A presença feminina nos quadrinhos goianos

Escrever sobre quadrinhos, minha missão aqui no Lady’s, será uma tarefa desafiadora, mas extremamente prazerosa. Meu processo de produção, até este momento, tem sido essencialmente egocêntrico e intuitivo e me aprofundar sobre essa arte que amo tanto vem a calhar. Quando foi sugerido durante a reunião de pauta que, para a estreia, poderíamos escrever sobre a presença feminina nos quadrinhos em nossas respectivas regiões fiquei feliz, mas apreensiva. Contente porque é bem mais tranquilo começar a falar de um assunto a partir de sua própria vivência, para depois ir mais além. Entretanto, me perguntei: e se eu não achar ninguém? Passado o susto, trabalhando a memória e a pesquisa percebi um cenário bem interessante. E promissor.

Moro em Goiânia e aqui, a meu ver, a presença dos quadrinhos se restringe à publicação de tiras diárias nos dois jornais de maior circulação. Neles constam alguns cartunistas locais reconhecidos, como Jorge Braga, Britvs e Christie Queiroz. Ocasionalmente, através de leis de incentivo públicas, aparecem produções independentes de zines ou revistas. A circulação de uma produção mais autoral e independente se dá quase que exclusivamente nos ambientes acadêmicos, especialmente nas áreas de arte e design. Eu mesma só tive contato com a produção de quadrinhos quando fazia o curso de Design Gráfico na Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. Juntamente com minha amiga Heluiza produzimos zines e escrevemos nosso projeto de conclusão de curso sobre quadrinhos na internet. Hoje trabalho como programadora visual lá e vejo que tem muita gente produzindo, mas com poucos espaços e oportunidades de publicação e divulgação.

Através do meu trabalho na universidade e participação em eventos acadêmicos conheci várias pessoas que estão pesquisando ou produzindo quadrinhos por aqui. Mas foi ano passado que um evento em especial ajudou a dar visibilidade à essa produção quase invisível, o GO!HQ. Ocorrido em novembro e organizado pelo ilustrador Elson Souto e Thiago Passarinho, o GO!HQ trouxe para Goiânia convidados experientes no mercado de quadrinhos, como o jornalista e editor Sidney Gusman e o cartunista Fernando Gonsales (Níquel Náusea). Durante os dois dias em que ocorreu foi disponibilizado um espaço, gratuito, para a divulgação e venda da produção independente da região. Foi lá que conheci outras duas quadrinhistas (Karolyne e Vanessa), que também estiveram no FIQ.

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Karolyne, Vanessa e Elisa

Karolyne Rocha Bastos é graduada em Design Gráfico, pela Faculdade de Tecnologia do SENAC-GO. No GO!HQ e no FIQ estava com seu primeiro zine, uma história erótica intitulada “Rainy Day or not”, e também alguns exemplares de “Lykan Wild”, revista que ela desenha e publica juntamente com D. Fenix.

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A Vanessa Gomes da Cunha tem 28 anos e gradou-se em Design Gráfico na UFG. No GO!HQ ela estava com o zine “Alcançando estrelas” e também com  a versão impressa do seu projeto de conclusão de curso, um álbum experimental feito em parceria com Elisa Guimarães Santos. Posteriormente, no FIQ, conheci a Elisa (que atualmente mora em BH) e estava lá lançando o álbum “Caronte – na cidade dos mortos”,  e que foi financiado através do Catarse. No estande da Vênus Press também estava a Debora Taiane Oliveira Alves, graduanda em Artes Visuais na UFG e que, coincidentemente, era minha vizinha na época (e só descobri depois do evento). O zine “Riot Grrrrl Manifesto Ilustrado”, que ela estava vendendo, foi feito em parceria com outra quadrinhista, a Renata Nolasco que mora no Rio Grande do Norte.

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Páginas da HQ INREAL, de Vanessa e Elisa

Vanessa me apresentou (virtualmente) à Isabela Emília Silva Pistelli, 23 anos, também estudante de Artes Visuais na UFG. Juntamente com Kethryn Evelyn, Rachel Santos e Izadora Sousa ela faz parte do coletivo Aoi Hikari, formado durante o curso.

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Imagem da capa do álbum “As 7 sereias”, divulgada no Facebook de Isabela.

Foi muito animador ver a representação goiana num evento tão forte quanto o FIQ. Estive todos os dias com uma mesa, em parceria com a Heluiza Brião, minha irmã de quadrinhos desde a faculdade, que mora atualmente em São Paulo. Na nossa mesa, além de nossas produções conjuntas, a Helu levou a série “HQ3 – quadrinhos ao cubo” que ela produziu em coautoria com o Eric Peleias e também duas edições do zine “Fuga Urbana”.

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Capa do zine Fuga Urbana 1, de Heluiza

Encaminhei algumas perguntas às meninas, agora a palavra é delas:

Cátia Quando começou seu contato com os quadrinhos e o que lhe motivou a começar a produzi-los?

Vanessa: Meu primeiro contato com histórias em quadrinhos se deu na infância através dos gibis da Turma da Mônica. Na adolescência conheci e me encantei com os mangás: Sakura Card Captors, Guerreiras Mágicas de Rayearth, Vídeo Girl Ai, Samurai X, Love Hina, Inuyasha. Esses foram os primeiros lançamentos da editora JBC, da qual tenho diversas coleções. O que me motivou a produzir HQs foi justamente a apreciação ao mangá. Antes disso, em razão de uma grande amizade com uma menina japonesa que desenhava nesse estilo. Eu ficava admirada e queria saber desenhar como ela. Nós duas liamos mangás, assistíamos animes e desenhávamos bastante. Com o passar dos anos tive contato com outros estilos de HQs fora o mangá, mais autorais e adultos. Gosto bastante de graphic novels e já tenho várias em minha coleção.

Isabela: Sempre li quadrinhos e mangás desde criança. E comecei a produzir quadrinhos no começo da faculdade, há três anos, quando tive aulas com o professor e quadrinista Edgar Franco.

Heluiza: Desde criança eu leio bastante quadrinhos, mesmo sem saber ler os balões em si meus pais compravam e eu criava as histórias só vendo as figuras. (…) Continuei lendo tipos diversos de quadrinhos, até que na Universidade deu vontade de colocar algumas ideias no papel. Sempre gostei muito de escrever contos e ficção científica, mas uma história em particular pareceu que sairia melhor como uma HQ do que um livro, explorar a narrativa visual me atraía (me atrai) muito!

Elisa: Bom, minha família sempre incentivava a leitura, não era raro que eu ganhasse, satisfeita, alguns livros de aniversário. Minha mãe, por exemplo, assinava a Turma da Mônica quando eu era criança e logo depois disso o contato com o mundo dos animes foi decisivo, antes de sequer tocar em alguma revista americana eu já me encantava com histórias em quadrinhos japonesas, como Sakura Card Captors e, principalmente, Inuyasha (…). Agora, quando penso no que me motivou a produzi-los, me pareceu algo tão natural. Desde quando se é criança você começa a querer criar suas próprias histórias, começa a desenhar e a escrever, aos poucos essa vontade cresce e quando você vê já virou um sonho. A primeira história em quadrinhos que produzi foi em dupla, durante o trabalho de conclusão de curso da faculdade.

Débora: Meu contato com os quadrinhos veio bem de nova, sempre amei ler gibis e quadrinhos de jornal ou revista. O que me motivou a começar produzir foi ter contato com outros quadrinistas pela internet, principalmente outras minas, através de blogs e grupos no Facebook.

Karolyne: Comecei a ler de verdade aos 12 anos (risos) com essa idade eu já fazia fanzines, mas acabei jogando todos fora, aí voltei com meus 18.

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Cátia Fale um pouco sobre sua produção.

Vanessa: Eu e minha amiga japonesa começamos a criar nossos próprios gibis quando estávamos na 6° série do fundamental. Nossa influência era exclusivamente o mangá. Desenhávamos as páginas em papel sulfite comum dobrado ao meio. (…) Na faculdade fiz uma Graphic Novel autoral (INREAL-2014) em parceria com uma grande amiga do mesmo curso, Elisa Guimarães. Essa Graphic Novel foi nosso projeto de final de curso (TCC) e conta a história de uma garota que vive no limiar entre o mundo real e imaginário. O formato do livro é sanfonado, onde de um lado encontra-se o desenho da Elisa e do outro, no verso, o meu. Desenvolvemos o roteiro juntas. Em 2015 fiz uma história de 8 páginas como um trabalho freelancer e também um fanzine onde juntei em uma coletânea algumas tirinhas desenhadas desde o período de faculdade.

Isabela: Me juntei com mais três amigas, que também adoram quadrinhos e mangás e formamos um grupo chamado Aoi Hikari, voltado para o estudo e a produção de quadrinhos autorais. Atualmente estamos trabalhando no nosso TCC, que é uma história em quadrinhos no estilo mangá chamada as “7 sereias”, a história é baseada em nossas vivencias durante a faculdade.

Heluiza: Ainda é uma produção tímida e independente. Nunca achei que teria fôlego para desenhar minhas ideias e ainda é difícil ter disciplina para terminá-las. Assim, tenho mais comprometimento quando participo de coletivos ou em parceria: participei com uma história na Quadrinistas Independentes do Centro-Oeste e fiz uma outra com a Cátia Ana (Diário de Virginia) no Pequi com Quadrinhos. Como eu gosto muito de explorar diferentes tipos de narrativas e suportes, estou fazendo uma série chamada Fuga Urbana, que é uma tirinha explorando dobraduras de papel. Atualmente estou trabalhando em passar o Fuga e outras histórias curtas para o ambiente virtual. A ideia é postar constantemente e manter o traço afiado para uma Graphic mais longa que estou trabalhando paralelamente.

Elisa: Ainda estou no início! Publiquei minha primeira história em quadrinhos com o apoio da plataforma de financiamento coletivo, o Catarse, durante o FIQ de 2015. “Caronte, na cidade dos mortos” já foi um desafio incrível, uma luta diária com minhas inseguranças como desenhista e escritora.

Débora: A minha produção no geral é mais voltada pra ilustração, mas quando escrevo quadrinhos tento sempre abordar temas como o empoderamento feminino, os direitos LGBT e questões raciais. Tenho dois zines também, sendo que um deles foi feito em conjunto com a Renata Nolasco.

Karolyne: Atualmente aos poucos ando conseguindo trabalhar com que gosto, que é desenho, e pretendo estudar mais e me manter firme neles para me tornar melhor a cada dia. Tomei algumas decisões na minha vida que a mudaram pra melhor, e mudou um pouco meu modo de ver meus trabalhos.

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Capa do zine “ Riot Grrrl Manifesto Ilustrado”.

Cátia Quais suas expectativas em relação à sua produção?

Vanessa: Minhas expectativas são muito positivas. Atualmente estou me especializando em desenho e pintura digital. Pretendo aprimorar minha técnica cada vez mais e ser uma quadrinhista e ilustradora reconhecida. Neste ano o projeto é lançar histórias curtas em sites de webcomic, também criar um site exclusivo para meus quadrinhos. Eu tenho um site desde 2015, onde uso como portfólio e posto principalmente ilustrações. Também tenho vários projetos de quadrinhos, alguns com rafe completa, outros apenas com argumentos de história. Pretendo concretizá-los o mais breve possível. Para o ano de 2017 quero produzir uma HQ autoral impressa para o FIQ. Quero praticar e estudar muito para ser uma artista cada vez melhor. Desenhar e criar HQs é o que me dá sentido e motivação na vida, minha grande paixão.

Isabela: No momento meu foco é esse TCC. Mas depois dele, tenho planos de continuar produzindo histórias em quadrinhos.

Heluiza: Sei que parece idiota, mas independente de reconhecimento, dinheiro etc, eu quero mesmo é ver o resultado final do trabalho e ficar feliz. Estou focada em melhorar o meu traço e narrativa para publicar minhas histórias longas através de algum edital público ou com o apoio de alguma editora.

Elisa: Esse ano vou procurar criar histórias em quadrinhos para a internet, que traz outro formato e novos desafios. Eu quero encarar o desafio de se criar uma pequena série, explorando cores, brincando com a diagramação e enredos diversos.

Debora: Eu não tenho expectativa de seguir uma carreira profissional como quadrinista, o que eu espero mesmo do meu trabalho é que ele ajude na conscientização das pessoas e no empoderamento dessas minorias sociais.

Karolyne: A equipe do Lykan Wild, antiga HQ que trabalhava, está voltando aos poucos, ainda não temos data, mas que será diferente tanto em história, formato. Ainda não posso dizer muito porque ainda está em processo de estudo.

 

Contatos

Vanessa: Site  |  Facebook
Isabela: Facebook | Aoi Hikari
Heluiza: Portfólio | Facebook
Elisa: Facebook
Debora: Facebook
Karolyne:  DevianartFacebook

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