As Garotas do Alceu

Em 1938, os jornais anunciavam: “As garotas que são a expressão da vida moderna, endiabradas e inquietas, serão apresentadas todas as semanas em O Cruzeiro, por Alceu Penna”. Em ilustrações que abordavam os mais variados temas (de assuntos políticos a situações mundanas, temas cinematográficos ou esportivos), nasceram, assim, “As Garotas” do Alceu.

Alceu Penna nasceu em 10 de janeiro de 1915, em Curvelo, Minas Gerais, mas foi no Rio de Janeiro que se firmou e fez carreira.

Seu traço ágil e inconfundível era encontrado em cartazes, calendários, cenários, figurinos para shows, decorações e fantasias para bailes de carnaval de sua época. Foi Alceu que vestiu Marta Rocha para o Miss Universo, em 1954, e renovou a fantasia da Carmem Miranda quando ela partiu para Hollywood, com o Bando da Lua. Alceu colaborou com as revistas O Cruzeiro, A Cigarra, O Globo Juvenil e Manequim, ilustrou livros, suplementos femininos e infantis e cadernos de moda.

Alceu Penna foi pioneiro nos quadrinhos brasileiros. No Globo Juvenil, entre 1938 e 1941, o artista adaptou, em quadrinhos, quatro clássicos da literatura mundial, dois deles com roteiros de Nelson Rodrigues: O sonho de uma noite de verão, de William Shakespeare; Alice no país das maravilhas, de Lewis Carrol; Um yankee na corte do Rei Artur, de Mark Twain; O fantasma de Canterville, de Oscar Wilde; e O mágico de Oz, de L. Frank Baum.

Na década de 1950, na revista feminina A Cigarra, Alceu e Álvaro Armando criaram os quadrinhos “Marido de Madame“, uma série publicada em duas páginas por edição, na qual os personagens Gonçalo e Lolita dialogavam com rimas (referência à literatura de cordel). Gonçalo e Lolita formavam um casal típico da classe média alta carioca dos anos 1950. A sofisticada senhora adorava dar ordens ao marido e ele satisfazia as vontades dela.

Por quase 30 anos de publicação ininterrupta, os textos apimentados de Millôr Fernandes e Accioly Netto (ambos com pseudônimos) foram ilustrados pelas moças graciosas de Alceu na coluna “As Garotas”, na revista O Cruzeiro. Os  penteados, atitudes e expressões dessas meninas eram prontamente adotados pelas jovens modernas da época. O trabalho de Alceu criou uma moda brasileira, determinou o comportamento, as escolhas, o jeito de vestir e de enxergar a mulher de uma geração.

Capa da biografia do artista, escrita por Gonçalo Júnior

“Durante anos, todas as moças bonitas deste País (…) se penteavam, se sentavam, gesticulavam, sorriam e se vestiam como as Garotas do Alceu. E nos encantavam e nos faziam sonhar. Tanto que, muitos de nós – quase todos os que se casaram naquela época – nos tornamos, um pouco, genros do Alceu.
(…)
Suas meninas de olhos expressivos, de gestos delicados e cheios de graça, de cinturas finas, de longos cabelos e de saias rodadas, cujo tecido era informado com duas ou três pinceladas – a gente sabia se era seda ou algodão – eram tão fortes que, me parece, os leitores conviviam com elas como se convive com um ser vivo. (… ) Elas tinham vida própria, e tanta que Alceu desaparecia por trás delas.”

(texto escrito por Ziraldo, para o catálogo da exposição As garotas do Alceu,  em julho de 1983, no Palácio das Artes, Belo Horizonte, realizada três anos após o falecimento de Alceu. Para ler o texto, na íntegra, visite: http://www2.uol.com.br/modabrasil/biblioteca/grandesnomes/alceu/garotas.htm)

O Lady’s Comics conversou com Gabriela Penna, sobrinha-neta de Alceu, que recentemente lançou o livro “Vamos, Garotas! Alceu Penna – Moda, corpo e emancipação feminina (1938/1957)”, resultante da dissertação defendida pela autora, em 2007.

Gabriela, como os assuntos ‘moda, corpo e emancipação feminina’ foram relacionados em “Vamos, Garotas!”?

O livro trata da coluna “As Garotas do Alceu”, que foi veiculada na revista O Cruzeiro, em meados do século XX. Elas marcaram uma geração em moda e comportamento, podendo ser pensadas como as primeiras pinups brasileiras. No livro, eu investigo como a figura da mulher moderna aparece na coluna, pelo corpo e a moda, esses entendidos aqui como meios de comunicação da mulher na sociedade. A partir dessa problemática, percebe-se que essa imagem moderna não é tão homogênea como a primeira vista pode indicar. As Garotas, por trás daqueles belos vestidos, maquiagem e agitos sociais, escondiam profundas contradições e conflitos femininos, onde a imagem conservadora da mulher se alternava com uma ousadia, apontando para um novo modelo de mulher.

A moda e o corpo são inseparáveis. A moda é possível pelo suporte corporal, ela ganha vida por ele, já que é expressão. Da mesma  maneira podemos pensar que o corpo vestido emana inúmeros signos. Quando entendemos que o corpo e a moda são meios de comunicação poderosos, algo que eu discuto no livro, fica impossível pensá-los desconectados da realidade social. Cada vez mais, vemos designers pensando em impacto ambiental, em discutir novos materiais e processos, em pensar a criação como algo que está em constante simbiose com o mundo.

Quais eram as fontes de inspiração de seu tio-avô?

Quando realizei a pesquisa para o mestrado, passei um bom tempo com a Thereza, irmã do Alceu e a guardiã de seu acervo pessoal. Nessa ocasião pude perceber, na sua biblioteca pessoal cuidadosamente preservada, livros de personalidades que sempre influenciaram seu desenho e sua visão peculiar da mulher como os ilustradores J. Carlos e Erté, além  de Carmen Miranda, sua velha conhecida dos áureos tempos dos cassinos.

O livro de Gabriela pode ser encontrado no site da Livraria Cultura, no site da editora AnnaBlume e, em Belo Horizonte, na Livraria Capitu (Rua dos Inconfidentes 1169, Funcionários). O Lady’s Comics vai sortear um “Vamos, garotas!” para seus leitores! Amanhã (27/10), divulgaremos o que você precisa fazer para concorrer, em nosso twitter! Fique atento!

3 comentários em “As Garotas do Alceu

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