Do Brasil ao Ceará – Parte 1

Introdução

Nota da autora: Ao redigir a matéria, senti necessidade de fazer uma introdução explicando fatos políticos e sociais que levaram tantas meninas a não se engajarem ou a desistirem de fazer quadrinhos por tanto tempo no Brasil e no Ceará. Felizmente, o cenário está mudando de forma gradativa na terra de Rachel de Queiroz, especialmente nos últimos 6 anos. Essa é a primeira de uma matéria de duas partes sobre a cena de quadrinhos cearenses.

Transformações sociais e suas implicações na produção feminina de quadrinhos

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Crianças lendo quadrinhos da DC Comics em Nova York em 1943, durante a II Guerra Mundial
(fonte:Rio Comic Con 2011).

Na história mundial dos quadrinhos, as mulheres quadrinistas foram poucas em relação ao número de homens nessa área. De acordo com pesquisadores, as artistas que conseguiam ultrapassar o preconceito de gênero e brotavam nos estúdios eram invisibilizadas ou precisavam utilizar pseudônimos para serem reconhecidas no meio. Muitos registros se perderam na História, outros foram recuperados graças à colaboração de estudiosos e artistas das narrativas gráficas.

Remontar o passado faz-se necessário para entendermos o cenário de quadrinhos sob o olhar do gênero e os motivos sociais e históricos que levaram tantas mulheres a começarem ou a desistirem de rabiscar páginas e roteiros. É bom lembrar que mudanças sociais e políticas influenciaram (e ainda influenciam) transformações artísticas e vice-versa.

Cronologias

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No Brasil dos anos 1960, os gibis vinham com um selo equivalente ao americano, que dizia: “Aprovado pelo código de ética” (fontes: Divulgação)

Para entender o contexto de invisibilização política e social da mulher no Brasil e no mundo, segue abaixo uma pequena cronologia de alguns acontecimentos que possivelmente interferiram no exercício da profissão da mulher quadrinista:

– 1879: As mulheres têm autorização do governo para estudar em instituições de ensino superior, mas as que escolhiam este caminho eram criticadas pela sociedade;

– 1916: De acordo com o Código Civil brasileiro de 1916, uma mulher não poderia exercer sua profissão a não ser com autorização do marido. Além disso, era desejável que o trabalho da mulher se limitasse ao ambiente doméstico, voltado exclusivamente para os cuidados com os filhos, a casa e o cônjuge. Isso só mudou mesmo a partir de 1962 (há apenas 54 anos), quando foi sancionado o Estatuto da Mulher casada, que garantiu, entre outras coisas, que a mulher não precisava mais de autorização do marido para trabalhar, receber herança e em caso de separação ela poderia requerer a guarda dos filhos;

– 1954: Foi lançado o livro “Seduction of the Innocent”, do psicólogo alemão Frederic Whertam, que ajudou a reforçar a ideia na época de que quadrinhos eram nocivos para as crianças. Antes que o governo decidisse o que podia ou não ser publicado, as editoras estado-unidenses de quadrinhos criaram o Comics Code Authority, uma espécie de “selo de qualidade” de conteúdo “seguro” para crianças;

– 1932: Apenas a partir desse ano foi conquistado pelas mulheres brasileiras o direito de votar;

– 1934: Foi eleita a primeira mulher deputada do Brasil, Carlota Pereira de Queiroz;

– 1979: Eunice Michilles, do Amazonas, torna-se a primeira mulher a ocupar o cargo de Senadora;

– 1996: O Congresso Nacional obriga os partidos a inscreverem, no mínimo, 20% de mulheres nas chapas proporcionais;

– 2011: Dilma Roussef torna-se a primeira presidente mulher do Brasil;

– 2016: Em janeiro desse ano, o Senado constrói o primeiro banheiro feminino no plenário. Antes as mulheres precisavam se dirigir ao restaurante anexo e deixar a sessão para ir ao banheiro.

Em paralelo, traçamos também uma pequena cronologia do reconhecimento de mulheres na área e no mercado de quadrinhos no Brasil.*

Sônia

Arquivo Pessoal / Blog Sônia Luyten

– 1970 (década): Sônia Luyten, pesquisadora especialista em história em quadrinhos e na cultura pop do Japão, funda, na Universidade de São Paulo, um núcleo de estudos de mangá que se desdobraria na Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações (Abrademi). Sônia foi precursora dos estudos sobre quadrinhos do Brasil já recebeu vários prêmios, entre eles o Prêmio Romano Callisi (1990), Troféu HQ Mix (1988, 1991, 1992 e 1999) e Prêmio Ângelo Agostini (2006). Atualmente Sônia também é uma das organizadoras do prêmio HQ Mix;

– 1989: Rosana Munhoz Silva ganha o 16º Salão de Humor de Piracicaba;

– 1996: Helena Fonseca é a primeira mulher a receber o prêmio Ângelo Agostini (criado em 1985), na categoria mestre do quadrinho nacional. Ela foi roteirista do Capitão 7 (um dos heróis mais antigos das HQs brasileiras), chegou a ser uma das principais roteiristas das HQs de Targo (uma espécie de cópia do Tarzan) e criadora da personagem Naiara, a filha de Drácula. Ela também trabalhou na Editora Abril roteirizando histórias da Disney, principalmente da Família Pato;

– 1996: Lúcia Nóbrega recebe o prêmio Ângelo Agostini por seu trabalho como roteirista;

– 1997: Maria Aparecida Godoy recebe o prêmio Ângelo Agostini, na categoria mestre do quadrinho nacional. Ela escreveu roteiros para a revista Calafrio, publicou uma HQ eletrônica pela editora Nona Arte e foi uma das pioneiras no gênero terror e suspense;

– 2002: Erica Awano recebe Troféu HQ Mix, na categoria revista seriada por dois anos consecutivos (2002 e 2003). Ela também recebeu o prêmio Ângelo Agostini em 2003, por seu trabalho como arte-finalista;

– 2006: Júlia Bax, quadrinista e ilustradora brasileira (Belém, PA), recebeu o Troféu HQ Mix, na categoria novo talento pelas obras Kaos e Quebra-queixo;

– 2010: Maria Ivete Araújo recebe o prêmio HQ Mix de Homenagem especial pelos 30 anos no Salão Internacional de Humor de Piracicaba;

– 2012: Chiquinha recebeu o troféu HQ Mix, na categoria Publicação de humor gráfico;

– 2013: Cristina Eiko, junto com o marido Paulo Crumbim, recebe o Troféu HQ Mix por publicação independente;

– 2014: Lu Caffagi, junto com o irmão Vitor, recebe o prêmio HQ Mix de Publicação Infantojuvenil;

 

* Nessa cronologia, não estão inseridas todas as mulheres vencedoras do Troféu HQ Mix da categoria Pesquisa e Livro Teórico. Para ver as vencedoras de cada ano, acesse os links: Link 1, Link 2

Brasil **

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As histórias de Naiara eram voltadas para o público adultos e era hiperssexualizada, especialmente para agradar ao público masculino. (Foto: divulgação)

Como se sabe, as histórias em quadrinhos chegaram ao Brasil ainda no século XIX, mas a primeira revista em quadrinhos do país, O Tico-Tico, surgiria no início do século XX, com a participação de Giselda de Melo, uma das poucas desenhistas do periódico e considerada uma das profissionais femininas pioneiras nos quadrinhos. Giselda também trabalhou em outros títulos como Cirandinha e Pinguinho, especialmente nos anos 1950.

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Capa por Giselda Melo

Contemporânea de Giselda, Regina Melillo de Souza publicou tiras em quadrinhos na revista Ave Maria nos anos de 1940 e na década de 1980 contribuiu para a Folhinha com a tira Janjão e Pitucha.

Nas décadas de 1950 a 1980, nomes como Helena Fonseca, Maria Aparecida Godoy e Neide Harue se destacavam no gênero terror. Na tira diária, Ciça ( Cecilia Whitaker Vicente de Azevedo Alves Pinto) foi a pioneira no País. No período, a desenhista colaborou com O Pasquim e publicou por 20 anos em grandes jornais brasileiros. (Você pode adquirir a revista Risca! com uma matéria e entrevista exclusiva com a artista)

Outras grandes quadrinistas, ilustradoras e roteiristas desse período foram: Yvete Ko Motomura, Emy Acosta, Olga Ogasawara Yuhara, Maria Claudia França Nogueira, Mariza Dias Costa,  Maria da Conceição de Souza Cahú (Cahú),  Prisicila Farias (Priscila F.), Eva Furnari. Na década seguinte tivemos Cláudia Lévay, um dos poucos nomes femininos citados no livro História das Histórias em Quadrinhos (1993), do pesquisador Álvaro de Moya.

Segundo Sônia Luyten, as décadas de 1990 e 2000 marcaram mudanças na participação feminina no mercado de quadrinhos. Começaram a surgir mulheres que, inspiradas em publicações independentes e fanzines, começaram sua carreira na Nona Arte, como Erica Awano e Denise Akemi. Outros nomes que merecem destaque dessa leva são: Rosana Munhoz Silva, Rosana Rios, Lúcia Nóbrega, Anita Costa Prado, Lilian Mitsunaga entre outras.

**A pesquisa foi realizada pela jornalista Karina Goto em seu Trabalho de Conclusão de Curso “Mulheres nas Histórias em Quadrinhos: um olhar para a produção brasileira” (2015).

Na segunda parte desta matéria, conheceremos iniciativas que ajudaram a fomentar a produção de quadrinhos cearenses, incentivaram e influenciaram produtoras e a atual cena local que produzem e estudam essa arte.

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