Bate-papo​ ​com​ ​Beliza​ ​Buzollo

 

 

A quadrinista Beliza Buzollo inicou em 2015 Na ponta da línguasérie de tirinhas humorísticas sobre o cotidiano de mulheres que amam mulheres. Hoje, sua página tem mais de 31 mil curtidas e um novo perfil no instagram. A seguir, ela conversa conosco sobre sua relação com o público, o ativismo no seu trabalho e a visibilidade lésbica na cultura.

Aline: No​ ​Minas​ ​Nerds ​você​ ​contou​ ​que​ ​começou​ ​a​ ​publicar​ ​as​ ​tirinhas​ ​aos​ ​poucos, primeiro​ ​para​ ​os​ ​amigos,​ ​depois​ ​em​ ​grupos​ ​LBT,​ ​até​ ​criar​ ​a​ ​Na​ ​Ponta​ ​da​ ​Língua.​ ​Fiquei com​ ​a​ ​impressão​ ​de​ ​que​ ​desde​ ​o​ ​início​ ​o​ ​público​ ​esteve​ ​muito​ ​perto​ de​ ​você​ ​e​ ​do​ ​seu trabalho,​ ​estou​ ​enganada?​ ​Como​ ​essa​ ​relação​ ​com​ ​os​ ​leitores​ ​te​ ​afeta​ ​na​ ​hora​ ​de colocar​ ​o​ ​lápis​ ​no​ ​papel?​ ​Agora​ ​que​ ​sua​ ​página​ ​tem​ ​mais​ ​de​ ​31​ ​mil​ ​curtidas,​ ​essa relação​ ​é​ ​diferente?

Beliza: Olha, você tá certa! Por estar tão inserida no universo que retrato, um alto nível de proximidade com as leitoras acaba sendo inevitável. A relação com elas é importante para ter contato com as diferentes experiências de sexualidade e é algo que cultivo com muito carinho. Afinal, uma das muitas propostas do Na Ponta da Língua é tentar mostrar de forma sensível um pouco desse universo tão plural que é o de mulheres LBT. Com o crescimento da página, isso ficou ainda mais palpável e acessível.

A: Você​ ​também​ ​disse​ ​que​ ​criou​ ​a​ ​página​ ​em​ ​​2015 porque percebeu​ ​que​ ​apesar​ ​da​ ​grande​ ​receptividade,​ ​quase​ ​não​ ​existiam​ ​quadrinhos​ ​voltados para​ ​mulheres​ ​que​ ​se​ ​relacionam​ ​com​ ​mulheres.​ ​De​ ​lá​ ​pra​ ​cá,​ ​você​ ​vê​ ​mudanças significativas​ ​na​ ​representatividade​ ​dessas​ ​mulheres​ ​nos​ ​quadrinhos?

B: As mudanças são tímidas, mas estão chegando. Principalmente nos quadrinhos independentes. Há mais qualidade e mais variedade de graphic novels e webcomics trabalhando essas representações – Rock and Riot, Fresh Romance, Infinite Loop, Lumberjanes, Monsterpop, PrincessPrincess são alguns exemplos felizes. Então sim, de fato as coisas melhoraram, mas ainda é difícil para pessoas LGBT encontrarem quadrinhos com conteúdo relacionável. Além de termos que pesquisar bastante, a maior parte do conteúdo produzido está em inglês – o que deixa ainda mais inacessível. Plataformas especializadas como vocês do Lady’s, Armazém de cultura, Minas Nerds têm sido fundamentais para a disseminação desses conteúdos e eu agradeço demais o investimento de vocês.

A: Dia 29 de agosto foi Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. No​ ​que​ ​diz​ ​respeito​ ​especificamente​ ​à​ ​visibilidade​ ​lésbica​ ​na​ ​cultura​ ​e​ ​nos quadrinhos,​ ​que​ ​desafios​ ​você​ ​vê​ ​para o ​nosso​ ​momento?​ ​Gostaria​ ​de​ ​compartilhar​ ​alguma autora,​ ​projeto​ ​ou​ ​ideia​ ​que​ ​promova​ ​a​ ​visibilidade​ ​lésbica?

B: São muitos os desafios. A produção cultural é uma força significativa na normatização de costumes sociais. Ela simultaneamente reflete e cria a própria cultura em que está inserida, influenciando no que julgamos importante ou não. Se somos constantemente bombardeados com apenas um certo tipo de conteúdo (no caso, heterossexual), a mensagem promovida é a de que indivíduos que se desviam dessa norma simplesmente não existem na sociedade, ou estão à margem dela. Apesar das mudanças positivas no cenário LGBT e modesto aumento de sua presença nos grandes veículos de mídia, o espaço nele conquistado ainda é minúsculo e periférico. Precisamos estar mais numerosos para começar a ter a realidade de nossa comunidade melhor refletida.

No que concerne a questão lésbica, há uma barreira dupla a ser transposta. Isso pois as produções culturais configuram um território não só predominantemente heterossexual como também masculino. Ou seja, além da questão da sexualidade, há o contexto patriarcal da sociedade que deslegitima a possibilidade do amor entre duas mulheres. O modelo heteronormativo de afeto banaliza e infantiliza nossas relações – elas simplesmente não são levadas a sério. Essa exclusão contribui para a perpetuação de estereótipos como “lésbicas só não encontraram o homem certo”, “querem ser homem”, “não fazem sexo de verdade”, e por aí vai. Precisamos cobrar dos produtores e criadores uma representação mais diversa e mais numerosa da sexualidade da mulher, pois enquanto seguirmos invisíveis esses estereótipos nocivos permanecerão.

Mas lutar por visibilidade é apenas uma parte do desafio: é nosso dever também questionar a qualidade de nossa representação.

De início, fica o apelo: parem de nos matar! Nos dêem finais felizes! Na maioria das narrativas as personagens acabam morrendo ou em finais trágicos e sofridos, frequentemente ligados à sua sexualidade. Há tanta morte de LGBT nas produções culturais que o fenômeno já tem até nome: Bury your Gays [enterrar nosso gays] – a Autostraddle fez uma lista de todas as personagens abertamente gays que já morreram na televisão. Estamos morrendo, sendo retratadas como sofredoras, alívio cômico, pervertidas ou repulsivas. Isso constrói uma visão negativa de nossa vivência e afasta o público de desejar se identificar com ela, pois não reflete uma experiência sadia e desejável. Para romper isso, precisamos de personagens vivos, assumidos e com narrativas multidimensionais que não girem exclusivamente em torno da sexualidade da personagem, assim como ocorre com as representações heterossexuais.

Outra questão que devemos denunciar é o Queerbaiting. Através de subtextos e entrelinhas, a prática se trata de induzir uma potencial atração homoafetiva entre as personagens, mas sem nunca explicita-la ou assumi-la. Dessa forma, a promessa da representatividade conquista a audiência LGBT sem se comprometer com seu público heterossexual – exemplos claros disso são Supernatural, Sherlock e Once upon a time. É uma tentativa de sair pela tangente e não pode ser aceita. Devemos exigir dos produtores um posicionamento mais explícito acerca da sexualidade de seus personagens e selecionar melhor as obras que merecem nossa atenção. How to get away with murder, Orphan black, Shameless, Orange is the new black são exemplos de produções que contém narrativas LGBT com muito mais nuance e que provam que representações bem feitas não impedem que a obra seja um sucesso. Parem de brincar com os corações de uma comunidade carente de representatividade de qualidade!

Além do mencionado, outro desafio seríssimo a ser superado na representatividade lésbica é a fetichização. Na maioria das vezes, a interação entre duas personagens em uma narrativa é limitada a uma alta carga de erotismo, renegando a relação entre mulheres a uma condição meramente sexual, objetificada e voltada ao olhar e prazer masculino. O problema é que no controle dessas narrativas há apenas produtores, desenhistas, diretores, escritores homens e heterossexuais. Se continuarmos partindo desse olhar vai ser muito difícil haver a criação de conteúdo para além da erotização. É importante, então, que as lésbicas não só estejam nas páginas ou nas telas, mas que sejam também a mão ativa por trás do desenvolvimento do enredo e das personagens. Partindo de alguém de quem possui conhecimento de causa, o amor entre mulheres pode ser retratado de forma real, multifacetada e com a complexidade psicológica merecida. Queremos arcos mais completos e narrativas mais sinceras. Denise (Master of None), Kat e Adena (The bold type), Korra e Asami (Legend of Korra), Saphire e Rubi / Pearl e Rose (Steven Universe), Miss America são alguns exemplos de produções que dão passos significativos em direção a representações mais sadias da comunidade.

Na cena cultural lésbica daqui do Brasil temos muitos destaques: a youtuber Louie Ponto, o grupo musical Obirin Trio, a rapper Luana Hansen, a websérie catarinense Super, o festival Dyke fest.

A: O​ ​que​ ​você​ ​gostaria​ ​de​ ​dizer​ ​para​ ​as​ ​mulheres​ ​lésbicas​ ​do​ ​mundo​ ​dos quadrinhos?

B: Multipliquem-se e apareçam! Para as poucas que conheço, continuem o seu trabalho: ele é necessário e vocês são incríveis.

A: O​ ​ativismo​ ​faz​ ​parte​ ​do​ ​seu​ ​trabalho​ ​e​ ​você​ ​não​ ​tem​ ​medo​ ​de​ ​assumir​ ​isso abertamente.​ ​O​ ​que​ ​significa​ ​pra​ ​você​ ​ser​ ​uma​ ​artista​ ​e​ ​ativista?​ ​Como​ ​isso​ ​faz​ ​parte​ ​do seu​ ​processo​ ​criativo,​ ​na​ ​prática?

B: A meu ver a arte é sempre política. Está sempre inserida em ou representando algum contexto histórico/social, mesmo que de forma sutil. No contexto LGBTfóbico em que vivemos, o próprio ato de sobreviver já é resistência. Ao produzir quadrinhos que representam essas realidades e buscam conscientização social, não teria como eu não ser ativista. Na prática do processo criativo, trata-se de prestar atenção e de saber reconhecer a imensa pluralidade das vivências LBT: apesar de eu fazer parte do meu público, nunca parto da premissa que a minha experiência é a universal, portanto busco sempre entrar em contato com diferentes vivências para tentar transmitir uma experiência mais integral. É um constante exercício de empatia, observação e pesquisa.

A: E​ ​por​ ​que​ ​fazer​ ​quadrinhos,​ ​especificamente?

B: Além do gosto pessoal, foi a linguagem que me veio mais naturalmente para me expressar. Não entendia muito bem o porquê disso, mas hoje vejo os quadrinhos como uma das formas mais eficientes de se comunicar ideias e pensamentos de todos os tipos de complexidade. São um excelente meio para criar histórias que estimulem a mudança social. Em sua entrevista para a revista Cult Nick Sousanis conseguiu expressar de maneira consciente e poética a extensão da capacidade de comunicação através dos quadrinhos. Faço das suas palavras as minhas: “Os quadrinhos nos permitem ver coisas de forma única, porque unem o pensamento sequencial (que é como nós lemos) e o pensamento simultâneo (como nós vemos) – o que, na minha opinião, é o mais próximo de como nossos pensamentos funcionam: nós temos pensamentos lineares, e daí tangentes; e ao mesmo tempo pensamentos pairando aos lados, e pensamentos que se sobrepõem. Tudo isso fica muito difícil de representar de uma forma rígida e direta sem que muito se perca. Acho que os quadrinhos colocam tudo no papel de uma vez, de forma organizada e com menos perdas de conteúdo, para que o leitor possa descobrir tudo em seu próprio tempo. E isso não é bobo: é o jeito que nossas mentes trabalham.”

A: O​ ​Armazém​ ​de cultura ​escreveu​ ​uma​ ​vez​ ​sobre​ ​a​ ​capacidade​ ​subversiva​ ​do​ ​seu humor​ ​​ ​e eu​ ​fiquei​ ​pensando​ ​em​ ​como​ ​essa​ ​é​ ​uma​ ​parte​ ​forte​ ​da​ ​tradição​ ​dos​ ​quadrinhos​ ​e cartuns​ ​políticos​ ​brasileiros.​ ​Você​ ​está​ ​aí,​ ​fazendo​ ​o​ ​melhor​ ​da​ ​tradição,​ ​mas​ ​de​ ​um​ ​jeito ainda​ ​mais​ ​subversivo.​ ​Fica​ ​claro​ ​para​ ​mim​ ​que​ ​essa​ ​é​ ​uma​ ​contribuição​ ​para​ ​o​ ​cenário do​ ​quadrinho​ ​nacional​ ​como​ ​um​ ​todo,​ ​mesmo​ ​que​ ​(ou​ ​ainda​ ​mais​ ​porque)​ ​você​ ​se​ ​dirija a​ ​mulheres​ ​lésbicas​ ​e​ ​bissexuais​ ​especificamente.​ ​Fico​ ​muito​ ​frustrada​ ​quando manifestações​ ​de​ ​grupos​ ​“minoritários”​ ​(ênfase​ ​nas​ ​aspas)​ ​são​ ​relegadas​ ​ao​ ​lugar​ ​do “nicho”​ ​–​ ​livros​ ​escritos​ ​por​ ​mulheres​ ​só​ ​na​ ​seção​ ​feminina,​ ​pessoas​ ​LGBT​ ​ou​ ​negras​ ​só em​ ​eventos​ ​sobre​ ​questões​ ​de​ ​gênero​ ​ou​ ​raciais,​ ​etc.​ ​Essa​ ​é​ ​uma​ ​questão​ ​para​ ​você? Afeta​ ​o​ ​seu​ ​trabalho​ ​de​ ​alguma​ ​forma?

B: É uma questão que me pego refletindo constantemente. O que é um filme LGBT? É humor? Ação? Comédia? Isso não diz nada, não é uma categoria autossuficiente. É importante nos unirmos em debates e espaços seguros, mas é igualmente relevante levar o debate para fora de nossas bolhas. As categorias de nicho perpetuam a noção de que a minoria é unicamente definida pela sua condição de minoria, quando na realidade somos muito mais que apenas nosso gênero, raça ou sexualidade. E se passamos a maior parte do nosso tempo tentando nos identificar em narrativas heteroafetivas porque o contrário não pode ser possível?

Meu trabalho em específico carrega um forte cunho de militância LGBT, tendo como tema principal nossas vivências cotidianas. Mas não só. No fundo, trata de experiências, relacionamentos e sentimentos que em sua essência transcendem sexualidade. Prova disso é a significativa parcela do meu público que é hétero e se identifica com o conteúdo. Ter conseguido isso é uma das muitas coisas que orgulham no NPDL. Compartilhamos mais do que imaginamos e com a nossa luta por respeito e aceitação, é o que buscamos demonstrar.

A: Qual é o seu quadrinho mais popular? E o que você mais gosta?

B: Sinceramente não tenho um que mais goste. Pode soar clichê, mas são todos uma parte muito importante da trajetória que vem sendo construída pelo NPDL. Eu diria que o quadrinho que eu mais gosto é sempre o próximo, pois significa que o trabalho continua.

A: Em quais projetos você está trabalhando agora?

B: É muita novidade que ainda vem vindo! De imediato, agora o Na Ponta da Língua tem uma conta no instagram. Tem conteúdo exclusivo, dia-a-dia do NPDL, sketches, notícias, e recomendações de textos e publicações tanto LGBT quanto de quadrinhos. Estão todos convidados a conferir e seguir: @napontadalingua_hq. Colem lá, gente! Além disso, estou trabalhando em um novo zine a ser lançado na Santos Comic Expo. Não quero dar muitos detalhes, mas ele é tudo o que eu gostaria de ter tido acesso quando estava começando a carreira lésbica!

Gostaria de agradecer ao Lady’s Comics pelo trabalho sempre incrível de vocês e por terem me dado esse espaço. O mundo é um lugar melhor por vocês existirem. Um beijão Na Ponta da Língua!

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