De anônimas a autoras

De anônimas a autoras ou, porque é importante
que as mulheres assinem os seus trabalhos

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Por Valéria Fernandes (Shoujo Café)

Hoje é dia 8 de março (e este texto deveria estar pronto antes), data na qual comemoramos o Dia Internacional das Mulheres.  Coloco no plural, porque somos muitas e “a mulher” termina por ser uma redução de todas nós a um modelo único, sem diversidade.  A mulher é dominada pelas emoções, destinada à maternidade, tolhida de imaginação e capacidade de abstração, carente de segurança, avessa às grandes aventuras, destinada pela sua natureza frágil a ter um homem que cuide dela, que a proteja.  No final, um elogio “por trás de um grande homem…” ou “A  mão que balançou o berço…”.  Algumas de nós, talvez, fiquemos felizes, a maioria, suspeito, transcende o modelo único, o subverte aqui e ali, ou, no máximo, para a sua sobrevivência, finge achar lindo, nem que seja somente naquelas datas “especiais”, como o tal 8 de março. :)

O convite para escrever um texto alusivo para o site Lady’s Comics foi uma honra e, bem, fiquei imaginando sobre o que falar.  Shoujo mangá?  Os velhos preconceitos contra as mulheres que produzem ou lêem quadrinhos?  O silenciamento sobre as artistas do passado e do presente na fundação da tal Academia Brasileira de Quadrinhos?  Não, não, nem vale a pena… Decidi-me por comentar sobre a invisibilidade das mulheres artistas, de como elas sempre estiveram lá, de como muito esforço se fez para não percebê-las.

Sou historiadora de formação e profissão, especializada em Idade Média e em Estudos Feministas e de Gênero (não, não faço quadrinhos, nem fiz dissertação ou tese sobre o assunto, sou somente uma pesquisadora curiosa, por assim dizer).  Ao longo de minhas pesquisas, e foram quase duas décadas de estudos sobre religiosidade feminina, era muito comum encontrar textos afirmando categoricamente que as possibilidades oferecidas às mulheres eram limitadíssimas.  As fontes, no entanto, mostraram outras coisas… Repetem tanto certas idéias, que ficamos cegas ao que a realidade nos mostra.

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No caso das mulheres artistas, assim como dos homens artistas, era muito comum na Idade Média que eles ou elas não assinassem obras.  Sabemos a qual escola pertenciam, mas deixar seu nome nem sempre era visto como algo de bom tom antes do Renascimento.  Não é raro vermos expressa em livros a idéia de que todos os artistas eram homens, talvez, alguns desconfiem até das mulheres que assinaram suas obras.  Ora, bolas, por muito tempo não houve quem acreditasse que Heloísa – talvez a mulher mais culta de sua época – era fruto da cabeça de Abelardo?  Depois, tornou-se comum que as mulheres autoras e artistas se escondessem por traz do anonimato como “Uma Dama”, ou siglas, ou mesmo nomes masculinos, para poderem publicar sem terem suas obras rejeitadas por consumidores, editores, ou para resguardar o bom nome de suas famílias.  Lugar de mulher – pelo menos nos discursos moralistas idealizados – era dentro de casa, trabalhando em silêncio.  Mesmo uma obra inspiradora como Little Women termina com Jô se tornando a feliz esposa de um professor, dona de  um colégio e sem tempo para escrever os livros que tanto sonhava, ainda que muito feliz com seu destino… A autora, Louisa May Alcott, preferiu escrever seus livros.

O que isso tem a ver com quadrinhos?  Bem, para muitos, trata-se de uma área masculina.  Quando uma HQ faz sucesso, há quem exclame com surpresa ao saber que se trata de uma mulher autora.  Aí, nesses momentos de grande saia justa, sempre vale o “Ah, mas ela é uma exceção…”.  Seria bom  que todos pudessem ler obras como as escritas pela quadrinista e historiadora Trina Robbins para se inteirar de que, mesmo nos Estados Unidos, as mulheres sempre estiveram fazendo quadrinhos.  A questão é, quantas puderam assiná-los?  Quantas não se esconderam por traz de siglas ou nomes aparentemente masculinos?  Dale Messick é um exemplo disso.   Nossa Nair de Teffé assinava Rian para se resguardar e duvido que a maioria sequer desconfiasse que se tratava de uma mulher.

Quantas letristas, coloristas não trabalharam com afinco e nunca foram creditadas? Quantas mulheres não tiveram seus trabalhos apropriados por pais, maridos, irmãos?  Esse é o tema de um filme recente, Big Eyes, no qual o argumento do salafrário era “quem vais e interessar pela arte feita por uma mulher?”.  E, assim,  a artista permitiu que ele assinasse seus quadros… Há mesmo mulheres artistas que abrem mão de suas carreiras para virarem assistentes.  Esse é o caso de Naoko Takeuchi, criadora de Sailor Moon.  Até onde sei, seus últimos trabalhos foram de colorização dos desenhos do marido.  Claro, que nem ela, nem o seu esposo, Yoshihiro Togashi, precisam de dinheiro, mas pergunto-me se ela não tem vontade de criar mais nada além de Sailor Moon… Mas estou falando de alguém que optou por isso… Quantas mulheres foram obrigadas a ficar nas sombras?

Nesse ensejo, termino este curto texto recomendando atenção para um filme de animação japonesa que está por ser lançado: Miss Hokusai.  Miss Hokusai se passa em 1814 e acompanha a vida de uma artista brilhante chamada O-Ei,  que era filha do grande  Katsushika Hokusai, um dos maiores artistas de ukiyo-e.  Hokusai foi conhecido durante sua vida por mais de 30 nomes e o anime o chama de Tetsuzo.  O-ei era filha do segundo casamento do artista e o auxiliou ou foi autora de vários de seus trabalhos sem, claro, receber o devido crédito por isso.  Quantas mulheres artistas ou artesãs passaram pela mesma situação?

Enfim, é bom ver que o número de artistas se multiplica, que elas não estão mais tão nas sombras assim, que assinam nomes femininos e começam a ter seus trabalhos e sua especificidade e diversidade reconhecidos.  Fecho aqui minha contribuição, espero que possa ajudar a enriquecer este 8 de março e sugerindo uma matéria, Mulheres brasileiras nos quadrinhos: esse clube não é só para homens, muito melhor que este texto um tanto desconexo e uma pequena amostra das mulheres artistas que temos em atividade no nosso país hoje.  Falta, felizmente, muita gente, e espero que, em um futuro muito próximo, ninguém lembre de fazer referência ao “clube do bolinha” quando o assunto for mulheres que fazem quadrinhos.

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