Coleção espanhola reúne histórias impactantes

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Depois de um texto sobre autoras com obras leves e divertidas, como o que escrevi em abril, venho aqui compartilhar duas graphic novels baseadas em histórias reais, que denunciam crimes contra a humanidade. Daquelas arrebatadoras.

Entre 2006 e 2008, a editora espanhola Sins Entido lançou a Coleção “[sin_nosotras] Ahora cuentan ellas” (“[sem_nós] Agora contam elas”), que reúne dez obras de autoras espanholas e estrangeiras. A ideia era dar visibilidade a quadrinistas mulheres num cenário predominado por homens, selecionando “histórias impactantes, atuais, com um olhar novo e uma sensibilidade diferente”.

Achei a iniciativa muito boa e não vejo a hora de ler todas as obras. Nas minhas andanças pelas bibliotecas públicas de Madri (ESP), me deparei com dois exemplares da coleção e é sobre eles que escrevo hoje. (No final do texto, segue a lista completa!)

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“El juego de las golondrinas” (“O jogo das andorinhas”)

“Em abril de 2006, me deparei com uma reportagem rodada em Beirute em 1984. Os jornalistas entrevistavam os moradores de uma rua próxima à linha de demarcação, que dividia a cidade em duas partes. Uma mulher, bloqueada pelos bombardeios na entrada de sua casa, disse uma frase que me transtornou: ‘Eu diria que, pelo menos, aqui estamos provavelmente mais ou menos a salvo’. Aquela mulher era minha avó.” Foi nesse dia que Zeina Abirached decidiu contar parte de sua infância em meio à Guerra Civil Libanesa (1975 – 1990).

Logo de cara, quando olhava as lombadas das HQs na estante da biblioteca, “El juego de las golondrinas” (Editora Sins Entido, 2007) me chamou a atenção pela comparação inevitável com “Persépolis” (Companhia das Letras, 2007), sucesso de vendas de Marjane Satrapi, que conta sua vida no Irã sob o regime xiita e que já virou, inclusive, um longa metragem de animação. Além da similaridade autoral, de uma jovem que cresceu num país em conflito, o tipo de desenho em preto e branco, sem nuances e de traços grossos, garante a associação. A diferença é que no “Jogo das andorinhas”, esses traços aparecem menos orgânicos e mais geométricos.

Zeina

Quando a autora nasceu, em 1981, a guerra civil já durava seis anos e terminaria apenas dez anos depois, se tornando parte do cotidiano de sua família. Com 192 páginas, “El juego de las golondrinas” conta um dia específico desse período, quando seus pais não conseguem voltar para casa por causa dos bombardeios e Zeina e o irmão mais novo recebem a atenção da avó e contam com a solidariedade dos vizinhos do prédio.

Nessa época, Beirute estava dividida por muros em Beirute Oriental, que pertencia aos cristãos, e Beirute Ocidental, aos muçulmanos. O som das bombas e dos franco-atiradores, o hábito de manter as janelas fechadas e as camas longe das paredes faziam parte da rotina. Apesar do universo lúdico que os adultos buscam criar ao redor das crianças, a narrativa é carregada de certo ar dramático, como se o expectador, assim como os personagens, sempre estivesse esperando o telefone tocar com boas notícias.

No Brasil, a obra foi lançada em 2015 pela Zarabatana Books com tradução de Claudio Roberto Martini e o título de “O jogo das andorinhas – Morrer, partir, voltar”.

Mais sobre a autora: Abirached estudou na Academia Libanesa de Belas Artes (ALBA), fez uma especialização em animação na École Nationale des Arts Décoratifs de Paris e, atualmente, vive entre as duas capitais. Em 2016, sua HQ “Le piano oriental” (“O piano oriental”) entrou para a Seleção Oficial do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême (FIBD), que acontece na França e é considerado o segundo maior da Europa. A artista não é muito conectada ao mundo digital. Não tem um site oficial e, nas redes sociais, está apenas no Facebook.

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“Luchadoras” (“Lutadoras”)

A capa de “Luchadoras” (Editora Sins Entido, 2006) me chamou a atenção por ter ao fundo um morro com uma espécie de Cristo Redentor. “Seria uma HQ sobre o Rio de Janeiro de alguma brasileira desconhecida?” foram meus primeiros pensamentos, porém, com uma breve folheada, descobri que a história se passava na fronteira do México com os Estados Unidos e havia sido escrito por uma francesa, a Peggy Adam.

A história ficcional é ambientada em Ciudad Juárez, cidade mexicana que se tornou, na vida real, um símbolo de maus tratos e de violência contra mulher. Desde 1993, mais de 600 mulheres desapareceram, mais de 400 foram assassinadas e, infelizmente, a maioria dos crimes não foi solucionada até hoje. O enredo aborda temas como estupro, violência doméstica, culpabilização das vítimas, desaparecimento, assassinato, entre outros.

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A protagonista Alma é ex-namorada de um homem ligado ao tráfico de drogas local e se apaixona por um norte-americano que está de férias, passando pela cidade. O clima de tensão também é reforçado pelo desaparecimento de algumas de suas colegas de trabalho e da violência doméstica sofrida por sua irmã.

Coincidentemente, o traço de Peggy Adam também lembra o de Marjani Satrapi, talvez um pouco menos elaborado e mais rústico, uma característica que acompanha o teor da narrativa. Mesmo que, em alguns momentos, o caráter simples do traço possa se assemelhar ao de histórias infantis, isso não diminui a carga dramática.

“Luchadoras” provavelmente foi a graphic novel  que mais me impactou desde que comecei a conferir as publicações na Espanha. Na verdade, talvez, seja uma das histórias em quadrinhos baseadas em fatos reais mais pesadas que já li na vida. Cheia de “gatilhos”, tristezas e revoltas geradas por violências extremas contra a mulher. Chorei, fiquei com nó na garganta. É uma leitura muito recomendada, mas é preciso escolher o momento para ela.

A obra fez parte da Seleção Oficial do Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême em 2007. Infelizmente, não encontrei versões em português e nem exemplares em espanhol vendidos em sites de livrarias brasileiras.

Mais sobre a autora: Peggy Adam nasceu em 1974, na França, onde estudou na Escola de Belas Artes em Saint-Etienne e em Angoulême. Parte de sua formação também aconteceu em Toronto (CAN). Seu site é www.peggy-adam.com.

Também fazem parte da Coleção “[sin_nosotras] Ahora cuentan ellas”:

“Kiki de Montparnasse”, de Catel & Bocquet
“Lobas”, de Rachel Deville
“La historia de mi madre”, de Kim Eun-sung
“Jamilti”, de Rutu Modan
“Metralla”, de Rutu Modan
“Rollos míos”, de Aude Picault
“Más rolos míos”, de Aude Picault
“Puede que esta vez”, de Sonia Pulido

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