Do Brasil ao Ceará – Parte 2

 Cena do Ceará

O cenário de produção de quadrinhos cearenses se confunde com a fundação da Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará (UFC). O professor Geraldo Jesuíno, idealizador da iniciativa em 1985, reuniu jornalistas, pesquisadores e artistas, entre eles o “brega star” Falcão e a cineasta Jane Malaquias, que nessa época produzia quadrinhos e tirinhas. Em um segundo momento, uniram-se ao grupo o fotógrafo e designer Paulo Amoreira e o ilustrador e quadrinista Fernando Lima.

Logo da Oficina de Quadrinhos da UFC

Logo da Oficina de Quadrinhos da UFC

 

“Na época, a Oficina funcionava realmente como uma oficina. Era um centro para troca de ideias e o aprendizado aliava prática e produção. Isso foi antes do surgimento dos trabalhos didáticos do Eisner e do McCloud na área”, afirma Fernando. Os cursos da Oficina de Quadrinhos foram ministrados só a partir do ano seguinte, em 1986, para alunos da escola pública entre 12 a 15 anos. Infelizmente, muitos registros do projeto se perderam devido a uma enchente que alagou a sala em 1996, quando a tecnologia de armazenamento de dados ainda era antiga e precária.

De acordo com Fernando Lima, em 1990, o grupo chegou a realizar uma pesquisa para mapear trabalhos de quadrinhos no Ceará, mas não foi possível identificar muitas produtoras cearenses no período. Jesuíno explica. “(Na época da) criação da Oficina de Quadrinhos da UFC (1985), não se tinha notícias de mulheres atuando como quadrinistas, ou sequer envolvidas nessa atividade. Talvez não tenha havido espaço para elas visto que, à época, ainda havia certo ranço machista aceito pelas mulheres, pois se tratava de atividade meio boêmia, incerta e quase insignificante na cena local. Havia uns poucos artistas que, não dependendo economicamente do Quadrinho, o praticavam como diletantismo. O primeiro nome (feminino) que reconheço (nesse cenário) é o da cineasta Jane Malaquias. Ela atuou na Oficina desde o início até seu afastamento para Cuba, para estudos avançados de Cinema”.

Para Jane, a Oficina de Quadrinhos foi importante para o seu aprendizado. “Eu era muito verde e a oficina realmente me apresentou não só a técnica de desenvolver um personagem, como planejar a página, usar caneta de nanquim e também a cultura do quadrinho, sua história e seus grandes artistas”, conta.

Além dela, Jesuíno cita a arquiteta Auxiliadora (Bi) Figueiredo que também marcou sua passagem na produção cearense de forma mais sólida. Para o professor, a popularização dos quadrinhos e as “significativas evoluções do comportamento” (sic), fizeram com que as mulheres passassem de consumidoras a produtoras. “Agora, há um considerável número de nomes femininos de qualidade no cenário dos Quadrinhos, não só em Fortaleza, mas também em todo o Ceará”, diz.

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Trabalho da cineasta Jane Malaquias publicado no Jornal Pium, edição 4 (Setembro de 1989)

Tirinha de Aléxia Brasil no Jornal Pium, edição 2 (Novembro de 1987)

Tirinha de Aléxia Brasil no Jornal Pium, edição 2 (Novembro de 1987)

 

*Tentamos contato com as mulheres pioneiras citadas por Fernando e Jesuíno, mas, com exceção de Jane Malaquias, infelizmente não foi possível localizá-las até o fechamento desta matéria.

 

PIUM e o início produção cearense

Como forma de incentivar a produção e o consumo de quadrinhos no Estado, a Oficina de Quadrinhos publicava periódicos feitos por colaboradores e alunos: a revista Carbono, com duas edições, e o Jornal Pium, que chegou a 8 publicações. Você pode ver os sete primeiros números do Pium aqui.*

As primeiras edições do Pium, à época intitulado “Jornal da Oficina de Quadrinho e Cartum do curso de Comunicação Social”, trazia também artigos, críticas de quadrinhos, entrevistas com quadrinistas e tirinhas. No expediente da edição zero, de 1985, constavam  nomes femininos como Jane Malaquias, Ana Rita e Ana Lúcia. Em outras edições, é possível conhecer também o trabalho da ilustradora e atual coordenadora do curso de Design da UFC, Aléxia Brasil (que participou de uma reunião do grupo), e o argumento de uma história da psicóloga Cecília Frota.

*Os links para o arquivo das publicações foram gentilmente cedidos por Fernando Lima, autor do blog Armagem.  Outras edições, clique aqui.

 

Fanzines

No final dos anos 1990 e começo da primeira década de 2000, havia um cenário muito forte de fanzines em Fortaleza (para saber mais sobre esse movimento, veja o vídeo abaixo). Muitas mulheres iniciaram suas produções graças ao incentivo de Fernanda Meireles (uma das produtoras mais antigas e de grande destaque na produção zines no Ceará), entre elas, a produtora cultural Roberta Felix e a ilustradora e professora Jéssica Gabrielle.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=_w_RT21b8wU]

“Tive a minha primeira oficina em janeiro de 2002, com a Fernanda Meireles, na série de oficinas Yô-yô no Theatro José de Alencar”, lembra Roberta. Desde os 14 anos, a produtora é fã de animes e mangás e encontrou na produção de zines uma forma de expressão. “Fiz apenas um zine de quadrinhos, também individual, em 2007 (eu acho), como produção da Oficina de Quadrinhos da UFC. Era o ‘menina saindo de casa’. Cada página era um quadro. Eu não desenhava as linhas. Frequentei pouco a Oficina, mas foi uma passagem bacana”, afirma.

Roberta diz que hoje percebe um novo fôlego de produção e circulação de quadrinhos com uma forte presença de mulheres, que, segundo ela, têm se organizado de forma política sabendo aproveitar o atual momento do movimento feminista. “Formam-se grupos, busca-se financiamento coletivo, uma divulga a produção da outra. Essa horizontalidade tende a fortalecer a todas”, finaliza.

Jéssica também observa um crescimento de produção de HQs no Ceará especialmente nos últimos anos. “Podemos ver isso no aumento do número de publicações e feiras voltadas para o gênero. Ainda tem muito caminho a percorrer, mas os ganhos são significativos. É lindo ver como as parcerias têm se formado nas produções”, afirma.

Fortalecimento da cena

A produção feminina cearense, no entanto, só se fortaleceu mesmo no início dos anos 2000 e ganhou um novo fôlego a partir de 2008. À época, perspectivas de atuação na área de quadrinhos era trabalhar como desenhista de heróis em editoras americanas. É o que explica a quadrinista e produtora de animação Nathália Catarina Forte que começou a produzir e estudar quadrinhos no final dos anos 1990. “Nunca fiz HQ de super herói, (eu) era diferente dos demais, abordava temas esquisitos… Por um longo tempo eu escondi meu trabalho autoral, porque achei que não sabia fazer quadrinhos, que não me encaixava. Só há pouco tempo, com o feminismo, a internet, os coletivos e o [DES] ENQUADRADAS (primeiro evento sobre a produção feminina de quadrinhos no Ceará) coloquei mais minha cara e minha arte a tapa”, diz. Ela afirma ainda que tem percebido uma mudança no perfil das produções de quadrinhos, com histórias mais autorais e criativas, aproveitando especialmente o potencial de autopublicação na internet.

A popularização e a democratização da rede mundial de computadores, aliás, possibilitou o encontro e fortalecimento das produções femininas. Foi justamente a partir dos anos 2000 que a internet banda larga começou a se popularizar no Brasil. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Ibope, o número de internautas residenciais ativos no Brasil em março de 2007, chegou a 16,3 milhões. Além disso, 25 milhões de pessoas tinham pelo menos um computador com acesso à internet em casa e 32,9 milhões de brasileiros acessavam a internet em outros locais como universidade, escola ou trabalho.

Foi graças ao poder de autopublicação em rede que o País pôde conhecer a Sirlanney, que iniciou seu trabalho com HQs em 2008. Seis anos depois, em 2014, a quadrinista cearense conseguiu mobilizar um financiamento coletivo para a impressão do livro “Magra de Ruim”, sua coletânea de quadrinhos. “Eu me inspirei muito na produção feminina para começar a fazer quadrinho, mas ela era completamente estrangeira. Eu não tinha consciência total na época, mas a produção autoral feminina, quando eu  comecei, era praticamente escassa. Mas foi questão de uns poucos anos para tudo isso mudar drasticamente, e surgiram, de repente, várias meninas produzindo ao mesmo tempo. Ainda bem!”

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=GbscxL4A1mI]

Entrevista concedida por Sirlanney ao grupo cearense Avante Cast

Mesmo observando diferentes aspectos da evolução das HQs cearenses, em um ponto todos os entrevistados concordam: a produção na Terra da Luz está de vento em popa, fazendo crescer um mercado criativo e empreendedor que até pouco tempo era ignorado. A prova é o crescimento de eventos relacionados à nova arte e o aumento do número de coletivos de quadrinhos como o Netuno Press, formado pelos quadrinistas Brendda Lima, Débora Santos, Talles Rodrigues e Márcio Moreira. “Vejo que estamos em ponto de ebulição. De 2014 pra cá, com o [DES] ENQUADRADAS, a GeekExpo (evento cearense de cultura nerd) e os outros espaços que surgiram, fizemos com que pessoas organizassem ou reorganizassem seu material para aparecer nesses espaços”, diz Brendda, e finaliza. “Eu vejo que as meninas têm uma preocupação diferenciada com o conteúdo que produzem, com o formato do trabalho, com a embalagem e a experiência do cliente. Acho que temos um potencial enorme, que a gente pode se arriscar mais e que todas vocês devem aparecer nas próximas feiras”.

Conheça a lista de páginas de produtoras cearenses (quadrinistas e ilustradoras):

Blenda Furtado – http://blendafurtado.com/
Brendda Lima – http://www.facebook.com/VanillaTreeIlustrations
Carina Sena – http://sensos.tumblr.com/
Coletivo Netuno Press – http://netuno.press/
Débora Santos – https://www.facebook.com/drebasantos/?fref=ts
Dharílya Sales – http://www.facebook.com/Dharilya
Dhiow – https://www.facebook.com/adivinhadindi?fref=nf
Erica R – http://www.facebook.com/ericarilustracoes?ref=ts&fref=ts
Juliana Braga – http://www.facebook.com/juhilustrasecomics?fref=ts
Juliana Rabelo – http://www.facebook.com/julianarbl.illustration?fref=ts
Leticia Maia – https://www.facebook.com/Infinit0Particular
Nádia Lopes – http://www.facebook.com/abelhadeoculosescuros
Natália Matos – http://www.facebook.com/MobiliaBalao
Nathalia Forte – http://www.facebook.com/NathaliaCForte
Nathália Garcia – http://natnathalia.blogspot.com.br/
Nyna Nóbrega – http://www.facebook.com/NynaNobregaPORTFOLIO
Rayla – https://www.facebook.com/Cartoondise
Rebeca Moreira – https://www.facebook.com/rebeca1906
Sandy Lima – http://www.facebook.com/SandyLimaArt
Sirlanney – http://www.facebook.com/pages/Magra-de-Ruim/111974632170328?fref=ts ou http://sirlanney.tumblr.com/
Vanessa Paiva – http://www.facebook.com/Vanillustrations?fref=ts

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