Debate Mulheres nos Quadrinhos – GIBICON #01

No dia 25 de outubro, na Gibicon,  teve o debate sobre Mulheres nos Quadrinhos. Como o Lady’s não foi ao evento, pedimos para Ana Luiza Koehler escrever sobre como foi essa discussão.

Quadrinistas convidadas: Ana Luiza Koehler e Pryscila Vieira

Mediação: Sônia Maria Bibe Luyten

Ana, Sônia e Pryscila – Fonte: Mob Ground

 

Promovido pela GIBICON 2012, este debate deu-se no SESC Paço da Liberdade contanto com um grande público composto tanto por homens quanto mulheres. Dadas as reações por vezes controversas dos fãs de quadrinhos quando se propõe a falar da participação das mulheres nesse meio – e aqui falo tanto do modo como aparecem nas HQs quanto da sua atuação como autoras  -, é muito animador perceber não só esse grande interesse, mas também o alto nível em que se deu esta proveitosa troca de ideias.

Inicialmente, cada uma das participantes e a mediadora apresentaram-se, falando um pouco de suas carreiras nos quadrinhos. Sônia falou de sua trajetória como pesquisadora de quadrinhos no meio acadêmico, e dos prazeres e dificuldades de abrir caminhos de pesquisa e reconhecimento para um meio de expressão tido, infelizmente, ainda como marginal. Começando com o trabalho como editora nos anos 70, ela teve oportunidade de trabalhar e desenvolver seu trabalho de pesquisa no Japão, onde morou com a família durante 8 anos, e depois na Holanda, onde acompanhou de perto o funcionamento do mercado franco-belga.

Pryscila, na área do cartum e tiras de humor, criadora da personagem Amely, conta que começou naturalmente a desenhar, desde a infância. Tendo feito sua formação em design, ela atua hoje também como ilustradora editorial e publicitária, desenvolvendo seu trabalho autoral numa área ainda mais dominada pelo olhar masculino: o quadrinho de humor. E é justamente através dele que busca despertar um questionamento sobre a imagem da mulher moderna na sociedade.

Relatei minha experiência de publicação no mercado franco-belga, eminentemente como desenhista de quadrinhos em parceria com roteiristas belgas e franceses, e como esse trabalho me fez repensar a função da autora não só como co-criadora das obras, mas também em relação à representação das mulheres nos quadrinhos.

Prosseguimos com um questionamento geral sobre como a mulher é representada na maior parte dos quadrinhos que chegam às mãos do público brasileiro, apontando a maneira idealizada com que as mulheres geralmente aparecem nesse meio. Nos quadrinhos, como ainda na maioria dos meios de entretenimento, o discurso se dirige ao leitor masculino (mais especificamente, heterossexual e branco), gerando daí uma predominância de figuras femininas desenhadas e mostradas a fim de atrair esse olhar: a mulher geralmente é jovem e bela, desenhada em posições sensuais que enfatizam seus atributos físicos. Neste contexto, não é surpresa que a visibilidade e consequente valorização das personagens femininas nos quadrinhos se dá ainda, eminentemente, por essas qualidades, e não pelo valor que possa ter como agente dramático da história que se conta. Trata-se, é claro, de um modo extremamente redutor de representar as mulheres, e que não por acaso se dá também em outras mídias, passando uma mensagem muito prejudicial tanto às meninas quanto aos meninos a que se expõe. Isso pode soar exagerado ou surpreendente para muitos, mas essa visão redutora das mulheres é parte de um problema maior: reduzir o valor de uma pessoa a apenas um de seus aspectos e potenciais é desumanizá-la, desconsiderar seu caráter de indivíduo completo, multifacetado. E essa desumanização contribui para normalizar uma cultura de desigualdade e violência tolerada que se reflete tanto nas histórias em quadrinhos (estupros, incapacitações e humilhações que dificilmente são vistas acontecer com personagens masculinos) quanto na vida real e quotidiana.

É importante observar que, na internet, a disponibilidade de vasto material pornográfico, e ao qual meninos e meninas são expostos cada vez mais cedo nos dias de hoje, fruto da concorrência acirrada entre os estúdios, prime pelo mais escandaloso e “ousado”, levando a extremos a humilhação, violência e submissão da mulher como componentes intrínsecos e “normais” do ato sexual. Esse mesmo material é consumido como “cartilha” sexual por homens cada vez mais jovens, que internalizam assim não só uma idéia extremamente distorcida da sexualidade feminina, mas também “aprendem” a ver as mulheres como meros objetos sexuais.

Ainda no âmbito do modo como são representados, ou seja, como são desenhados e como participam das histórias, os personagens masculinos desfrutam de uma gama relativamente mais ampla de  possibilidades: são mais frequentemente mostrados altos ou baixos, bonitos ou feios, jovens ou velhos, gordos ou magros, e com diferentes qualidades que podem independer de sua aparência física ou apelo como objeto sexual. Podem ser velhos sábios, jovens e fortes, nem tão fortes mas muito inteligentes, grandes empresários, gênios da ciência e das finanças. No que tange aos personagens masculinos, e em especial os super-heróis, a idealização também existe, mas é fundamentalmente diferente: ele é retratado através de uma imagem de extrema força física, independência e poder, ao contrário dos atributos com que são predominantemente representadas as personagens femininas (juventude, passividade, beleza e submissão).

Fica assim evidente que os quadrinhos ainda são muito focados em dialogar com a fantasia masculina. É verdade que a imensa maioria do público leitor ainda é de homens adultos, mas o que acontece com as mulheres que, na infância, também liam tantos quadrinhos quanto eles? Por que abandonaram suas leituras? A hipótese que surge é que esse abandono gradual das leitoras se dá pela falta de identificação com os quadrinhos ao longo do tempo, ou seja, à medida em que se dirigem para o público adolescente e adulto, a maioria dos quadrinhos que chegam ao Brasil volta-se eminentemente para o gosto dos homens. Desta maneira, as mulheres que cresceram lendo quadrinhos vão se confrontando cada vez mais com uma falta de material que busque dialogar e identificar-se com elas. Daí a importância de se reverter este quadro e promover a inclusão deste público (assim como de outros) como protagonistas nessa mídia, a fim de gerar identificações e, por fim, promover uma ampliação não só de público leitor como também um aquecimento do mercado de quadrinhos.

Há, porém, que se salientar o papel do shoujo mangá, introduzido recentemente no mercado brasileiro,  como meio de preencher essa lacuna para as mulheres. Como estudiosa do assunto, Sônia reconheceu a importância do shoujo mangá como um material que busca a identificação do público feminino não só por trazer protagonistas femininas mas também por ser desenhado e escrito por mulheres no Japão, figurando aliás a profissão de desenhista de mangá como uma das mais almejadas entre as meninas daquele país. Contudo, foi questionado o porquê de, mesmo em se tratando de mulheres que produzem esse material, o mesmo não ser usado como um instrumento de questionamento da própria sociedade japonesa. Sônia explicou que, de fato, o shoujo mangá é muito conservador e conformista em sua abordagem, mantendo a representação da mulher e de suas ambições dentro de parâmetros bastante tradicionais.

Isso levou ao questionamento do papel da autora de quadrinhos como agente na produção de alternativas a esse modo de mostrar as mulheres, contando outras histórias e passando mensagens diferentes para o público. É natural que o material produzido para o público masculino, abundante em nosso mercado, influencie a leitora de quadrinhos que o consumiu e que dele se serviu como inspiração. Os maneirismos, os modos de representar os personagens e narrar histórias que ela produzir como autora poderão trazer, em maior ou menor grau, marcas reconhecíveis dessa linguagem. Entretanto, sem uma reflexão a respeito das mensagens menos óbvias que eles passam, e sem desenvolver um olhar crítico sobre o que se é dado consumir no Brasil, a tendência é que a autora possa vir a repetir, inconscientemente, o modo de representar as mulheres como personagens superficiais, passivas, e objetos sexuais.

É neste ponto que Pryscila afirma a triste predominância do “analfabetismo visual” em nossa sociedade. Não dispomos, desde tenra idade, de uma educação que nos capacite a interpretar imagens com a mesma objetividade e cuidado consagrados à interpretação de textos. Sem um método de leitura crítica das imagens que hoje em dia inundam o nosso quotidiano, é difícil interceptar racionalmente as mensagens menos evidentes que elas transmitem. Estas, pois, esgueiram-se por entre as barreiras da racionalidade e instalam-se diretamente no inconsciente, fazendo-nos internalizar modos de pensar que podem ser não somente infundados, mas também discriminatórios e injustos. Ou seja, aquilo que é consumido de maneira irrefletida termina por ser repetido depois na expressão individual de cada autora, levando à reprodução de “clichês” não só da representação feminina mas também masculina, e que validam e dialogam apenas com grupos restritos da população, excluindo todos os outros.

Por isso, é muito importante que o questionamento dos modos de representar homens e mulheres não somente nos quadrinhos, mas também em outras mídias, seja contínuo. Parafraseando o historiador Charles Monteiro, o modo de representar uma pessoa expressa a visão que a sociedade tem dela, e o modo como ela poderá ser tratada pelo coletivo. Somente com esse entendimento é que poderemos desafiá-la, desconstruí-la, propor alternativas que incluam outros grupos sociais, que busquem a sua identificação, e que possam contar outras histórias e despertar outros olhares.

Por outro lado, é extremamente importante desmistificar a noção de que histórias em quadrinhos feitas por mulheres dialogarão somente com o público feminino, dando a idéia errônea de que trata-se de obras criadas unicamente para ele. Essa visão perpetua uma segregação artificial e infundada, talvez criada por uma conveniência de marketing, que faz com que as histórias em quadrinhos produzidas por mulheres sejam vistas como podendo ser compreendidas somente por mulheres, não podendo ser apreciadas também por homens. Ora, dado que a expressão artística é natural do ser humano independente de seu gênero, obras de mulheres podem ser lidas tanto por homens quanto por mulheres. É preciso entender que, até aqui, a predominância de histórias sobre personagens masculinos no meio dos quadrinhos pode ter normalizado a idéia de que a temática masculina é que constitui o “padrão”, o “vendável”, pois que consumido por todos, tanto homens como mulheres, enquanto histórias sobre personagens femininas são automaticamente inseridas numa espécie de nicho de gênero que só pode ou deve ser consumido por mulheres. Novamente, aí se constata o modo como, em se tratando de mulheres, o gênero muitas vezes precede a obra em si, e termina automaticamente qualificando-a, ainda que ela sequer trate do tema de gênero.

Para concluir, é inegável que os quadrinhos ainda tenham uma tendência a voltar-se predominantemente para o público masculino. Porém, há que se ter em mente que, com a atual facilidade de publicar de maneira independente, tanto online quanto em edições impressas, há uma abertura e potencial de visibilidade inéditos para novas propostas, novos temas, novos olhares sobre o modo como as mulheres fazem e são mostradas nos quadrinhos brasileiros. Mãos à obra!

3 comentários em “Debate Mulheres nos Quadrinhos – GIBICON #01

  1. Muito bom o texto! Maso machismo perpassa a sociedade inteira, não só os quadrinhos. Assim, é preciso olhar mais ao largo e notar, por exemplo, que no cinema a situação das mulheres é melhor, ainda que pouca coisa. É que os setores”respeitáveis” da sociedade o aceitam mais, então o debate estético e político em torno dele não é tão preconceituoso como o que rolou quanto aos quadrinhos…Acho a excessiva presença de super-heróis no mercado um desvio descabido que vem do excesso de censura interna, e se Sandman ampliou público foi por fugir desse modelo !

  2. Pingback: Representação das mulheres nas HQs | Lady's Comics

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