Cecília Capuana: talento italiano em AH! NANA!

cecilia-_-capuana

Cecília Capuana é quadrinista e pintora italiana. Nasceu na Sicília,em uma pequena aldeia à sombrado Monte Etna. Ainda criança, mudou-se com sua família para Roma1. Formada em belas artes, ela pertence a uma geração de mulheres cartunistas que floresceu no final da década de 1960, em meio à emergência de movimentos sociais que reivindicavam mais liberdade e no caso das mulheres mais visibilidade. Este contexto influenciou sua produção.

1

Ah! Nana! #  06, 1977.Imagem cedida por Cecília Capuana.

Participou na época da fundação, em 1973, da revista satírica BeccoRosso, na Itália, uma revista underground. O conteúdo da revista era político e feminista. Seus colaboradores eram um grupo de colegas ativistas do movimento estudantil. Fizeram apenas um número do periódico, o segundo não chegou a ser impresso. BeccoRosso representa o momento de politização dos jovens e de acessão dos movimentos sociais e de esquerda.

becco

Capa do Fanzine Beco Rosso # 01, Roma, 1973.

Na Itália, nos anos 1970, houve uma proliferação de revistas undergrounds, dentre elas Capuana cita Re Nudo, Cabalà ecc. Effe e Strix que eram publicações feministas. Segundo ela, a Revolução Cultural iniciada em 1968 levou muitas artistas a saírem das galerias e buscarem novas formas de expressão. As HQs, com sua ironia, ofereciam um novo olhar político-social sobre a diferença entre os sexos2.

Pode ser considerada uma das pioneiras nos quadrinhos underground daquele país. Na Itália seus trabalhos também foram publicados nas revistas Alter Linus, Comic Art, Totem e Vampirella. Publicou, também, na Espanha (El Víbora e Totem) e nos Estados Unidos (Wimmen’s Comics)3.

effe1

Ilustração publicada na EFFE – Imagem cedida por Cecília Capuana

Na França ela mergulhou no mundo dos quadrinhos de ficção cientifica e teve oportunidade de escrever para um público adulto de milhares de leitores. Seus quadrinhos eram impactantes e remetiam a temas filosóficos e morais profundos. Sobre sua experiência com quadrinhos de ficção cientifica na Métal Hurlant, publicada pela Humanoides e Associès, Capuana declarou em entrevista:

“Cativante, a arte do desenho estava em primeiro lugar, eram os herdeiros de Daumier, Dore, Blake, havia a atenção para a qualidade do trabalho, foi feito um salto de qualidade em relação ao quadrinho tradicional. A ficção científica foi privilegiada, mas também o compromisso político e rock 4.”

Cecília Capuana foi uma das colaboradoras estrangeiras da revista francesa Ah! Nana!, lançada em outubro de 1976 e que completa este ano 40 anos. O convite para participar da revista veio após Capuana enviar seus desenhos para a Metal Hurlant. Como suas temáticas envolviam questões feministas como aborto e divórcio, por exemplo, ela foi imediatamente convidada pela colaborar com Ah! Nana!5

revue_14722

Capa de Ah! Nana! # 01, Paris, 1976.

Ah! Nana! foi uma revista de circulação trimestral publicada pela Humanoides Associé, feita por mulheres para mulheres, lançada na França em 1976. Nela, Chantal Montellier e outras quadrinistas se consagraram escrevendo para um público adulto. A iniciativa partiu de Janic Dionnet-Guillerez, esposa de Jean-Pierre Dionnet, então editor da revista Métal Hurlant6.

Seu diferencial estava em ser uma revista experimental, um periódico popular, feminista.7 Os objetivos da revista foram esclarecidos já em seu primeiro número: oferecer às mulheres um espaço onde pudessem dizer o que pensavam, seja pela “caneta ou pincel”, sem qualquer restrição. Ah! Nana! nasceu para ser uma revista engajada, usando humor e ironia em seus quadrinhos e denunciando abusos. Ela exigia o fim das desigualdades e justiça para mulheres que eram vítimas de violência8. Era uma revista de conteúdo político.

1185516_524758927595920_1651409594_n

Ilustração de Cecília Capuana – imagem cedida pela quadrinista

Capuana publicou seus quadrinhos já no primeiro número da revista, juntamente com outras autoras como Trina Robbins, Chantal Montellier e Florence Cestac. Sobre a interdição da revista, Ah! Nana!, em 1978, sob a acusação de pornografia, Cecília Capuana é tachativa: foi absurda.

Em seus quadrinhos contou com a colaboração de diversos escritores e roteirista como Bernardino Zapponi e Federico Fellini. Fez ainda ilustrações para revistas como L’Espresso, la Repubblica, il Manifesto, Overview, além de ilustrações para livros infantis e fez ainda trabalhos de publicidade para redes de televisão. O quadrinista Jean Giraud (Moebius), com quem colaborou dividiu espaço em Ah! Nana! e MétalHurlant era grande admirador do seu trabalho.

ceca%c2%adlia

História em Quadrinhos publicada na Métal Hurlant na década de 1970.

Embora sua obra remeta por vezes ao simbolismo e ao surrealismo, a autora define seu estilo como “um não estilo, ou um estilo pessoal”9. Suas influências nos quadrinhos vieram, a princípio, das HQs underground estadunidenses, posteriormente inspirou-se na pintura renascentista italiana. Uma combinação interessante que culminou num estilo único, realmente, como declarou a autora, pessoal10.

Atualmente, Ceccília Capuana dedica-se a pintura e ilustração. Desde a década de 1970 realizou pelo menos trinta exposições, em vários países europeus.

Notas:

1- CAPUANA, Cecília. Disponível em: http://zip.net/bdtvst, acesso em, 01 oct. 2016.
2 – Entrevista concedida à autora no dia 17 de janeiro de 2015.
3 – CAPUANA, Cecília (2010). Disponível em: http://zip.net/blttrv, acesso em 14 mai. 2015.
4 – Appassionante, l’arte del disegno era al primo posto, erano gli eredi di Daumier, Dorè, Blake, c’era attenzione alla qualità del lavoro, è stato fatto un salto di qualità rispetto al fumetto tradizionale. La fantascienza era privilegiata ma anche l’impegno politico e la musica rock (tradução Valéria da Silva Fernandes). Entrevista concedida à autora no dia 17 de janeiro de 2015.
5 – Entrevista concedida à autoria do texto no dia 1º de outubro de 2016.
6 – FALARDEAU, Mira, Femmes et Humor. Paris: Hermann, 2014, 145.
7 – UNE oeuvrière de la BD féministe et engagée (2013). Disponível em: <http://zip.net/bmtr7f>, acesso em22 jun. 2016.
8 – TALET, Virginie « Le magazine Ah ! Nana: une épopée féministe dans un monde d’hommes? », Clio. Histoire‚ femmes et sociétés [En ligne], 24 | 2006, mis en ligne le 01 décembre 2008, consulté le 19 décembre 2014. URL : <http://clio.revues.org/4562> ; DOI : 10.4000/clio.4562, p. 04.
9 – Id., 2106.
10 – Id., 2016.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *