Ainda não conhece a Virgínia e o Mike? Que vergonha!

Eu não poderia concordar mais com o título acima. São palavras de Cátia Ana, autora de O Diário de Virgínia (www.odiariodevirginia.com). O Diário é uma coleção de capítulos ilustrados da história de uma garota que espera, um dia, ser capaz de entender a si mesma. A personagem, Virgínia, divide os quadrinhos (ou as páginas de seu diário) com Mike, que é a representação de seus medos. A criadora da dupla afirmou para o Lady’s Comics:

“Eu não me sentia confortável com uma exposição mais direta de minha vida, então em vez de me colocar como personagem principal, resolvi utilizar uma personagem como minha porta-voz. Era para ela se chamar Sabrina ou Júlia (homenagem aos romances água com açucar, já que ela tende a caminhar pelo melodrama na maior parte do tempo) mas Virgínia me pareceu refletir mais sua personalidade. Assim, fluiram muito mais naturalmente as histórias e tive coragem de publicar. Não sei ao certo se após o primeiro ou o segundo capítulo, decidi dar vida própria à Virgínia.”

O Diário de Virgínia carrega aquele tom sincero e bonito de diário de menina sonhadora e deixa a gente com vontade de ser a melhor amiga da personagem. Dá pra perceber, em cada quadrinho, a paixão e a dedicação com que Cátia faz sua arte. Chega a ser um envolvimento contagiante. Para a criadora, muito mais que um simples passatempo ou exercício, os quadrinhos são a sua vida. Foram um grande incentivo em seus estudos e em sua vontade de aprender e melhorar.

Cátia e Mike

Os leitores podem considerar o Diário como autobiográfico? “Sim e não.  Algumas coisas da minha vida estão lá, e também acho que boa parte das frustrações de todo mundo, mas agora acho que a Virgínia vai trilhar o próprio caminho, seguir sua própria história. O legal de fazer esse quadrinho é justamente isso. Eu não tenho a mínima idéia de qual será o próximo capítulo, vou escrevendo, vou me inspirando até ver que tenho um bom material para trabalhar.”

Entre os traços caprichados e o roteiro intimista, o que mais chama a atenção no trabalho de Cátia Ana é o cuidado com o “como contar”. A autora explora o espaço da tela do computador, os elementos do cenário, o formato e cores dos quadrinhos e as possibilidades oferecidas pela barra de rolagem para que Virgínia consiga nos apresentar seus devaneios.

“Utilizar a web como suporte foi uma retomada de um projeto antigo. Meu trabalho final de curso da faculdade foi sobre webcomics e como a transposição dos quadrinhos para a web afeta sua própria linguagem. A partir do capítulo 02 resolvi arriscar mais e explorar essas novas possibilidades, utilizando o monitor como o foco de uma imensa tela, onde o leitor pode “navegar” livre pela história, sem estar preso a cliques contínuos para ir para as próximas páginas. Ainda estou testando algumas possibilidades de aliar a própria narrativa à direção de leitura, como no momento em que a Virgínia está a procura do talento dela e o leitor faz ela ‘mergulhar’ nessa procura rolando a barra de rolagem.”

Cátia conta para o Lady’s Comics que o maior problema de Virgínia (e o da própria autora, também) é conseguir enfrentar os seus medos:

“Timidez, insegurança, baixa auto-estima, acho que tudo tem um começo nesse camaradinha. Durante o processo de criação achei que daria um impacto visual melhor se a Virgínia literalmente encarasse o seu medo, e depois pensei: e se ele estivesse com ela o tempo todo? E se ele falasse, dialogasse com ela? Como seria ter um medo como seu melhor amigo? E foi ouvindo este trecho da música ‘Raindrops keep falling on my head’ que o Mike me apareceu:

But there’s one thing, I know
The blues they sent to meet me
Won’t defeat me
It won’t be long
‘Till happiness steps up to greet me.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=HYEvz0oniCM]

“Imediatamente, associei o Mike com essa idéia de tristeza, pois ele traz uma carga enorme de arrependimento e culpa. E em poucos rabiscos lá estava ele, com sua inseparável expressão de melancolia e depressão.”

No blog de quadrinhos e ilustrações da autora, Prancheta da Cátia (www.catiailustradora.blogspot.com), o ratinho Tobias (que, nem sempre, foi um ratinho) e a enigmática gata Marylin fazem companhia a Mike em tiras humorísticas. Em várias dessas tiras, os personagens desenrolam discursos metalinguísticos e a própria autora vira personagem.

No twitter, você encontra Cátia Ana em: @virginiaemike

6 comentários em “Ainda não conhece a Virgínia e o Mike? Que vergonha!

  1. Havia lido o texto antes, mas não tinha comentado, preferi dar uma olhada no site antes e, devo dizer, preferi dar uma olhada nos sites de Cátia antes e devo dizer que me impressionei bem mais que eu esperava. Sua adaptação no formato de Virginia para a internet é uma atitude incrivelmente louvável e de uma riqueza de percepção tão única e segura nesses tempos modernos de quadrinhos que eu fico me perguntando porque demoramos tanto tempo para perceber uma estrutura que estava aí bem na nossa cara há tanto tempo.

    Parabéns pelo achado e pela entrevista, Luciana. Vou ler toda o “diário” e fazer uma resenha no meu blog. Obrigado pela indicação.

    • Muito obrigada pelo comentário, Luís. Você disse tudinho! A Cátia tem umas qualidades muito “só dela”. Essa sensibilidade e essa criatividade natural que ela tem para fazer quadrinhos a gente não encontra fácil por aí. Quero ver a resenha que você vai preparar.

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