Em tempos de guerra

capa do livro, com detalhe da "janelinha". Apenas um detalhe lindinho.

capa do livro, com detalhe da “janelinha”. Apenas um detalhe lindinho.

Recentemente li o quadrinho “En temps de guerre” (Em tempos de guerra, em tradução livre), da autora francesa Delphine Panique e não pude deixar de pensar em compartilhá-lo aqui no Lady’s Comics. Não só pelo fato de ser escrito por uma mulher, mas por toda a mensagem da obra.

Você vai entender.

Feito em cores pastel – mas não exatamente alegres – e com um traço que pode parecer voltado ao público infantil, o pequeno álbum tem toda cara de ser uma leve historinha para crianças. Mas não se engane, isso é apenas um modo de te introduzir ao conteúdo do livro: um conto agridoce sobre a 1ª Guerra Mundial. Mas também não se iluda, se gosta de grandes histórias de batalhas, confrontos e superação. O que tem aqui é um relato dos bastidores da guerra, da parte muitas vezes esquecida: o que restou nas casas e nas cidades quando os homens partiram para o front.

Repleta de elementos fantasiosos – e muitas vezes metafóricos – a história não especifica o local (supõe-se que seja na França, mas poderia ser qualquer país em guerra) e os personagens, apesar de humanos, tem a cabeça em forma de casa. Uma bela metáfora para as mulheres que acabam sendo a casa para onde voltar para seus maridos.

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A história se passa nessa pequena cidade onde todos os homens partiram para a Guerra e as mulheres precisam administrar a nova situação, redistribuindo postos de trabalho e modificando toda a rotina local.

O relato foca, no entanto, na família Bobi, composta pelo Senhor Bobi, Senhora Bobi e Bobbie, a pequena filha do casal, que não se sabe exatamente quantos anos tem, e que é representada com duas rodas no lugar das pernas, revelando que há uma deficiência física, mas sem entrar em detalhes.

Senhor Bobi é recrutado para a guerra e, inicialmente, procura alguma forma de fugir desse destino. Senhora Bobi, no entanto, acredita que a guerra não é nada além de uma desculpa para que os homens partam para longe para beber entre amigos e conhecer mulheres “selvagens”. Ao pensar por esse lado, senhor Bobi vai imediatamente para a guerra, deixando a mulher e a filha e ainda levando todas as economias da família consigo.

Por se tratar de um relato fantasioso, no início, o leitor pode ter um certo estranhamento com o modo de agir e interagir dos personagens. Muitas vezes me peguei achando tudo aquilo um pouco surreal e quase cheguei a pensar que o livro seria uma perda de tempo… Mas aguardem.

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A postura de Senhora Bobi, ao longo de quase todo o livro, é de uma mulher revoltada com o egoísmo e a fraqueza de seu marido, acreditando que ele partiu para uma guerra regada a noitadas de bebedeira e prostitutas locais. O que ela não sabe é que Senhor Bobi, também decepcionado com a guerra real, morre em seu terceiro dia de serviço, atingido por uma bomba. A carta de comunicação do falecimento acaba nunca chegando à casa dos Bobi, por problemas técnicos do correio. Se vendo obrigada a trabalhar, ela e a filha encontram emprego em uma fábrica local de armas, com longas jornadas de trabalho e condições pouco salubres. Dessa forma temos uma protagonista constantemente amargurada com a suposta falta de respeito e interesse do marido que se “diverte” na guerra e não manda sequer notícias à família.

Esse sentimento a acompanha por boa parte da trajetória do livro e se reflete nas suas atitudes iniciais de isolamento e irritação, chegando até a afastar a própria filha. Mas o que mais me impressionou no livro foi que o contraponto para esse sentimento de abandono é exatamente a coletividade das mulheres que ficaram. Em meio à necessidade de administrar todo um novo contexto sem homens, muitas mulheres acabam agindo de forma “louca” individualmente, como uma senhora da cidade que mantém prisioneiro em seu porão o homem que amava, tratando-o cada dia mais como um animal. Ou uma senhora que desfila com uma falsa barriga de grávida pelas ruas do vilarejo, apenas para sentir a admiração das demais pelo “milagre da vida”

Todas essas mulheres aparentemente desequilibradas no particular, pouco a pouco começam a encontrar força e equilíbrio no coletivo. A fábrica de armas da cidade, antes propriedade de um rico senhor, agora é administrada por uma cooperativa de mulheres, onde as decisões são tomadas em assembléias semanais. As cartas de amor – e também de teor sexual – recebidas por umas, são compartilhadas entre todas em leituras coletivas e embaraçantes. Para mim, uma das cenas mais bonitas do quadrinhos é essa em que uma das operárias começa a ler a carta de seu namorado, um tanto pervertido, e, após algumas declarações românticas, o teor da carta fica cada vez mais e mais sexual, levando as ouvintes a níveis cada vez maiores de constrangimento, até que chegam a um ponto em que todas começam a sentir prazer naquelas palavras, como se a carta fosse endereçada a elas mesmas e gozando daquele momento erótico coletivo. Dá pra ter uma ideia da cena no book trailer feito pela editora francesa do livro, disponível no youtube.

cena do book trailer feito pela editora e disponível no youube.

cena do book trailer feito pela editora e disponível no youube.

Ao longo dos meses, Senhora Bobi vai se entrosando mais e mais com as colegas de trabalho e deixando o rancor pelo marido em segundo plano. Uma noite, aceita o convite de uma delas para tomar cerveja num bar da cidade. Ms cerveja? Durante a guerra? Até para isso as mulheres se auto-organizaram e produzem, às escondidas, cerveja artesanal nos porões do local. Ao chegar lá, Bobi encontra uma atmosfera até então desconhecida a ela: mulheres se divertindo, dançando, tocando, bebendo, trocando experiências e até flertando  umas com as outras. Ela avista um trompete e se lembra imediatamente que sempre teve o sonho de aprender a tocar o instrumento. A dona do objeto o empresta a Senhora Bobi, que o leva pra casa cheia de satisfação. Aqui outra cena belíssima: Ao chegar em casa, ela se dá conta que, “pela primeira vez na vida, ela faz alguma coisa por ela mesma. Alguma coisa que ela escolheu sozinha” “é estranho e agradável. Ela se sente livre e contente… em tempos de guerra.”

Mulheres se divertem e encontram diversão, mesmo em tempo de guerra.

Mulheres se divertem e encontram diversão, mesmo em tempo de guerra.

E aqui o clima do livro começa a se tornar cada vez mais leve e o leitor começa a entender que o intuito de todo aquele sofrimento e amargura iniciais eram para dar mais sabor ao que estava por vir.

Como nada dura para sempre, a guerra acaba e retornam os maridos, aqui também representados metaforicamente “em pedaços”, cada qual com sua mutilação de guerra. Então, novamente, todos tem que se readaptar à realidade de antes da guerra. Porém os homens já não são mais os mesmos e as mulheres muito menos. Elas se tornaram muito mais fortes e independentes. Foram capazes de administrar o mundo dos homens sem os homens e criar um lindo senso de cooperação e apoio coletivo que já não tem mais volta.

Os maridos tronam da guerra. Reprodução: telerama.fr

Os maridos tronam da guerra. Reprodução: telerama.fr

A mensagem que ficou, para mim, é que, apesar de todos os horrores da guerra (que estamos carecas de ver representados em filmes e mais filmes de bombas e explosões), houve também esse lado da adaptação de quem ficou. As mulheres não foram ao combate, mas tiveram suas próprias batalhas a superar. E o fazem lindamente neste livro.

Viva a sororidade, que torna qualquer jornada mais leve e agradável!

Adorei e recomendo muito a leitura.

Delphine Panique, autora de "En temps de guerre" dando autógrafos durante o festival de Angoulême de 2016. Arquivo pessoal

Delphine Panique, autora de “En temps de guerre” dando autógrafos durante o festival de Angoulême de 2016. Arquivo pessoal

O livro foi publicado na França em 2015 pela editora Misma e fez parte da seleção oficial do Festival de Angoulême 2016. Ainda não tem edição brasileira, mas fica a dica pras editoras brasileiras e ficamos no aguardo ;)

Delphine Panique também é autora de uma adaptação em quadrinhos do livro “Orlando”, de Virginia Woolf.

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