As coisas que Cecília fez

Numa das minhas (eternas) pilhas de livros para ler, estava o quadrinho de Liber Paz, com um autógrafo datado em 17/11/2013, último dia do FIQ, “Uma historinha de desencontros, reencontros, amor e um bocadinho de vergonha alheia”.  Foi desse jeito que fui recebida ao abrir a primeira página, saudades do FIQ e a lembrança quando a Mitie (Itiban) relatou que estava saindo demais, porque tinha sacanagem no meio.

Capa\

Sobre Cecília e Letícia

Lembranças tristes e boas, circundam Cecília ao reencontrar Letícia, a ex-namorada do irmão, aos 32 anos. Com uma garrafa de vinho e uma mente confusa, ela nos transporta para quando tinha 18 anos. Lá, um ficante e uma festa caem num episódio onde Cecília e Letícia se veem novamente. Gosto de como são os diálogos, as revoltas e o devaneio da personagem principal com os outros. Soou tão realista… Ali, eu vejo uma personalidade bem construída, numa fase dos quase 20 anos, em dúvida de si mesma e em relação ao amor. Letícia traz uma pequena ponta de uma experiência boa do que seria um sentimento sincero. Poucos momentos juntas e a saudade do que viveram são relembradas depois de muitos anos, alguma coisa ficou pra trás. 01

O Liber Paz respondeu algumas questões acerca dos quadrinhos:

Sam – Eu queria primeiro saber o que aconteceu nos anos 90 para pensares em construir uma personagem feminina de quadrinhos.

Liber Paz – Olha, a primeira coisa que aconteceu nos anos 90 que inspiraram a história da Cecília foi a minha própria adolescência e pós-adolescência. É uma década pela qual tenho muito carinho, principalmente a primeira metade, sabe. Muitas histórias vívidas na minha cabeça, da minha turma, com meus colegas e tal. E, na época eu tinha muitas amigas e acabei meio que virando o amigo nerd delas.

Sam – Então tinhas várias amigas que inspiraram a história e foi dessa relação que tiraste os diálogos? Porque quando eu leio, parece tão real… que parece que existiu aquilo tudo.

Liber Paz – Então, a história da Cecília mesmo é ficção pura. Não conheço ninguém com história remotamente parecida. Os diálogos são algo que eu gosto de trabalhar bastante enquanto escrevo a história. Eu uso frases que ouvi de amigos e amigas, uso situações, e em cima disso vou inventando e refinando. Sou muito chato com diálogos, sabe? Muitas vezes, durante o processo de produção da história, empaquei porque achava que os diálogos estavam se arrastando ou não soavam críveis.

No caso ainda da história da Ciça, acho que cabe a velha frase “qualquer semelhança é mera coincidência”.

Sam – Entendi. Pode parecer meio batido, mas tu tens algum segredo pra construir uma personagem feminina?

Liber Paz  – Olha, eu gosto de pensar nas mulheres que conheci e conheço. Penso nelas, nas conversas que já tivemos, que já ouvi. E a partir disso vou tentando imaginar uma pessoa que não existe, uma personagem. Eu uso como referência pessoas reais no sentido que fico imaginando “ah, como a fulana reagiria nessa situação? e a beltrana?” E é curioso esse lance de inventar personagens porque quando vamos prestando atenção percebemos que tem questões que são relevantes pra umas pessoas e que não o são pra outras. Essas diferenças vão ajudando na criação.

Eu procuro ler, prestar atenção em detalhes, em frases e a partir disso ir construindo personagens. É um processo orgânico, meio que de improviso, não tem nada de ciência exata.

parando pra pensar agora, é como quando eu era criança e brincava e dava vozes e comportamentos pra amigos imaginários e brinquedos.

No fim, é uma grande brincadeira. Gosto muito.

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Sam – Existe a possibilidade de ter uma sequência? Achei tão legal, que dá vontade de saber como a Ciça se desenvolveu, sabe? Não necessariamente a relação com a Letícia, apesar de eu ter ficado curiosa sobre a felicidade do fim…

Liber Paz – Então, não pretendo fazer uma sequência, porque acho que a força da história está justamente nesse final aberto. Fica aquela vontade de saber o que aconteceu e acho que esse é um dos “temperos” da história. Mas vou te contar que esbocei algumas possibilidades. hehehe

Sam – achas que as personagens femininas feitas por homens são bem construídas em termos de personalidade?

Liber Paz – Ah, depende do autor, eu acho. Gosto muito das personagens do Terry Moore (Estranhos no Paraíso), do Neil Gaiman (em Sandman). Gosto do jeito como eles escrevem as suas personagens.

Agora, teve uma história do Alan Moore que me incomodou a construção da personagem. O Alan Moore geralmente manda muito bem nesse quesito, mas naquele álbum “Neonomicon” ele pôs a personagem em uma situação extrema, de violência e terror. Daí, a reação dessa personagem a essa situação limite me pareceu muito inverossímil, mesmo com o background que foi apresentado.

Fiquem de olho nos próximos meses: vai ter quadrinho novo do Liber Paz. Parece muito bacana! ;)

Era pra ser uma adaptação de um conto do Ray Bradbury chamado “A sirena do nevoeiro”, mas fui mexendo e mexendo e acabou um negócio bem diferente. Basicamente, é uma história que se passa em um farol e tem a ver com monstros gigantes. Mas não tem nada a ver com Pacific Rim. hahahaha – Liber Paz

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