Autora da HQ premiada na Irlanda está no Catarse

Há quatro anos, o quadrinho Gráinne Mhaol (editora Clo Mhaigh), da roteirista e colorista Gisela Pizzatto e do desenhista Bruno Büll, foi considerado “Melhor Livro Ilustrado” pelo Prêmio Nacional de Literatura em Irlandês. Agora, em 2017, os autores buscam financiamento coletivo para trazer a história premiada ao Brasil.

A HQ A Rainha Pirata, que já está na reta final no Catarse, conta a história da hibérnia Grace O’Malley, que viveu no século XVI, e é uma das primeiras mulheres piratas de que se tem registro.

Grace O’Malley, a rainha pirata — Roteiro e cores de Gisela e desenho de Bruno

 

O Lady’s fez uma breve entrevista com Gisela para conhecer o projeto e a produção da artista.

Estátua de Grace O’Malley

Como conhecesse a história da pirata Grace O’Malley?
Sou uma viciada em Irlanda. Adoro tudo, estive lá três vezes (pretendo voltar!), adoro a história e, como quem é viciado, eu fuço. A História da Grace nem me lembro como caiu na minha vida. Provavelmente fuçando mesmo. Pesquisei a história dela e acabei me encantando. Escrevi um conto há muitos anos que foi o escopo pra esta graphic novel lançada na Irlanda e que estamos lançando agora aqui.

Página da HQ

Vi que há uma série de produtos culturais na Irlanda que falam da história de Grace. Além de ter rompido as expectativas do que era ser mulher naquela época, porque não se manteve no âmbito familiar, o que faz dela ser tão relembrada?
Ela é uma figura importante acho porque ela é um símbolo de resistência e orgulho irlandês. Era uma nobre irlandesa, não inglesa, e mesmo que se portasse como pirata sempre se auto intitulava nobre, rainha, alguém que falou de igual para igual com a Rainha Elizabeth: porque ela também era uma rainha. Os irlandeses são muito apegados à sua cultura, que os ingleses tentaram ao máximo apagar nos períodos mais críticos da ocupação, Grace representa tudo isso: alguém que nunca baixou a cabeça ao invasor, alguém que carregava a essência e o sangue dos irlandeses originais. Acho que por isso ela é tão importante.

Musical sobre a vida de O’Malley. Cena do encontro com Isabel I da Inglaterra.

Li a entrevista que saiu no Impulso HQ sobre o quadrinho que foi lançado na Irlanda, em julho de 2013. Quanto tempo levou o processo desde o contato com as editoras até a finalização do projeto?
Foi uma coisa super rápida. A história tem 80 páginas, todas coloridas e foi produzida em um ano. O contato com o editor lá fora foi rápido: enviamos amostra do trabalho, recebemos um ok deles, e começamos a produção. Acho que foi isso mesmo, tudo levou cerca de um ano.

Além da Rainha Pirata

Gisela tem 19 anos de carreira, é professora, ilustradora e quadrinista. Sua arte já passou por Itália, Rússia, Grécia, Estados Unidos, Finlândia, Alemanha, Irlanda, Singapura, além do Brasil. A produção de mangá, por sua vez, alcançou solos italianos, alemães e singapuranos.

Antes de tudo isso, a artista que começou a ler quadrinhos com A Turma da Mônica e as revistas Disney, “quando eu era bem pequena meu pai assinava pra eu e minhas irmãs lermos”, explica. Já o contato com os mangás e animes foi por meio dos Cavaleiros do Zodíaco na extinta TV Manchete e depois não parou mais.

Como chegasse ao ponto de ser professora de mangás? Quando fizesse História, já planejava fazer roteiros, ilustrações e quadrinhos?
Eu comecei a dar aula de Desenho e pintura em 1998, nessa época, um grande amigo meu (o Maurilio DNA) já dava aulas de mangá. Em 2001 ele precisou fazer uma viagem pra Austrália e ficaria um ano. Como eu já desenhava ele me perguntou se gostaria de ficar no lugar dele, que seria tranquilo pra eu pegar o jeito do traço. E foi mesmo. Desde então dou aula de mangá.

Quando eu comecei a faculdade de História eu já estava muito imersa no mundo da Arte, mas não pensava e nem me interessava em fazer faculdade nessa área. Não tinha idéia nenhuma que a minha vida iria por esse caminho…

Além da aquarela, quais materiais que usas?
Normalmente uso marcadores (COPIC) e nanquim, além da aquarela.

Quais tuas referências?
Vixe. Essa pergunta é sacanagem. Tem muita coisa. Livros, filmes, música. Sei lá de tudo um pouco. Se for falar de mangá, eu gosto muito do trabalho do CLAMP como um todo, adoro o tipo de narrativa do Tite Kubo, mas tem muito mangaká talentoso… atualmente estou amando o trabalho da Miwa Shirow Acho que eu nem sei mais falar tudo o que me construiu até aqui. Já assisti de tudo e li de tudo, todos os tipos de mangá, de estilos diversos.

Nesses 19 anos atuando nessa área… duas perguntas:
Quais as mudanças que visse na cena dos mangás nacionais? O boom de mangás publicados ajudaram os brasileiros de algum modo?
Bom, acho que melhorou no sentido de que antes tínhamos só Holy Avenger, que foi um título sensacional, comprei tudo, trabalho lindo. Mas só tinha ele. O Studio Seasons tentou publicar alguma coisa, mas não deu certo. Hoje temos o Studio Seasons, que são umas moças talentosíssimas, sérias e muito dedicadas. As editoras estão mais abertas à produção nacional, mas isso não quer dizer que está fácil ou que você vai conseguir publicar em uma editora grande só porque tem um bom trabalho. Não vai. Elas apostam naquilo que vende, e o que vende é mangá japonês, que tem alta vendagem lá fora. Então… acho que continua complicado, mas o financiamento coletivo e a internet fizeram as pessoas perceberem que tem muita gente boa por aí, fora do mercado mainstream.

Não sei se o boom dos mangás ajuda o desenhista brasileiro… Ajuda a formar um público, isso com certeza. Ajuda a trazer coisas mais diferentes, pra que mesmo os fãs de mangá saibam que existe mais coisa do que Naruto pra ler. Acho isso importante para a formação do público que lê e que nem sempre se preocupa em procurar na internet outros trabalhos que não estejam na Shonen Jump.

Quais são os desafios para a produção de quadrinhos com inspiração no estilo japonês no Brasil?
Acho que para a produção os desafios são técnicos: estudar, estudar e estudar. Mangá não é só personagem de corpo esguio e olho grande. É narrativa, é traço (que é constantemente atualizado — o que se fazia há dez anos não cabe mais), é aplicação de retícula, é ritmo, é balão de fala. É detalhe. Não basta saber desenhar bem, tem que ter uma história boa. Não basta ter essas duas coisas: tem que entender como a narrativa do mangá funciona. O que fazer, o que não fazer. E isso é estudo. Acho que é nisso que as produções brasileiras mais pecam e é com isso que procuro me preocupar quando estou fazendo roteiros e páginas de mangá. Espero que esteja conseguindo.

O Peso da Água foi o primeiro one-shot publicado pela quadrinista e via Catarse

O quadrinho O Peso da Água também se passa no mesmo cenário, tens alguma afinidade com esse mundo marítimo?
Todo mundo pergunta isso. Mas acho que foi só coincidência mesmo. Tenho muitas outras histórias não se passam no universo marinho, e calhou de essas duas é serem publicadas.

A Rainha Pirata chega na reta final! Apoiem como puder!

Onde encontrar Gisela? @gisapizzattofb.com/GiselaPizzatto | gisapizzatto.deviantart.com


 

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