Breve história da imprensa feminista no Brasil

Era uma vez um mundo sem internet e conectado por papel. Nele a informação circulava através de suportes distintos, como jornais e revistas. Por muito tempo este foi o espaço privilegiado de publicação de quadrinhos, tirinhas e charges. Artistas promissores e ansiosos encontravam na imprensa uma possibilidade de divulgação e sustento. Mas as mulheres cartunistas – sempre elas! – viam-se diante de obstáculos potencializados pela descrença em seu talento. O caso de Rose O’Neil é sempre um bom lembrete. Diante desse cenário, mulheres encontravam meios alternativos e criativos de divulgação de seus trabalhos. No Brasil a imprensa feminista, modalidade de comunicação que emergiu durante a ditadura, foi um espaço que, a partir de sua ideologia política, possibilitou que mulheres cartunistas fossem protagonistas de colunas inteiras de humor e de séries de quadrinhos. É por causa de jornais como Brasil Mulher, Nós Mulheres e Mulherio, fundados entre os anos 1970 e 1980, que hoje temos acesso à produção de mulheres que encontraram pouco ou nenhum acolhimento na grande imprensa. Diante disso, apresento a vocês uma série de 4 textos sobre a imprensa feminista no Brasil e sobre o espaço que cada um dos jornais citados concedeu à produção de mulheres cartunistas. Como boa contadora de histórias, dou início a essa série com um texto que visa narrar brevemente a história da imprensa feminista no Brasil. História que, obviamente, se cruza com a história do feminismo!

A história do movimento feminista no Brasil e no mundo, do ponto de vista didático, costuma ser dividida em dois momentos. O primeiro momento convencionou-se chamar de primeira onda feminista e abarca as movimentações do final do século XIX e início do século XX, em que mulheres lutavam por direitos civis, especialmente o direito ao voto. No Brasil a conquista foi efetivada em 1932, quando o então presidente Getúlio Vargas, atendendo às lutas das mulheres, assinou decreto garantindo o “voto feminino no Brasil”.

Fonte: O Brasil, Rio de Janeiro, 3 de março de 1925. Matéria.

O segundo momento é chamado de segunda onda e emergiu em paralelo a uma série de eventos que mudaram as feições do mundo. O feminismo que emergiu entre os anos 1960 e 1970 tinha fortes influências da produção de feministas como a francesa Simone de Beauvoir, autora do “Segundo Sexo”, publicado em 1949, e da estadunidense Betty Friedan, autora da “Mística Feminina”, publicado em 1963. Nesse novo êxtase feminista debatia-se aborto, maternidade, trabalho doméstico, sexualidade, contracepção.

Mas, não só de “ondas” é feita a história e no Brasil o movimento feminista construiu-se de modo específico. No Brasil, em 1º de abril de 1964, sob o comando militar e com apoio de diversas esferas da sociedade, desferiu-se o golpe que nos levou a 21 anos de ditadura. Vale lembrar que em termos históricos identifica-se o golpe como civil e militar, uma vez que diversos setores apoiaram aquele ataque à democracia. Poder legislativo, poder judiciário, governadores de importantes estados como Guanabara, Minas Gerais, São Paulo, praticamente toda a imprensa e os meios de comunicação, empresários da indústria e do comércio, proprietários de terra oposicionistas do governo, parcelas significativas da classe média, trabalhadores(as) cansados(as) da inflação e da carestia compunham setores que apoiaram a ação que colocou os militares no poder (FERREIRA e GOMES, 2014, p. 370). Fica a lição: golpes não são exclusividade dos militares!

O cenário que era de terror motivou o surgimento da imprensa alternativa que, em oposição à chamada grande imprensa – baseada no modelo empresarial e sustentada pela publicidade – construiu um modo específico de fazer jornalismo, sendo o espaço privilegiado de manifestação de minorias políticas, como as mulheres, bem como o espaço central de contestação do regime.

 

Créditos da Imagem: http://paulofontelesfilho.blogspot.com.br/2014/11/abaixo-censura-imprensa-alternativa.html

Bernardo Kucinski (1991) fez um levantamento de 150 títulos e de uma série de tipologias que marcaram a imprensa alternativa. Haviam alternativos políticos que serviam para disseminar as ideias de diferentes partidos de oposição à ditadura; os regionais, que circulavam em cidades como Porto Alegre, Belo Horizonte, Rio Branco; os humorísticos, tipologia com influência existencialista personificada pelo fenômeno O Pasquim; os estudantis, publicados nas universidades; os temáticos, a exemplo dos feministas Brasil Mulher, Nós Mulheres e Mulherio; os jornais de bairro, com demandas locais e baseados no estilo da grande reportagem. As experiências foram muitas, variadas e se relacionam diretamente com o contexto ditatorial daquele momento. Já em pesquisa com foco na imprensa feminista, Elizabeth Cardoso (2004) identificou o número de 53 jornais feministas circulando entre os anos 1974 e 1989. Número muito mais significativo do que o levantado por Kucinski que localizou apenas 6 publicações feministas.

A imprensa feminista de segunda onda no Brasil era formada por uma gama variada de mulheres, ex-presas políticas, integrantes de partidos políticos e organizações armadas, ex-exiladas, acadêmicas. Apesar das diferenças, os primeiros jornais a emergir tinham uma mesma preocupação. Segundo Amelinha Teles e Rosalina Santa Cruz Leite (2013, p. 82), não há dúvidas de que os primeiros jornais, bem como os primeiros grupos feministas que se organizaram no período, tinham como preocupação principal as demandas de mulheres trabalhadoras, da periferia, mães. Nesse cenário a historiografia da imprensa feminista costuma relembrar 3 jornais. A rememoração repetida de 3 jornais específicos, Brasil Mulher, Nós Mulheres e Mulherio, tem relação direta com o acesso a esses materiais.

Vale pontuar que a imprensa feminista era quase uma modalidade alternativa dentro da própria imprensa alternativa, sendo muitas vezes considerada “jornalismo menor”, alvo de pouca valorização. O alternativo O Pasquim, por exemplo, publicado no Rio de Janeiro a partir de 1968, pode ser encontrado em diferentes acervos do país, tendo sido, inclusive, publicado em edições comemorativas a venda a preços nada módicos.  Os jornais feministas brasileiros, infelizmente, são de difícil acesso e a consulta a esses materiais depende de elementos variados. O Mulherio, jornal que recebeu financiamento externo, está disponível para consulta online, já Brasil Mulher e Nós Mulheres pode ser encontrado em alguns poucos laboratórios de pesquisa de universidades ou em acervos pessoais.

O Brasil Mulher começou a circular em 1975 e foi fruto de uma parceria entre a jornalista Joana Lopes e Therezinha Zerbini, fundadora do grupo Movimento Feminino pela Anistia. Logo a parceria foi rompida e o jornal tornou-se uma espécie de laboratório feminista para presas políticas, mulheres integrantes do Partido Comunista (PC), do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8), da Associação Popular Marxista Leninista (APML), além de mulheres sem partido e de pequenas agremiações políticas. As leitoras da publicação eram diversas, mas seu foco era bastante claro: operárias, mulheres da periferia, das favelas, mulheres do campo. As temáticas exploradas pelo jornal deixavam sua intenção ainda mais clara: falta de saneamento básico, falta de creches e escolas, ausência de postos de saúde, carestia, condições de trabalho, congressos de trabalhadoras. (TELES e LEITE, 2013). O Brasil Mulher teve 16 números.

Fonte: Brasil Mulher, São Paulo, Brasil, Outubro de 1975. Edição 0. Capa.

O Nós Mulheres assemelhava-se ao Brasil Mulher, as preocupações temáticas eram concomitantes, mas o perfil de suas integrantes era bem distinto. O Nós Mulheres não contava com mulheres ex-presas políticas, nem com mulheres afiliadas a partidos (TELES e LEITE 2013, p. 70), mesmo que as preocupações características dessa camada de interesses fossem reproduzidas no jornal. Suas integrantes haviam participado de reuniões feministas durante o exílio em outros países e puderam voltar ao Brasil antes da Lei da Anistia. A maioria delas era, portanto, leitora de Simone de Beauvoir e Betty Friedan. Havia ainda muitas estudantes. Desde o princípio o grupo proclamava e defendia a construção de um feminismo autônomo.

 

Fonte: Nós Mulheres, São Paulo, Brasil, Setembro-Outubro de 1976. Edição 2. Capa.

O Nós Mulheres desde seu primeiro número mostrava grande preocupação na divulgação de um humor feminista, contando com a colaboração de cartunistas como Ciça.

Fonte: CIÇA. Nós Mulheres, Brasil, junho-julho de 1977. Edição 5. Coluna de Humor, p. 15.

É importante lembrar que em um mundo sem internet a imprensa desempenhava um papel importante na divulgação do trabalho de cartunistas, principalmente as mulheres cartunistas, que não tinham espaço significativo no mercado editorial. Nesse sentido, a imprensa feminista no Brasil, bem como em outros países do Cone Sul, como Argentina e Uruguai, teve papel fundamental na divulgação do trabalho e das ideias de cartunistas mulheres. Nos textos seguintes, também componentes dessa série, vamos discutir mais detalhadamente o papel dos jornais na divulgação da produção artística feminista!

A primeira edição do Mulherio, número zero, foi lançada em março de 1981. Nasceu como um boletim provisório projetado pela pesquisadora Fúlvia Rosemberg e editado pela jornalista Adélia Borges. Foi publicado até 1988, tendo encerrado suas atividades depois de 40 edições. Ao contrário do Brasil Mulher e do Nós Mulheres, emergiu vinculado a uma instituição, a Fundação Carlos Chagas. À Fundação eram vinculadas as pesquisadoras e jornalistas que levaram o jornal adiante, todas interessadas em estudar assuntos referentes às mulheres. O periódico teria sido uma forma de sistematizar os debates protagonizados pelos feminismos no Brasil. O jornal, ao contrário dos anteriores, não enfrentava os desafios que eram encarados por publicações sem financiamento e totalmente dependentes do trabalho de suas produtoras.

O Mulherio procurou criar uma linguagem diferenciada para se comunicar com suas leitoras, em parte mulheres trabalhadoras e em parte mulheres de classe média. Seu projeto gráfico também prometia uma leitura mais dinâmica, eram muitas ilustrações, fotografias.  Em termos temáticos o jornal também se diferenciou. Mulherio, fundado em uma época de fortalecimento dos movimentos feministas e das mulheres, lançou-se em debates importantes e inovadores.

 

Fonte: Mulherio, São Paulo, Brasil, julho de 1987. Edição 30. Capa.

O Mulherio, assim como o Nós Mulheres, dedicou vasto espaço à produção de mulheres cartunistas. O Lady’s Comics já publicou um texto da Samanta Coan em que ela destaca o perfil de Hilde Weber publicado no jornal. Ciça, Lilita, Claire Bretecher, Célia são algumas das cartunistas que publicavam no jornal. Ao seu lado, inúmeros homens cartunistas. Mulherio apropriou-se com muita propriedade do humor gráfico, mas os homens eram maioria na assinatura de charges e tirinhas. Henfil, Miguel Paiva, Caruso e outros nomes de peso do cartunismo brasileiro figuravam nas páginas do jornal por serem considerados aliados das mulheres.

A imprensa alternativa, em um contexto de repressão, afirmou-se como um instrumento de luta e de combate a um regime violento e ilegítimo. Nesse mesmo contexto a imprensa alternativa feminista afirmava-se como duplamente alternativa, uma vez que ao não encontrar espaço nos jornais alternativos, mulheres passaram a criar espaços em que suas preocupações fossem ouvidas. Encorpando o desafio, suas produtoras lançaram-se na tentativa de publicar mulheres cartunistas. Graças a esses esforços, hoje, podemos consultar essas produções pioneiras fruto do feminismo de segunda onda brasileiro.

*Este texto é fruto de reflexões desenvolvidas na tese de doutorado Quem ri por último, ri melhor: humor gráfico feminista no Cone Sul.

Referências:

CARDOSO, Elizabeth. Imprensa feminista brasileira  pós-1974. Dissertação de mestrado defendida na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP), 2004.

FERREIRA, Jorge e GOMES, Angela da Castro. 1964: O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014.

KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários nos Tempos da Imprensa Alternativa. São Paulo: Editora Página Aberta, 1991.

TELES, Amelinha e LEITE, Rosalina Santa Cruz. Da Guerrilha à Imprensa Feminista. A construção do Feminismo pós-luta armada no Brasil (1975-1980). São Paulo: Intermeios, 2013.

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