas do tipo: “Você não desenha como uma mulher” e que um fã em um fórum especializado disse: “Na verdade, não existe Adriana Melo. É um cara que assina como mulher para chamar atenção”. E mais: “Mulher não desenha outra mulher bonita”. Tipo…oi? hahaha Espero que isso não ocorra com frequência, talvez um belo trabalho deixa de ser mostrado por bobagens como essa…

  2. Caramba, além de tudo vocês são jornalistas? Caramba! Grande matéria, muito boa pesquisa e denúncia! Imagina só a ironia, um dos contos mais celebrados da animação e que tem como principal público jovens mulheres negou a uma MULHER seu direito de participar da História – com “H” maiúsculo mesmo? Hoje ela entra pra História – olha de novo – como símbolo de uma artista cujo trabalho foi taxado como não criativo por conta de seu gênero! Sério, muito revoltante!

    Parabéns pelo trabalho, meninas!

  3. Denúncia?! Que exagero… isto não era regra apenas nos estúdios Disney. Em tempo, os cães de “Bambi” foram animados por uma mulher. Filme este lançado INCRÍVEIS CINCO ANOS DEPOIS de “Branca de Neve”.

    QUAC!

    HELLOOOOOO? CONTEXTO!

  4. Há um certo tom panfletário no post. Tudo precisa ser encarado no seu contexto. Apesar de mulheres na época (estamos falando da década de 1930, onde o papel da mulher era visto como doméstico) não serem empregadas como animadoras, os estúdios Disney empregavam muitas mulheres no departamento Ink & Paint. E,como bem disse o Fernando Ventura, a própria Disney empregou uma mulher animadora pouco tempo depois, onde animou os cães em “Bambi” (1942). Os estúdios Disney também são conhecidos por terem empregado nos anos seguintes negros, judeus e hispanos. Então esse “preconceito” precisa ser encarado no contexto da época sem rótulos gratuitos e superficiais.

    E há uma imprecisão e confusão entre fatos quando se escreve que Disney produziu “desenhos animados de treinamento para soldados e ajudou a criar a “Aliança do Cinema para a Preservação dos Ideais Estadunidenses”, com o objetivo de combater o comunismo no meio artístico”.

    Uma coisa é a participação de Walt Disney na Aliança. Outra é o que, de fato, ele produziu. Os filmes eram uma propaganda de guerra contra o nazismo alemão e demais potências do eixo(e não o comunismo). Além disso, filmes foram produzidos não só para os soldados mas para o povo norte-americano e latino-americano com diversos fins.

    • É fato que o contexto era outro. Está dito claramente a data em que foi enviada. Não disse Disney, eu disse Walt Disney. rs Só pra constar: eu gosto da Disney! Não é um post de denúncia, eu apenas achei interessante o conteúdo da carta e quis ouvir da própria fonte o que achava dela. ;)

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