Carolina, uma biografia necessária

Capa da HQ da Ed. Veneta, foto de Carolina Maria de Jesus (autor desconhecido) e página da HQ.

Capa da obra “Carolina” (2016) da Ed. Veneta, foto de Carolina Maria de Jesus (autor desconhecido) e página da HQ.

“Onde já se viu uma coisa dessas, uns homens grandes tomando brinquedo de criança! Deixe estar que eu vou botar vocês todos no meu livro!”, bradou Carolina Maria de Jesus, em 1958, para marmanjos que estavam ocupando um parquinho recém-inaugurado na favela do Canindé, em São Paulo. As palavras, proferidas como ameaça, se tornariam a porta de entrada para um mundo novo ao serem ouvidas pelo jornalista Audálio Dantas, que fazia uma matéria na região.

Negra, pobre, catadora de papel e mãe de três filhos, Carolina também era escritora. Sempre que podia, escrevia diários, poesias, contos e músicas em papéis e cadernos que encontrava por aí. Teve a oportunidade de estudar por dois anos em sua infância, em Minas Gerais, quando aprendeu a ler e a escrever. Além da busca por melhores condições de vida, há relatos de que Carolina e sua mãe se mudaram de Minas após serem acusadas de feitiçaria pelo fato da pequena saber ler.

Em 1955, já em São Paulo e com três filhos pequenos, iniciou os registros sobre sua vida na favela. Era, porém, uma escritora anônima, marginalizada pela elite cultural e cercada por tantos que não sabiam ler, até que, 3 anos depois, conheceu Dantas. O jornalista se aproximou após ouvir seu comentário sobre um livro e acabou tendo acesso aos escritos de Carolina.

Começava aí um novo capítulo de sua história, que um dia viraria livro, peça de teatro, documentário e, ainda, a HQ “Carolina”, lançada em junho de 2016 pela editora Veneta, escrita pela professora de língua portuguesa Sirlene Barbosa e com desenhos do artista João Pinheiro. Uma preciosidade.

HQ "Carolina", de Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Foto: Paula Rodrigues (@margatsni_ad_aluap)

HQ “Carolina”, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Foto: Paula Rodrigues (@margatsni_ad_aluap)

HISTÓRIA EM QUADRINHOS

Primeiras páginas da história em quaddrinhos "Carolina" (2016). Reprodução do site Carolina em HQ.

Primeiras páginas de “Carolina” (2016). Reprodução do site Carolina em HQ. [Clique para ver maior!]

Estava no estande da editora Veneta para a sessão de autógrafos do Marcello Quintanilha, durante a Fest Comix de junho, em São Paulo, quando me deparei com o lançamento de “Carolina”. Era uma ótima oportunidade de saber mais sobre a vida de uma escritora, como tantas outras, de quem infelizmente pouco havia ouvido falar. Diante da minha animação, a vendedora comentou: “Está quentinho ainda! Veio da gráfica ontem.”

A narrativa em quadrinhos mescla fatos importantes de sua biografia com trechos de sua obra mais conhecida: “Quarto de Despejo. Diário de uma favelada” (1960, Ed. Paulo de Azevedo). “Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludo, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”, escreveu a mineira no livro.

A HQ retrata a luta pela sobrevivência, especialmente contra a fome. Não tem como não ler com um nó na garganta. Logo nas primeiras páginas, chorei. A história também aborda a violência contra a mulher – um dos motivos pelos quais Carolina alegava nunca ter casado -, problemas causados pelo álcool, doenças, entre outras dificuldades.

A ideia de transformar a vida de Carolina Maria de Jesus numa história em quadrinhos nasceu em 2013 e se tornou possível após o projeto ser aprovado no PROAC 2014. São 128 páginas em preto e branco, desenhadas em densos traços de nanquim que contribuem para o clima da história. A capa é bonita, em papel acetinado, com o nome Carolina repetido diversas vezes em ouro velho. A ilustração principal é inspirada numa foto em que a autora autografa seu primeiro livro.

Foto do jornal Última Hora (reproduzida do site Templo Cultural de Delfos) e ilustração de João Pinheiro para o livro "Cinderela Negra, a saga de Carolina Maria de Jesus", de José Carlos Sebe Bom Meihy e Robert M. Levine, 1994 (reproduzida do site Carolina em HQ).

Foto do jornal Última Hora (via portal Templo Cultural de Delfos) e ilustração de João Pinheiro para o livro “Cinderela Negra, a saga de Carolina Maria de Jesus”, de José Carlos Meihy e Robert Levine, 1994 (via site em HQ).

Esboço original de João Pinheiro do livro "Carolina" (reproduzida do site Carolina em HQ) e foto do jornal Última Hora (reproduzida do site Templo Cultural de Delfos).

Esboço original de João Pinheiro do livro “Carolina” (reproduzida do site Carolina em HQ) e foto do jornal Última Hora (reproduzida de Templo Cultural de Delfos).

VIDA DE ESCRITORA (contém spoilers)

 

Capas do livro "Quarto de Despejo" (1960), escrito por Carolina Maria de Jesus.

Capas do livro “Quarto de Despejo” (1960), escrito por Carolina Maria de Jesus.

Após seu primeiro encontro com Carolina, Audálio Dantas escreveu um artigo sobre ela no jornal Folha da Noite, em 1958, e publicou trechos de seu diário na revista O Cruzeiro, no ano seguinte. O sucesso das publicações e o empenho do jornalista fizeram com que editoras se interessassem pelo material e “Quarto de despejo” foi lançado em 1960 com um sucesso estrondoso. Foram vendidos mais de 100 mil exemplares da obra no Brasil, que também foi traduzida para 13 idiomas e distribuída para mais de 40 países.

“A tontura da fome é pior do que a do álcool. A tontura do álcool nos impele a cantar. Mas a da fome nos faz tremer. Percebi que é horrível ter só ar dentro do estômago”, registrou em “Quarto de Despejo”. Os relatos de Carolina contam um dia a dia de pobreza, injustiça social, opressão e preconceito. Era uma das primeiras vezes em que se dava voz ampla a um oprimido, o que a tornou uma das precursoras do gênero conhecido hoje como literatura marginal.

O sucesso de seu livro lhe rendeu viagens, homenagens, convívio nos altos ciclos da sociedade e dinheiro para comprar sua primeira casa de alvenaria. Por outro lado, também resultou na inimizade de seus antigos vizinhos, que não gostaram de ver suas vidas expostas no livro, bem como acusavam Carolina de se “prostituir” ao escrever por dinheiro e não compartilhar o lucro com eles.

Carolina gravou um disco com suas canções e chegou a lançar outros livros: o diário “Casa de Alvenaria” (1961, Ed. Paulo de Azevedo), o romance “Pedaços da fome” (1963, Ed. Áquila) e “Provérbios” (1965, Gráfica Editôra Ltda), mas não obteve o mesmo interesse de crítica e público. A escritora faleceu por problemas respiratórios, quando já vivia em um sítio em Parelheiros, em 1977, aos 62 anos.

Após sua morte, foram lançados outros livros com parte de sua obra inédita, além de biografias. Carolina Maria de Jesus também dá nome à biblioteca do Museu Afro Brasil, em São Paulo, onde se encontram grande parte de seus manuscritos. A HQ “Carolina” se faz necessária para que sua voz continue chegando a mais e mais pessoas, com novas roupagens e novos públicos. Minha próxima leitura obrigatória será “Quarto de despejo”, que foi relançado pela Ed. Ática no ano passado e se encontra em sua 10ª edição. Quem me acompanha?

Manuscrito inédito danificado a espera de restauração. (Foto: site Vida por Escrito) "O estômago não faz seleção quando estamos com fome. (...) Que predomina nos países são os abastados, que lutam para ficarem cada vez mais ricos e aumentam (...) os seus produtos (...) para infelicidade nossa, vão racionando a alimentação. Isto é drama. E o fim do drama: tuberculose ou hospício. (...)"

Manuscrito inédito a espera de restauração. (Foto: Vida por Escrito)
“O estômago não faz seleção quando estamos com fome.”

PARA SABER MAIS:

Site oficial da HQ “Carolina”
http://carolinaemhq.tumblr.com/
Vida por escrito: portal biobibliográfico de Carolina Maria de Jesus
http://www.vidaporescrito.com/
Templo cultural de Delfos (Elfi Kürten Fenske): portal literário
http://www.elfikurten.com.br/2014/05/carolina-maria-de-jesus.html
Wikipedia: verbete sobre Carolina Maria de Jesus
https://pt.wikipedia.org/wiki/Carolina_de_Jesus

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