Então você quer publicar um quadrinho…

Você fez um quadrinho ou uma graphic novel e quer muito publicar o seu trabalho por meio de uma editora tradicional. Ótimo, porque ao contrário do que muitos pensam, as editoras tradicionais querem sim, e muito, publicar trabalhos nacionais de qualidade. Isso é bom para os quadrinistas e aspirantes a quadrinistas, é bom para a editora e é bom para o país inteiro, porque quanto mais se produz de material nacional, mais o Brasil se fortalece culturalmente, além de ficar mais conhecido no mercado internacional. As editoras querem muito que seus autores sejam publicados fora do país, para que o que produzimos aqui seja conhecido também lá fora e o mercado editorial se fortaleça. Dito isso, vamos falar um pouco sobre alguns dos caminhos possíveis para um iniciante no mercado.

Muita gente comete o erro de ir atrás de uma editora sem ao menos ter finalizado o projeto que quer publicar. Às vezes, é preciso se colocar também do outro lado do processo e perceber que é muito difícil para um editor avaliar um projeto que ainda não foi terminado. É algo complexo e envolve um conjunto de coisas: a qualidade do desenho, da finalização, da cor, do enredo, da narrativa, do conteúdo, o potencial comercial da obra, o público-alvo, e tantas outras coisas talvez um pouco mais subjetivas. Não adianta você ter uma ideia sensacional e um traço lindo, se durante o processo você não souber contar a história de um jeito que funcione. Então, não apresente sua obra a um editor se ela ainda não estiver terminada, se você ainda não tiver certeza de que ela está da melhor maneira possível, a não ser, é claro, que o editor tenha pedido diretamente a você para fazer isso.

foto de Kbrown

foto de Kbrown

E aí ok, a sua HQ está maravilhosa, finalizadíssima, tudo lindo e pronto para ser lido. Agora, o que fazer? Neste primeiro momento, é hora da pesquisa. Faça uma lista de todas as editoras que publicam quadrinhos no país. O Google está aí para nos ajudar com isso. Depois, visite o site de cada uma dessas editoras e avalie o catálogo. O que cada uma delas costuma publicar? Depois de analisar todas essas publicações você já deve ser capaz de apontar quais são as editoras que mais combinam com o gênero, público e tipo de história que você produziu. Pronto, agora que você já tem uma pequena lista de opções, é chegado o momento de entrar em contato e, mais importante, garantir que você irá ser lido e avaliado. E é claro, existem formas mais efetivas de fazer com que isso aconteça. São muitas as opções, então vamos falar sobre algumas delas:

Opção Número 1 (a mais comum): Você envia o seu trabalho digitalmente para a editora depois de ler direitinho no site deles sobre como é o processo de envio e como deve ser feito o contato. Cada editora trabalha de uma forma, mas se por acaso no site da editora não existir uma informação muito detalhada sobre isso, aqui está o jeito mais efetivo de fazer contato:

Um e-mail bem escrito (revisado, por favor), curto e direto, onde você irá contar um pouco sobre você, sua experiência e diferencial. Um parágrafo é mais que suficiente para isso. Só fale sobre a formação e experiência que tenha a ver com a produção de quadrinhos. Não precisa dizer que você é formado em Engenharia, a não ser que a sua HQ tenha alguma relação com a Engenharia. Fale sobre sua formação artística, sobre publicações anteriores (se existir), mesmo que tenha sido na internet. Se você tem/teve uma repercussão legal com uma webcomic ou outro tipo de publicação online, coloque um link de acesso para que o editor conheça seu trabalho. Em seguida, fale brevemente sobre a sua HQ, informe o formato, se é colorida ou p&b, número de páginas, gênero, a que público ela se destina e uma breve defesa sobre por que você acha que ela deve ser publicada. No final, coloque todos os seus contatos: e-mail, site, telefone, e suas redes sociais, se for do seu interesse. Anexe ao e-mail as 5 primeiras páginas da sua HQ.

Com uma apresentação curta e sucinta, você aumenta muito a chance de ser avaliado. Lembre-se: editoras recebem muitos originais por dia, e é muito difícil para elas conseguir avaliar tudo o que chega. Se você consegue em poucas palavras dizer a que veio, com uma amostra legal do seu projeto, é bem mais possível que o conselho editorial responda seu e-mail solicitando o seu projeto completo e querendo saber mais sobre ele.

Opção Número 2: Você tem um amigo que já foi publicado pela editora e pede a ele para te colocar em contato com o editor (contato ajuda muito!). Se você tiver a sorte de ter um amigo que é publicado, exercite um pouco a sua cara de pau e peça para um contato direto com a editora. Você pode pedir ao seu amigo para escrever um e-mail te apresentando ao editor, e aí você escreve diretamente a ele, usando o exemplo que expliquei na opção 1 ;) Nesse caso, é 99% a chance de que o editor vai ler o seu e-mail, já que ele deve confiar no artista que te colocou em contato com ele. Aí nessa fase quem vai ter que ganhar o cara é a qualidade do seu trabalho.

Opção Número 3: Você encontra pessoalmente um editor (em um festival de quadrinhos, em uma bienal, convenção ou feira). A primeira dica para abordar um editor pessoalmente é ser profissional e breve. Apresente-se educadamente, aponte algumas coisas sobre a sua formação e/ou experiência e entregue a ele uma carta com todas aquelas informações que expliquei na opção 1, junto a uma cópia impressa da sua HQ lindona. Conte um pouco sobre a história e mostre algumas páginas. Agradeça a atenção e despeça-se. Seja breve. Ele vai ver o seu trabalho, e, se for do interesse da editora, ele irá entrar em contato.

Opção No 4: Você bomba na internet e faz o editor procurar você. Esse foi o caminho de muita gente: Vitor Cafaggi, Bianca Pinheiro, Fernanda Nia, Fefê Torquato e provavelmente de muitos outros cujo nome não me vem à memória no momento. Acredite, editores estão por todo lado, pesquisando, observando. São os olhos que ninguém vê, mas estão aí. Eles acompanham tudo o tempo inteiro. Se o seu trabalho tiver uma resposta legal do público na internet, é um sinal para o editor de que ele tem uma boa possibilidade de ter uma resposta legal nas livrarias também. Se por acaso ninguém entrar em contato, compute os seus números de visualizações, likes, compartilhamentos e seguidores, adicione tudo isso na sua carta de apresentação e corra para a opção 1, 2 ou 3.

Opção No 5: Você recorre a um agente literário. Você pode nunca ter ouvido falar sobre agente literário, mas eles existem há um bom tempo. Esses profissionais são muito comuns nos Estados Unidos, sendo que lá nenhuma editora recebe um projeto para avaliação se o contato não for feito por meio de agente. Aqui no Brasil, a figura do agente está em expansão devido principalmente ao avanço do mercado editorial. Portanto, pesquise um pouco sobre os agentes brasileiros. Eles são poucos, mas alguns deles representam/gostariam de representar quadrinhos e graphic novels. Para quem não sebe, um agente literário é um profissional que irá avaliar o seu trabalho antes de ele chegar a uma editora e funcionará como uma espécie de ponte. O agente tem contato direto com os conselhos editorais, e por meio dele é muito mais fácil garantir que seu projeto irá ser lido e avaliado. Além disso, ele irá auxiliar você com todas as questões contratuais.

E se nenhuma dessas opções der certo? Bom, editoras publicam livros, HQs e graphics por muitos motivos. Para vender, gerar lucro e se manter, para entrar em programas do governo ou programas institucionais, para contribuir para o desenvolvimento cultural, ou até para fazer uma crítica social. As razões são muitas. É óbvio que uma editora quer publicar uma obra que venda milhares e coloque dinheiro no caixa. Mas também quer publicar uma obra que possa trazer prestígio, ou uma obra que o editor acredita poderá trazer alguma espécie de reflexão e gerar pauta. Talvez o seu trabalho não se adapte ou não seja interessante para a publicação tradicional, mas não desanime. Produza e distribua de maneira independente, publique na internet, faça um financiamento coletivo. A única pessoa que pode encontrar o seu caminho é você mesmo, né?

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