As mulheres do 44º Festival de Angoulême

O Festival de Quadrinhos de Angoulême, que ocorre anualmente na comuna de Angoulême, na França, é um dos maiores do mundo. E quando digo que é um dos maiores festivais de quadrinhos do mundo eu não estou me referindo apenas às dezenas de milhares de pessoas que passaram por Angoulême entre os dias 26 e 29 de janeiro de 2017, mas pela grande quantidade de países, autores, atividades e exposições que se fizeram presentes.

É verdade quando dizem que a cidade de Angoulême respira quadrinhos. Todas as placas de identificação de ruas que eu vi, por exemplo, mesmo em locais mais afastados do circuito do festival, eram em forma de balões de fala. Algumas receberam os nomes de importantes autores dos quadrinhos franco-belgas, como Hergé, criador do icônico Tintin.

Nesta 44ª edição as mulheres quadrinistas mais uma vez marcaram presença nos estandes das grandes e pequenas editoras, tendo seus trabalhos apresentados ao grande público, participando de debates e conferências, jovens quadrinistas e veteranas. Uma pesquisa realizada em 2016 pelos Les Etats généraux de la bande dessinée, associação fundada em 2014, mostra que atualmente o número de mulheres que participam do mercado de quadrinhos franco-belga é de 27%. Ano passado, a organização do Festival de Angoulême declarou que havia apenas 12,4% de mulheres participando deste mercado. Eu diria que tivemos aqui uma mudança de panorama substancial.

Representantes de coletivos de mulheres e Quadrinhos em Angouleme. Foto: Charlotte Bailey

O dia 27 de janeiro começou com a conferência Les femmes dans la bande dessinée, (As mulheres nos quadrinhos), proposta pela International Girls Band, moderada por Sarah Lightman, vencedora do Eisner. O International Girls Band é um coletivo que reúne grupos como o Ladies’ Night Anthology (EUA), Comic Book Slumber Party (Reino Unido), FEMSKT (Finlândia) e Laydeez do Comics (Reino Unido). Apesar do título da conferência dar a entender que a discussão giraria em torno do lugar das mulheres na indústria dos quadrinhos, o objetivo das organizadoras era outro: estabelecer uma estratégia feminista para atacar a indústria dos quadrinhos.

Dentro da programação do International Girls Band estava, também, o lançamento, mundial da The International Girl Gang Encyclopedia, onde estão destacados os trabalhos de mais de trinta designers, de diferentes coletivos. Não preciso dizer que o auditório ficou lotado e muitas pessoas nem conseguiram entrar para assistir a apresentação, pois o esquema de segurança era muito rígido.

Aliás, depois de quatro dias abrindo e fechado minha bolsa e sendo revistada até para entrar no Hotel de Ville, onde ficava a sala de imprensa, eu já estava agindo no piloto automático. O medo de atentados terroristas em Angoulême estava estampado até nas paredes: havia cartazes orientando como agir em caso de ataque. Para entrar em qualquer espaço fechado, como tendas e exposições, era obrigatória a revista, que incluía passar por detector de metais e, em alguns casos até tirar o casaco. E havia, claro, soldados armados patrulhando as ruas. Mas nada disso estragou a festa.

O Festival de Angoulême é um mundo, cheio de estímulos e espaços fantásticos. Quatro dias não são nada. Muita coisa que eu queria assistir, eu não consegui. Muita coisa que eu queria comprar, eu acabei não comprando. Mesmo quem já foi a outras edições tem dificuldades em se organizar dentro de tudo que a programação oficial e não-oficial tem para oferecer. Muitas vezes eu abri mão de uma palestra ou uma exposição para poder sentar e conversar com uma autora, rever colegas e fazer novos contatos. Ganha-se por um lado, perde-se por outro.

Acho que poderia escrever um livro reunindo cada experiência que tive em Angoulême. É difícil tentar resumir tudo em duas páginas, da mesma forma como é difícil tentar selecionar as informações que mais relevantes. Vou encerrar com um dos momentos mais singulares do festival, quando no dia 27 de janeiro eu estive frente a frente com destacada quadrinista britânica Posy Simmonds, que teve álbuns adaptados para o cinema.

Ela estava lá a dar autógrafos e havia apenas uma pessoa na fila. Mais do que rápido comprei um exemplar de Tamara Drewe e me dirigi à mesa de autógrafos. O meu francês é mediano e o meu inglês evoluiu bastante, mas ainda não é lá grandes coisas – mas eu tenho a vantagem de ser cara de pau. Conversei animadamente com Posy, a presidente do júri de festival deste ano, autora consagrada. E ela, muito simpática, falou algumas frases em português comigo.

Por que estou citando este episódio em especial? Para dar um exemplo do que foi Angoulême para mim, brasileira, que não domina outro idioma de forma a poder emplacar uma conversa longa, mas que em todos os dias conseguiu se comunicar com pessoas diferentes, seja em inglês ou em francês. Eu fui extremamente bem acolhida, seja pelo quadrinista sueco que está lançando agora sua obra, seja por uma ilustre veterana como Posy Simmonds.
O festival de Angoulême é espaço privilegiado para contatos, para trocas, para mostrar seu trabalho, seja ele como jornalista, quadrinista ou pesquisadora. Num mercado cada vez mais competitivo e onde ter os quadrinhos como profissão é muito difícil, vale a pena fazer um esforço e ir a Angoulême pelo menos uma vez. Vale o risco, vale a experiência. Eu quero voltar, repetir a dose e tentar aproveitar o máximo possível.

 

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