Billie Holiday, de Muñoz e Sampayo

No ano de 1989, 30 anos após a morte de Billie Holiday, um jornalista precisa escrever uma matéria sobre a cantora e compositora norte-americana de jazz, apesar de não saber quem ela foi. Essa é a premissa da história dos quadrinistas argentinos José Muñoz (ilustrador) e Carlos Sampayo (roteirista). Enquanto escuta o disco Lady in Satin (talvez um dos melhores dela), se debruça em textos que descrevem a vida de Eleanora Fagan Gough (seu nome de registro). Podemos dividir a história em três pontos de vista diferentes: do repórter a escrever a matéria (que se transforma em narrador personagem enquanto lê textos sobre a cantora), da própria Lady Day (apelido cunhado pelo saxofonista Lester “Pres” Young, seu grande companheiro na música), quando ela toma conta da página e dispensa a necessidade de um narrador; e pelo ponto de vista do detetive Alack Sinner, personagem criado pelos autores em 1975, que tem alguns encontros casuais com a cantora durante a história, cada um marcante à sua maneira.

Logo no início de suas leituras, o jornalista diz que a “imprensa marrom” preferia se concentrar nos problemas que ela tinha com as drogas ou em seus relacionamentos, e não na sua música. Curiosamente ou propositalmente, a escolha dos quadrinistas também foi em muitos momentos por esse caminho, retratando o lado mais frágil e decadente da cantora. Não se pode negar que os problemas de Billie Holiday eram constantes, tendo por isso sido sua vida muito encurtada, falecendo com apenas 44 anos. Mas pouco se fala sobre sua música, suas turnês, suas bandas, ficando relegada quase unicamente à figura de Lester Young os trechos que mencionam a sua carreira. Fazendo um comparativo com alguém dessa década, podemos equiparar a Billie Holiday o tratamento que a cantora e compositora Amy Winehouse (que também cantava jazz entre outros estilos e tinha uma voz imponente e melancólica) teve da imprensa, onde sua música sempre era menos importante do que a sua problemática vida pessoal.

Apesar da técnica apresentada pela dupla, como fã da cantora senti falta de uma representação que fosse além da ênfase à sua prostituição, à violência doméstica, à segregação racial e ao abuso de drogas lícitas ou ilícitas. Os pontos de vista da HQ são quase sempre masculinos e a única interação que vemos entre Lady Day e outras mulheres são na delegacia, onde há uma animosidade entre elas e no hospital, onde recebe a caridade de uma enfermeira em seu leito de morte. A relação com sua mãe, por exemplo, figura de grande importância na vida de Billie, não é mencionada em nenhum momento. Mesmo a música “Strange Fruit”, provavelmente sua interpretação mais importante, e segundo depoimentos¹, a grande causa da perseguição constante que sofria da polícia, tem uma breve menção em uma das páginas da história. É compreensível que apenas uma pequena parte da sua vida pudesse ser mostrada em uma narrativa gráfica com menos de cinquenta páginas, entrecortada pela vida dos narradores, contudo deu-se muita ênfase aos seus problemas, em detrimento de outros aspectos da vida de Billie Holiday. Talvez tenha sido uma escolha dos autores se aproximar do retrato trazido pela “imprensa marrom”, mas senti falta de uma representação mais plural da cantora.

O uso dos balões no quadrinho para mostrar as músicas é interessante: já que ela é um elemento estranho às HQs, quase não cabe dentro deles, demonstrando que há muito mais além daquilo que você vê. Outro uso inusitado é quando Lady Day e Pres se encontram pra tocar juntos pela última vez em um programa de televisão a música “Fine and mellow” (que inclusive está disponível no YouTube, vale a pena conhecer) e podemos ver os olhos dos dois conversando entre si pelos balões, algo que pareceria impossível transpor para uma história em quadrinhos e os autores conseguiram fazê-lo perfeitamente. Uma curiosidade do título é que em duas páginas há cenas escondida como uma espécie de “easter egg”, onde uma mãe fala mal dos quadrinhos do filho e diz que ele não será um quadrinista, o que é particularmente cômico para quem é quadrinista, mas também pode ser uma referência dos autores ao período logo após a publicação do livro “A sedução dos inocentes” (1954), que culminou numa perseguição às HQs e na criação de um código de conduta para a aprovação das publicações como “seguras”, o “Comics Code Authority” (1954).

A arte marcante de Muñoz traz para a história uma ambientação “noir”, semelhante à atmosfera dos filmes policiais muito comuns na época de Billie; sem gradações de cinza, apenas o preto e o branco chapados na página. Contudo, apesar de trazer contrastes muito interessantes nos desenhos, em alguns momentos pode ficar confuso se os personagens são negros ou brancos, o que nessa história em questão é muito importante, por terem os autores escolhido se pautar em expor cruamente o lado racista do período em questão. A narrativa de Sampayo é um pouco difícil para quem não tem o costume de ler histórias em quadrinhos porque está sempre misturando passado e presente, utilizando de maneira inteligente os recordatórios, que ligam os anos de 1989 e 1959, mas ele consegue conduzir a HQ sem se perder nessas transições, amarrando bem as idas e vindas do roteiro e um leitor atento consegue acompanhá-lo pela história construída.

Sobre a parte física da edição prefiro não comentar, pois não tive em mãos o lançamento recente da editora MINO, tampouco o que foi lançado anteriormente pela L&PM, mas a edição de 2007 da argentina ojodepez!. O que posso dizer é que independente da edição que você tenha em mãos, vale a pena ler essa obra da dupla José Muñoz e Carlos Sampayo, para conhecer um pouco da vida de uma grande cantora e também uma história em quadrinhos com grande domínio da técnica, trazendo uma arte que abusa da luz e das sombras e uma construção narrativa nada óbvia, onde a constante mescla entre o passado e o futuro casam como uma dança, embalada pela música inesquecível de Billie Holiday.

¹ David Margolick: Strange Fruit. São Paulo: Cosac Naify, 2012.

 

 

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