Cinco anos e o que mudou?

Esse post vai ser mais longo. Foi a minha fala de 25 minutos para o Sesc Belezinho, no seminário Mulheres em Cartaz sobre Artes, no dia 29 de abril de 2015. Está um pouco editada, para ficar adequada a este espaço. Na ocasião, tive a oportunidade de apresentar minha experiência e a de algumas mulheres brasileiras que estão no cenário dos quadrinhos. As imagens foram usadas para auxiliar a minha apresentação.

MULHERES E QUADRINHOS

Quando a Mariamma Fonseca me chamou para fazer parte de um blog que ia falar sobre mulheres e quadrinhos, eu achei incrível. Eu era leitora basicamente de mangás e tinha muitas autoras e personagens femininas sobre as quais eu gostaria de falar. Com a Lu Cafaggi, começamos o Lady’s Comics com o slogan HQ Não é só pro seu namorado, inspirado numa banda brasileira de punk rock feminista chamada Bulimia. Começou em 2010. A partir daquele ano, minhas experiências sobre a temática central do site me levaram para outras perspectivas, porque eu fui percebendo que a realidade do Japão, em termos de produção feminina, é muito diferente de outros países e, principalmente, do Brasil. Faço esse paralelo dos quase 5 anos do Lady’s com a história dos quadrinhos do nosso País porque acompanhei de perto as mudanças que estão acontecendo nesse cenário.

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PRIMEIRO CONTATO
Nos primeiros 6 meses de blog, lembro que eu, Amma e Lu não sabíamos que o site se tornaría uma referência na cena dos quadrinhos do Brasil. Era despretensioso. Queríamos apenas falar sobre o assunto, tínhamos a necessidade de saber onde estavam, o que e quando produziam e quem eram as mulheres quadrinistas. Só que não estávamos sozinhas, outras pessoas tinham a mesma inquietação. Ao longo dos anos, a discussão sobre a presença feminina nos quadrinhos como personagem e como produtora de HQ passou a ser uma das principais pautas de debate desse meio.

Em 2011, já não era apenas o site falando sobre isso no Brasil. Tinha o Festival Internacional de Quadrinhos de BH, com a primeira mesa que levava o nome do blog, onde havia quatro quadrinistas discutindo sobre sua produção. O auditório estava cheio, chamava atenção e era algo novo nesses espaços. Era comum não existir ou ter um número muito inferior de mulheres convidadas para os eventos – de certa forma ainda é assim – e também sendo publicadas por editoras. Basicamente, parecia não existir um espaço para elas no meio dos homens.

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Num episódio na Argentina, no evento Crack Bang Boom, em 2011, numa mesa de discussão dedicada à produção brasileira, perguntamos (da plateia) onde estavam as quadrinistas. Não tinha nenhuma convidada e a única mulher que vi lá foi uma roterista numa das exposições. Me responderam com um discurso clássico: quadrinhos são para o público masculino ou infantil; mulheres não se interessam porque amadurecem mais cedo e não continuam lendo, assim, não querem ser quadrinistas. O mediador do debate ainda ironizou, disse que poderia colocar uma peruca para satisfazer a nossa necessidade. Sabíamos, sim, que existem mulheres argentinas, brasileiras, colombianas, dentre outras, que produzem, mas não tinham espaço. Uma delas, a argentina Clara Lagos, tinha falado com a gente que não ia ao festival porque não foi convidada e não seria reconhecida como atuante da área se andasse por lá. Era uma resposta de resistência e ressentimento contra o meio que só reconhecia os homens como capazes de produzir.

CBB

clara


AS MULHERES NOS QUADRINHOS BRASILEIROS
O cenário dos quadrinhos sempre foi masculizado, como muitas outras profissões, e as mulheres ainda estão conquistando espaço. Em 2012, eu voltei na história dos quadrinhos brasileiros, precisamente no início do século XX, para fazer meu projeto de final de curso em Design Gráfico. Fiz uma pesquisa sobre mulheres quadrinistas e graças aos pesquisadores acadêmicos, na maioria mulheres, como Natânia Nogueira e Sonia Luyten, conheci alguns nomes. A Nair de Teffé, considerada a pioneira (do que se tem de pesquisa) nas caricaturas e charges, começou a publicar em 1909. Apesar da sua larga atuação em revistas e jornais, o retorno financeiro era nulo, uma vez que foi imposto por seu pai que ela poderia produzir se não recebesse, para não ser independente.

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A figura feminina era atrelada à masculina. O centro, a importância e as histórias de grandes aventuras eram muito mais sobre homens brancos. Restava para a mulher a servidão ao lar e ao homem – seja pai, marido, chefe, avô, padre – e a ideia de que não tinha capacidade de ir além disso. Assim, essa era a representação feminina nas histórias em quadrinhos. É a vítima, a incapacitada de resolver seus problemas, a motivação do herói, a namorada, a mãe, enfim, poucas representações que ainda se mantém hoje, mesmo que as coisas estejam mudando.

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Diferente de Nair, a alemã Hilde Weber foi incentivada pela tia a seguir o caminho da imprensa e passou a ilustrar matérias de jornal, na sua terra natal. Aos 19 anos, em 1933, veio para o Brasil e em 15 dias conseguiu um emprego de ilustradora. As charges políticas vieram a partir de 1950, retratando os tempos de Getúlio Vargas e Jânio Quadros, e se tornou reconhecida pelo traço.

Charges e caricaturas não são arte sequencial, mas tomamos isso como uma licença poética. A produção feminina no início século XX, antes de chegar aos quadrinhos, era predominantemente nesta linguagem.

A partir dos anos 70, elas já faziam a arte sequencial. A exemplo da Ciça, com a tira O Pato, que criticava a ditadura por meio de animais; também da Neide Harue, que há quem diga ser uma das primeiras mulheres a publicar uma revista em quadrinhos no Brasil em traços orientais — sua produção começou em 86 e durou até a década seguinte.

ciça

neide

Depois dos anos 90, até 2012 (época do meu TCC), a produção das mulheres no Brasil toma um outro rumo, pelo contexto histórico. Antes, a política era um tema bem recorrente, de acordo com o material que tive acesso. Agora, em sua maioria, tinham histórias de fantasia, como a de Neide, Érica Awano, e os dilemas e questionamentos sobre “mundo feminino” – a mulher como protagonista, como Amely – uma mulher de verdade, de Pyscila Vieira, Elefoa, da Chiquinha, e Amana ao Deus Dará, da Edna Lopes. Algumas passam a trabalhar para fora do país como a desenhista Adriana Melo e a colorista Cris Peter, no mercado americano, e Ana Luiza Koehler, no franco-belga. São duas décadas em que as narrativas e a atuação delas passam por mudanças, mesmo enfrentando a invisibilidade.

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Não posso deixar de mencionar a Rosana Munhoz, talvez a maior roteirista de quadrinhos do Brasil (entre homens e mulheres). Ainda nas décadas de 1980 e 1990, ela assinou boa parte dos roteiros da Turma da Mônica. Infelizmente, faleceu aos 33 anos num acidente de carro. *Inclusive, estou trabalhando num documentário sobre ela.*

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Em 2013, pode-se ver novos impulsos para as mulheres. Era óbvio que a internet estava sendo o melhor meio de divulgação para antigas e novas quadrinistas. Publicar um editorial impresso é complicado: tem alto custo de impressão e problema de distribuição no Brasil. Então, surgiu um movimento que se propos dar apoio, abertura para construção em conjunto e divulgação. Isso fez com que muitas tivessem coragem de mostrar a cara e tocar seus próprios projetos.

A começar pela revista Inverna, que saiu de uma dicussão do grupo do Facebook Mulheres e quadrinhos. Inspirada em projetos como Caniculadas (da Espanha) e Spring (da Alemanha), fizeram a seleção de inúmeras artistas brasileiras para publicação que deve sair nesse ano no Catarse.

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Outro projeto foi o Zine XXX, idealizado pela Beatriz Lopes, de 19 anos, que juntou novas artistas para publicar cinco zines. Foi a partir do financiamento coletivo que a ideia saiu do papel com apoio de quase 500 pessoas e uma meta de 11 mil reais (arrecadou 20 mil). O fanzine voltou com força. Criar quadrinhos a baixo custo permite que muitas artistas independentes se aventurem nessa linguagem entre quadrinhos, ilustrações e empoderamento. Nesse novo rolê das minas, vieram mais produções com cunho feminista, que vêm cumprindo um papel importante com questionamento da sociedade patriarcal. Falam abertamente sobre sexo, a descoberta e o incentivo da mulher conhecer e ser dona do próprio corpo, trazem temas como aborto, violência doméstica, inúmeras relações de amor – de amizade entre mulheres a relações homoafetivas.

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Nessa ebulição de novas artistas, foi possível notar no próprio FIQ de 2013 maior participação delas, principalmente vendendo quadrinhos e zines. Lá, conseguimos reunir relatos de mulheres quadrinistas para incentivar novas autoras, baseado na versão americana feita no BuzzFeed, e fizemos alguns vídeos sobre Laerte, os 50 anos da Mônica e um minidocumentário com relatos de mulheres quadrinistas falando sobre o que acham da representação feminina nos quadrinhos.


PORQUE ELAS DEVEM FAZER QUADRINHOS

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É inevitável não relacionar a representação feminina com quem faz o quadrinho. Na maior parte das produções, quem criava e contava sobre a personagem eram homens. Existem, sim, excelentes representações criadas por eles, como Mafalda, do Quino. Só que precisamos de mulheres que tragam, com suas vivências e criatividade, novas narrativas, novos discursos e mudanças de perspectivas desse meio viciado.

No Japão, após 1960, as mulheres passaram a fazer mangás e conseguiram vender mais para o sexo feminino por conta da identificação das leitoras com as histórias e a linguagem visual. O mérito das autoras foi criar uma diversidade inédita de gêneros para além do romance e para diferentes idades. O incentivo da produção por parte do mercado e dos leitores, as colocou em pé de igualdade com os homens. (Lembrando que nunca foi um mar de rosas para as japonesas: recomendo ler o artigo da Valéria da Silvia, o livro do Paul Gravett e o da Sonia Luyten para compreender melhor o contexto japonês. Existem reproduções de esteriótipos nos orientais, ocidentais, do mainstream até independentes feitos por homens e mulheres).

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E no Brasil? Como mostrei lá em cima, o cenário tem mudado desde a Nair de Teffé, mas ainda não é ideal.

Pela dificuldade de abrir espaços para elas falarem, tem sido essencial criar meios próprios. No ano passado, o Lady’s conseguiu viabilizar, por financiamento coletivo, o primeiro evento sobre mulheres e quadrinhos da América Latina. Com o tema Transgredindo a representação feminina nos quadrinhos, trouxemos artistas que começaram de forma independente pela internet e que de alguma forma rompem diariamente os discursos que mulher não faz ou não lê quadrinho.

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No Encontro, tivemos uma conversa sincera e positiva sobre erotismo, a pesquisa sobre personagens e produções de mulheres e suas representações, a transgressão e as mídias que possibilitam independência em detrimento do mercado editorial. Vimos que é possível criar quadrinhos sem discursos machistas.

Nesse ano, no dia internacional da mulher, criamos o BAMQ!, para pôr em evidência as autoras de quadrinhos e, de alguma maneira, auxiliar na preservação de sua memória. Além de divulgar, crias pontes, estimular a produção e fortalecer o cenário de quadrinhos no Brasil.

ALÉM DAS FRONTEIRAS

Não é só no Brasil que tem gente se movendo para auxiliar as quadrinistas e de alguma forma as tornarem visíveis no meio dos quadrinhos. Temos a pesquisadora Trina Robbins que nos Estados Unidos já fez o resgate histórico, mobilizou o diálogo com mulheres artistas, porque da mesma forma ela ouvia o discurso de que não tinham mulheres quadrinistas ou era muito raro. Ela não acreditou essa resposta e foi atrás e viu que existem muitas. Já na Espanha, criou-se a Asociación de Autoras de Cómic, em 2013, para dar visibilidade a essas mulheres.

Uma diretora de redação da revista espanhola El Jueves, dizia: “‘Quando eles falam de sexo, falam do ponto de vista do homem, porque não têm outro’, afirma. Por algum motivo que ninguém sabe explicar, o humor gráfico é uma arte para pouquíssimas mulheres. A diretora diz que gostaria de contratar mão de obra feminina, mas não há oferta. ‘Há temas que uma mulher trataria muito melhor, como o aborto ou a desigualdade salarial entre os gêneros. Sairia muito mais espontâneo, mais visceral.’” – Piauí, maio 2014.

trana asso

Gosto muito da frase do Scott McCLoud, pesquisador de quadrinhos, que fala que “A história do desequilíbrio entre os sexos é um dos mais impressionantes exemplos do potencial desperdiçado dos quadrinhos”. Vou além. Não podemos perder a chance de falar sobre tema e incentivar uma maior participação de mulheres, principalmente de negras, de nativos (por que não?), de trans, de inúmeras etnias que estão no Brasil e de classes sociais diferentes para produzir HQs. Assim fomentaremos roteiros ricos de representações que possibilitem o entretenimento, comunicação, que questionem a sociedade, tragam novas vivências e personagens para nos inspirarmos.

samie

chiquinha

Precisamos resgatar nossa memória para não apenas preservar, mas para vermos um futuro mais igualitário e justo para essas pessoas que estão há muito tempo lutando contra a invisibilidade e o silenciamento. E ainda tem muito chão pela frente.

Obrigada.

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