BD: Um coletivo de autoras se revolta contra o sexismo

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Por Judith Siberfeld | Tradução Ana Luiza Koehler

Publicado originalmente em Yagg.

Cansadas de serem catalogadas como autoras de BD ‘feminina”, quase 150 autoras se unem em um coletivo. Entre elas, Julie Maroh, Lisa Mandel, Carole Maurel, Pénélope Bagieu, Amruta Patil, Marjane Satrapi…

Tudo (ou quase) começa na primavera de 2015 quando Julie Maroh (O Azul é a cor mais quente) é contatada pelo Centro Belga de Banda Desenhada (CBBD) para fazer parte de uma exposição intitulada “A BD das garotas”. “Ela inclui desde quadrinhos para meninas ao romance gráfico passando por blogueiras, quadrinhos para adolescentes, quadrinhos feministas, quadrinhos românticos para solteiras, quadrinhos para viciad(a)s em compras, entre outras”, explica-lhe o CBBD. Julie Maroh bem que tentou explicar-lhe que a proposta é misógina, mas não consegue se fazer ouvir. Ela então manda um e-mail a outras 70 autoras de BD. Quando então o CBBD manda o seu convite a Jeanne Puchol, a discussão é retomada. É então assim (ou quase) que nasce o Coletivo de autoras de BD contra o sexismo.

Entre suas autoras estão Marjane Satrapi (Persepolis, The Voices…), Lisa Mandel (Super Rainbow), Tanxxx (Esthétique et filatures, They joy of femmes à poil…) Julie Maroh, claro, Carol Maurel (Comme chez toi), Kim Consigny (Pari(s) d’amies), Muriel Douru (que Yagg publica regularmente), Anne-Charlotte Gautier (L’enterrement de mês ex), Amruta Patil (Kari, Babel Fish…) Mathilde Ramadier (da qual Yagg publicou há um ano uma reportage sobre as pornógrafas feministas em Berlin), Penélope Bagieu (Joséphine…) et beaucoup d’autres.

Seus testemunhos, publicados no site recém lançado pelo Coletivo, mostram mais uma vez a que ponto o tratamento sexista é entranhado no quotidiano, sobretudo o profissional.

‘Uma vez que um quadrinho ‘masculino’ nunca foi definido ou verificado, particularizar a obra de mulheres quadrinhistas como ‘quadrinhos femininos’ é um ato de desprezo. Se esta denominação qualifica algumas características estereotipadas de nosso trabalho e maneira de pensar, então nós, autoras de quadrinhos, não as reconhecemos. Da fato, enquanto nossos colegas homens não se valem de sua ‘masculinidade’ na sua produção, não vemos porque fazê-lo de nossa ‘feminilidade”, escrevem as cerca de 150 signatárias da Carta. ‘O quadrinho ‘feminino’ não é um gênero narrativo. A aventura, a ficção científica, o romance policial, o romance, a autobiografia, o humor, o romance histórico, a tragédia são gêneros narrativos que as autoras dominam sem precisar fazer referência ao seu gênero. Publicar coleções ‘femininas’ é misógino. Isso cria uma diferenciação e uma hierarquização com relação ao conjunto da produção literária, com a universalidade de leituras dirigidas – por oposição – ao sexo masculino. Por que o feminino deveria ficar de fora do universal? Diferenciar deste modo, com base em estereótipos, só cria uma gera nas autoras uma percepção negativa de seu próprio trabalho, sobre sua auto-confiança e performance. O mesmo acontece com os homens que apreciam aquilo que uma autoridade inominada catalogou como obra ‘feminina’.’

”Feminista’ não é um insulto’, continuam elas. ‘O feminismo é a luta pela igualdade entre homens e mulheres na nossa sociedade, o anti-sexismo, e queremos promover uma literatura mais igualitária. Encorajamos a diversidade de representação nos quadrinhos. @s autor@s e ator@s da cadeia de produção do livro devem dar mais visibilidade às mulheres, às configurações familiares homoparentais, às pessoas de cor, de pluralidade étnica e social.’

‘Encorajamos os livreiros e bibliotecários a não separar os livros de autoras ou considerados como feitos para meninas quando eles organizam suas estantes. Heroínas mais presentes e ativas que personagens masculinos não implica que homens e meninos não possam se identificar com elas e gostar da história. Esperamos que os autores, editores e instituições estejam à escuta da riqueza que cada pessoa tem em si, que não haja em nós separações estanques entre masculino e feminino, exceto aquela imposta pela sociedade ou religiões [?]. Em cada pessoa há uma vasta gama de elementos entre, em torno e além destas noções de masculino e feminino. São os seus atributos e talentos, e a literatura não deveria ter medo disso.”

Mais sobre o coletivo e carta pode ser visto aqui: http://bdegalite.org/

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