Conheça a sueca Malin Biller

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Malin Biller recebendo o prêmio Adamson, em 2015, concedido pela Academia Sueca de Quadrinhos.


Malin Biller é uma quadrinista sueca que vem se destacando em seu país nos últimos anos. Sua relação com os quadrinhos vem desde a infância. Eles, por exemplo, foram importantes na sua alfabetização, entre os quatro e cinco anos de idade. Aos treze anos criou suas primeiras Histórias em Quadrinhos e aos quinze produziu seus primeiros fanzines. Na época, Malin Biller não imaginava que as Histórias em Quadrinhos se tornariam tão importantes na sua vida. Ela não as enxergava, segundo suas palavras, como “algo real”. Criar fanzines era divertido, apenas isso. Foi somente aos 22 anos, quando entrou para a Escola em Quadrinhos de Malmö, que Malin teve certeza de que era realmente aquilo que desejava fazer.

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Em 2003 lançou-se no mercado com a tira de humor “Prutt-Lucia”, publicado como encarte na revista Serie-Paraden, protagonizada pela personagem Kaxiga Mia (Arrogante Mia). Naquele ano ganhou o primeiro dos muitos prêmios que iria colecionar em uma carreira de pouco mais de uma década. Trabalhou para várias revistas e jornais suecos, tendo seus quadrinhos publicados em outros países, como a França. Desde 2008 publica suas tiras, intituladas “Biller”, no jornal Sörmlands Nyheter.

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Lançou álbuns em diferentes editoras, sendo que o mais realista deles foi “Om någon vrålar i skogen” (Se alguém grita na floresta), de 2010, premiado em 2011 como o melhor álbum sueco. Trata-se de uma História em Quadrinhos autobiográfica onde Malin Biller relata como foi crescer com um pai alcoólatra que abusava dela.

Em 2014 lançou o álbum “I varje droppe är en ädelsten” (Há uma pedra preciosa em cada gota). A obra foi baseada na poesia de Gustaf Fröding (1860-1911), poeta sueco indicado ao prêmio Nobel de Literatura, cuja obra tem como característica marcante o humor. Fröding usou da poesia como forma de falar da sua vida, especialmente seus problemas com o álcool e mulheres. A falta de controle sobre seus vícios o levou a passar anos internado em hospitais na Suécia. Biller considera este álbum seu melhor trabalho.

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Em 2015, Malin Biller adaptou para os quadrinhos outro autor sueco, o poeta, jornalista, escritor e compositor Birger Sjöberg (1885-1929). Com “Kvartetten Som Sprängdes” (O quarteto que se separara) recebeu um prêmio concedido pela Birger Sjöberg Society, em 2016. Além das adaptações de poesias, Malin também publicou quadrinhos educativos e ministra oficinas com noções básicas de quadrinhos, já há mais de 8 anos, para crianças e professores.

Desde que começou sua carreira profissional, em 2003, Biller trabalhou com os mais diversos estilos, indo dos quadrinhos infantis aos quadrinhos adultos. Apesar de ser uma artista que transita em vários gêneros, o humor é onde ela se sente mais a vontade. Suas tiras mostram situações cotidianas de forma engraçada e, ao mesmo tempo, fazem uma crítica aos costumes, ao consumismo e à preocupação exagerada com a aparência feminina.

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Biller descobriu nas Histórias em Quadrinhos não apenas uma profissão mas, também, uma forma de expressão. Segundo ela as Histórias em Quadrinhos são “sua voz”. Não é fácil, diz a autora, é um trabalho duro, mas recompensador. Atualmente Malin Biller consegue se sustentar como quadrinista e tem seu trabalho reconhecido pelos seus pares.

Quando questionada sobre as dificuldades que enfrentou na carreira, especialmente sobre a questão do sexismo, Malin afirmou que na Suécia, em comparação a outros países, é mais fácil ser uma cartunista. A Suécia, segundo ela, é um país muito bom para se viver e trabalhar, na medida em que a igualdade de gênero é, em geral, respeitada.

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E os números são impressionantes. Segundo Biller, atualmente na Suécia cerca de 50% das pessoas que produzem quadrinhos são mulheres. Havendo, portanto, um grande equilíbrio no mercado de trabalho. Estão incluídas neste percentual tanto aquelas que já possuem uma carreira consolidada quanto as quadrinistas que investem em produção independente. Dentre elas Malin algumas autoras, como Liv Strömqvist, Sara Granér, Nanna Johansson e Åsa Grennvall. Talentosas e organizadas, as cartunistas suecas possuem uma rede chamada “Dotterbolaget“, onde elas interagem, se ajudam, trocam ideias e, às vezes, publicam material em conjunto.

As mulheres que trabalham com quadrinhos na Suécia conquistaram, nos últimos anos, um espaço expressivo no mercado e desfrutam de uma situação certamente desejada por outras mulheres, tanto no Brasil, nos Estados Unidos ou mesmo na França. Mas isso não significa que não há sexismo ou outros obstáculos.

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Malin Biller se considera uma pessoa de sorte, com um bom relacionamento com outros profissionais do meio, tanto homens como mulheres. Mas conta que já recebeu mensagens, tanto de homens quando mulheres, com críticas violentas a seu trabalho. Segundo ela, são geralmente pessoas mais velhas que não gostam de cartunistas com opiniões fortes. Situação esta compartilhada por outras mulheres que não têm medo de exporem suas opiniões acerca de temas polêmicos.

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Malin Biller representa uma geração de quadrinistas cuja sensibilidade se expressa através de um humor inteligente e de uma dedicação quase sacrossanta a uma arte que ainda limita a participação feminina em quase todo o mundo. Ela diz que ainda há muito a ser conquistado pelas quadrinistas na Suécia. Eu completaria que há muito a ser ensinado pelas quadrinistas suecas para suas companheiras do Brasil e do resto do mundo.

* Texto escrito a partir de entrevista concedia via e-mail por Malin Biller no dia 02 de dezembro de 2016.

Acesse aqui o site da autora :)

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