As curvas de Miss Moti

Ela veio do topo do mundo, das terras de Buda. Fico feliz em falar de uma quadrinista que não é norte-americana e de uma personagem que não possui seios empinados, barriga chapada e super-poderes. Estava ansiosa pra conhecer o quadrinho de um lugar diferente. Foi por indicação de Ana Luiza Koehler que conheci a personagem Miss Moti e sua criadoda, a nepalesa Kripa Joshi. Em nepalês Motti quer dizer gorda. Kripa se inspirou na sua mãe, no estilo Maithali / Madhubani – pinturas folclóricas tradicionais do Nepal e da Índia – e  no quadrinista Chris Ware (autor de Jimmy Corrigan). Ela desenhou em uma gordinha delicada e imaginativa a luta contra a ditadura do peso. Entrei em contato com Krippa que com toda atenção me contou mais sobre sua personagem.

Sobre a Miss Moti e como tudo começou

Miss Moti surgiu da minha luta com questões relacionadas à aparência do corpo como estar acima do peso. Eu queria criar um personagem positivo que poderia atingir e conquistar coisas apesar do seu tamanho. Eu me inspirei na minha mãe que era muito parecida com a Miss Moti em suas atitudes diante da vida. Apesar do seu peso, ela dança, veste vestidos extravagantes para festas e faz caminhadas para vilas remotas no Nepal.

Miss Moti é uma pessoa com aparência normal com um poder de imaginação extraordinário… ou alguma coisa mais. Ela é agradável, amável, carinhosa, um pouco solitária e insegura, mas quando ela se liberta de suas inseguranças, ela se torna confiante e segura de si. Ela não deixa o seu peso a atrapalhar e ela pode alcançar qualquer coisa que coloca em mente.

Eu explorei o assunto de estar acima do peso em pinturas para o meu BFA (Bacharelado em Artes) na Índia. Então eu ganhei uma bolsa de intercâmbio (Fulbright Scholarship) para correr atrás do meu MFA (Mestrado em Artes) na Escola de Artes Visuais em Nova Iorque. Lá eu fui apresentada a um mundo novo de quadrinhos e graphic novels. Eu vi o escopo dos quadrinhos, os tipos de histórias que alguém pode contar por esse meio, se são engraçadas, pungentes, dramáticas, pessoais, etc.

Também tivemos uma matéria sobre a História dos Quadrinhos, aonde aprendemos sobre Windsor McCay e as histórias do Little Nemo. Little Nemo foi um quadrinho em série em um jornal norte americano no início de 1900. Esse era um mundo maravilhoso e colorido que crianças poderiam explorar. e nas histórias a cada semana um pequeno garoto dormia e tinha essas incríveis aventuras em Slumberland, e acordava no final. Ao leitor ficava a dúvida se era tudo um sonho ou não.

Eu as achava incríveis essa brincadeira entre o sonho e a realidade inspirou as minhas histórias da Miss Moti. Nos quadrinhos da Miss Moti eu tento deixar o leitor decidir se os eventos na história são reais ou uma fantasia. Sempre existem pequenos elementos que fazem você pensar que talvez não tenha sido apenas na imaginação.

Na verdade eu criei o personagem Miss Moti em uma pintura chamada “Hippo” (hipopótamo) mas então decidi transformá-la em um personagem de quadrinhos. Pinturas do estilo Mugal foram a inspiração para o “Hippo” e foi a primeira vez que desenhei a Miss Moti. Em relação a estilo, meu trabalho é inspirado na arte Maithali / Madhubani – pinturas folclóricas tradicionais do Nepal e da Índia. Entretanto, eu também gosto de vários outras artes tradicionais e decorativas.

“Quadrinhos sem texto também ajudam a história a transcender bordas e barreiras de linguagem e torná-los mais universais.”

Eu também fui inspirada por Chris Ware, que é um mestre do design. Ele explorou e expandiu o escopo dos quadrinhos como um meio de contar histórias. Como ele, eu gosto de focar pequenos movimentos e ações, como uma mão alcançar algo, olhos se fechando e abrindo, etc. Eu tento pensar não apenas na história mas também em como ela é apresentada na página, no design dos quadros e assim por diante. Eu tentei experimentar isso em “Miss Moti and the Snowflake”, “Miss Moti goes back to Square One”, ‘Miss Moti Shattered” etc. (suas publicações)

Outro aspecto distinto nas histórias da Miss Moti é que elas não têm texto. Dizem que uma imagem fala mais do que mil palavras e não acredito que alguém precise de palavras para entender os sentimentos de Miss Moti. Eu também sinto que a falta de palavras convida o leitor a inserir os seus próprios pensamentos e sentimentos na história e espero que isso a torne mais compreensível. Quadrinhos sem texto também ajudam a história a transcender bordas e barreiras de linguagem e torná-los mais universais.

Sobre ser uma mulher artista

Estou feliz em dizer que eu nunca encontrei nenhuma barreira ou preconceito por ser uma mulher quadrinista. Na verdade isso me abriu mais possibilidades! Eu fiz parte de antologias de quadrinhos só de mulheres como o “Strumpet” e eu sei que existem outras antologias como essa. Em Londres também existe um encontro mensal chamado “Laydeez do Comics”, aonde quadrinistas (homens e mulheres) podem apresentar o seu trabalho. e ele foi criado por duas mulheres. Eu acho que o campo mudou nos últimos anos e existem várias mulheres fazendo quadrinhos maravilhosos, muitos em causas sociais ou pessoais.

Alguns dos livros escritos por mulheres que eu gostei são Anya`s Ghost, The House that Groaned, Persepolis, Please God find me a husband, Robot Dreams, My Cardboard Life. As questões tratadas nas histórias variam de imagem corporal a auto-aceitação, amizade, busca por amor, lutas pessoais e familiares, etc. Tangles, escrito por Sarah Leavitt, é a história da luta de sua mãe contra o Alzheimer.

Conheça mais sobre o trabalho de Kripa acessando:

www.kripakreations.com

www.missmoti.com

@kripakreations

www.facebook.com/kripakreations

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