Entrevista Adriana Melo

Adriana Melo

Ela é conhecida internacionalmente. Mantém um contato direto com seus admiradores na internet e soube se destacar numa área  de maioria masculina, conciliando a materninade e os estudos. Já trabalhou para a DC e atualmente está na Marvel, onde se destacou e se tornou a primeira mulher a desenhar o Justiceiro e o Homem-Aranha. Conheçam um pouco mais da simpática desenhista Adriana Melo.

Lady’s – Segundo a sua biografia no site oficial, desenhar é o que sempre quis fazer. Conseguiu isso, e hoje possui um emprego invejado por muitos. Em algum momento encontrou um obstáculo em que você quis desistir?

Ah sim, isso aconteceu por várias vezes e por vários motivos diferentes. Revistas canceladas inesperadamente, troca de desenhista não prevista (por mim, há!), editora falida (aconteceu no começo da minha carreira e me afastou por anos da prancheta)…Enfim,  todos enfrentam problemas e surpresas desagradáveis pela frente, a coisa é saber como lidar com o isso e tocar a bola pra frente ;) Até porque quadrinhos é o que eu realmente amo desenhar e não me sentiria realizada em nenhuma outra área.

Lady’s – Como você lida com as severas críticas feitas às histórias em quadrinhos de super-heróis?

No começo me machucava um pouco com o veneno que rola em alguns fóruns de quadrinhos. Agora já tiro isso de letra a estou sempre antenada com as críticas CONSTRUTIVAS, pontos interessantes levantados por leitores e sites de quadrinhos, encarando isso como uma forma de desenvolver o traço.  Sempre vai ter o carinha que vai dizer “ficou uma m****” e o outro que diz “tal e tal detalhe não funcionaram, por causa disso e daquilo”. Como trabalhamos com personagens queridos por muita gente, eu entendo que as pessoas se enfureçam quando não gostam do que desenhistas “fizeram” com o personagem preferido, por isso dou um desconto a alguns comentários.  Aos que odeiam por odiar, é aquilo: “haters gonna hate” :p

Lady’s – Você diz que desde criança gostou de fazer história em quadrinhos. E de ler? Você gosta também das histórias para quais desenha? Quais recomenda?

Sendo absurdamente sincera não leio mais quadrinhos a uns… dez anos. Me mantenho informada sobre o que está pegando e o que tem rolado nas editoras mas mantenho a leitura exclusiva dos meus roteiros. Cada desenhista tem uma relação diferente com a profissão e pra mim funciona da seguinte forma: trabalho 12 horas em cima de uma página, as vezes perdida em uma montanha de outras revistas (já que é preciso de quilos de referencias para manter a história nos trilhos do desenhista anterior), fotos, esboços, layouts, reviews etc. No fim do dia eu prefiro assistir um filme ou ler um bom livro e desestressar do assunto.

Lady’s – Voje já escutou essa frase, mas o que mais te incomoda no comentário: “você não desenha como uma mulher!”

O que me incomoda é o estereótipo de que seu gênero define seu estilo ou talento artístico. “Mulher não desenha outra mulher bonita ou sexy” “Mulher tem traços delicados” são outras frases que acompanham a primeira e que costumava ouvir no começo da carreira.

Lady’s – Você foi a primeira mulher a desenhar o personagem Justiceiro e o Homem-aranha. Isso não é pra qualquer uma!Conte-nos como foi essa experiência e como você vê o mercado das histórias em quadrinhos para as mulheres?

Foi uma oportunidade muito legal, já que desenhei o crossover do Justiceiro com a Witchblade (revista que eu trabalhava à época), e foi uma história bem interessante, escrita pelo Ron Marz.  Lembro da quantidade enorme de referencias que imprimi, com receio de desenhar algo errado no personagem, tamanha a responsabilidade que sentia. Foi divertido por que a história não seria arte-finalizada então eu tinha que desenhar tudo muito definido e isso é algo que já sai meio que naturalmente, tenho a mão meio pesada e tendo a deixar as páginas definidas mesmo sem ter a intenção. Bem, no geral gostei do trabalho já que foi algo diferente das histórias centradas em personagens femininas que trabalhei e eu gosto muito de desenhar ação, pancadaria e sangue voando *rs

O mercado tem se aberto cada vez mais para as mulheres, temos várias desenhistas, mas curiosamente num número muito inferior ao de coloristas, roteiristas e editoras. Parece que as meninas se interessam mais pelo Photoshop e Word do que pela lapiseira 0.5 *rs Mas como disse, isso tem mudado muito e mais mulheres estão chegando ao mercado, com editores que estão sempre antenados e prontos a receber profissionais responsáveis, centrados e talentosos, independentemente do seu gênero.

Passei a estudar o desenho de tecidos, copiando catálogos de moda feminina, treinar anatomia também nos mesmos catálogos. Mantive um caderno próximo e quando a pequena dormia, eu continuava treinar e estudar…

Lady’s – No seu site há várias dicas de materiais, passo a passo de alguns trabalhos, nos parece que gosta de manter um contato mais didático e/ou transparente com as pessoas que acessam seu site. Já fez workshop em eventos ou tem interesse em dar aulas?

Já fiz tudo isso, mas atualmente tenho focado mais em “workshops virtuais”, postando material em meu site que mostra o processo de criação de um desenho. Inclusive mais recentemente tenho promovido os livestreams, onde via uma webcam na prancheta produzo ao vivo uma pinup, tirando dúvidas de quem tiver assistindo. Esse formato funciona mais pra mim já que meu horário por vezes fica apertado.  E gosto da idéia de poder tirar pequenas dúvidas de pessoas, abrir a porta do estúdio e exemplificar como os desenhos são feitos, etc.

Lady’s – Suas referências envolvem diferentes estilos de desenho e passa por outras artes, como o cinema. De que forma eles influenciam o seu traço?

Quando crio uma pinup ou capa, tento colocar ali um pouco das coisas de que gosto, que me inspiram. Tudo que mexe comigo de alguma forma, tento transportar para o papel. Da Art Nouveau e seu principal artista, Alphonse Mucha tento trazer a molduras, áreas de branco, cabelos gigantesco e esvoaçantes, além da composição (ponto mais forte). Do Anime tento trazer um pouco da ação, da música trago detalhes e roupas de vídeos favoritos e coloca em páginas\pinups, trilogias como “Bourne” e “Senhor dos Anéis” estão sempre a mão por um simples motivos: assim que termino de assisti-los tenho vontade de correr pra prancheta desenhar. Eu acho que a delícia dos quadrinhos é que você pode acrescentar pequenos detalhes de coisas que ama ou são importantes para você, em seu trabalho. Tudo vira referência!

Lady’s – Ser mãe e quadrinista deve ser complicado. Como foi ficar sem trabalhar durante 5 anos para criar sua filha? Como fez depois pra conciliar as duas tarefas (ser mãe e artista)?

Foi uma época muito difícil, já que tentava aprender a ser mãe e cuidar da pequena, enquanto olhava para o horizonte e não via a mínima possibilidade de voltar ao ramo. E uma criança pequena requer tempo, vigia constante e dedicação, sozinha não conseguia levar tudo. Só quando ela foi para a pré-escola, tive tempo de correr atrás da carreira novamente, preparar o portfólio novo, refazer contatos etc. No entanto como nesse período de 5 anos eu mantinha o sonho de voltar a trabalhar, continuei treinando e estudando por conta própria em casa, partindo do ponto de que precisava reforçar meus pontos fracos no traço. Passei a estudar o desenho de tecidos, copiando catálogos de moda feminina, treinar anatomia também nos mesmo catálogos. Mantive um caderno próximo e quando a pequena dormia, eu continuava treinar e estudar também inglês, sozinha. Eu pensava: “agora não tem como, mas quem sabe amanhã as coisas mudam”. E mudaram, hoje a “pequena” tem doze anos e continuo levando as duas “profissões” em conjunto, lidando com reuniões de pais, notas altas e baixas, lições de casa, brigas, conquistas e mudanças, levando isso em conjunto com deadlines, busca por referencias, melhora do traço constante… Tudo ao mesmo tempo, cansativo, mas também permeado de bons momentos no meio de tudo isso. E não poderia (ou deveria) ser de outra forma.

Lady’s – Muitas mulheres vêem nas histórias de super-heróis um apelo sexual da figura feminina, o que você tem a dizer sobre isso?

Ah, isso não tem jeito. O apelo sexual está em filmes, novelas, comerciais, revistas, outdoors no mundo todo (sad, but true).   O que eu tento fazer do meu lado é retratar minhas super heroínas ressaltando outros pontos das personagens, da personalidade delas, do rosto ou uniformes, deixando a sensualidade como conseqüência ao invés de único atrativo. Penso muito nas poses em que as coloco, tentando deixar as mesmas suaves, mostrando a beleza sem expor excesso de pele desnecessário e sem closes constrangedores. Quando eu desenho uma delas, penso não num pedaço de carne que está lá pra atrair leitores, mas tento retratá-las como super seres, deusas, não simplesmente gostosas.  Do mesmo jeito que desenho homens bonitos, sarados e com a cara do George Clooney ou Brad Pitt *rs   Funciona para os dois lados.

Lady’s – Nossa Lady do mês é a Mary Jane, como você já desenhou o Homem-Aranha e provavelmente teve bom contato com a história – como você enxerga a personagem?

Mary Jane e a Gata Negra são duas das minhas personagens favoritas no universo Aranha e Marvel, pra mim a ruiva sempre será a personagem ideal para acompanhar o Homem Aranha.  *-*

Para conhecer mais sobre a Adriana e ver mais de seus desenhos acessem: www.adrianamelo.com

A Adriana também está no twitter sempre desenhando ao vivo para seus seguidores!

13 comentários em “Entrevista Adriana Melo

  1. Desde que soube da existência da Adriana, através de uma entrevista na revista Wizard de 2004, acompanho seu trabalho. Desde então, sua história serve de estímulo para mim e considero seus desenhos os melhores entre os brasileiros. E é bom deixar claro que isso nada tem a ver com gênero, ela realmente é minha favorita, o fato de ser mulher para mim é indiferente.

    Beijos, meninas.

    • Obrigada por comentar Carolina. Aqui no ladys tb não é só o gênero q define a postagem, e sim a importância e qualidade do trabalho realizado. Muitas mulheres foram esquecidas com o tempo e o resgate desses bons trabalhos é o que prevalece. Beijos

  2. Claro, Mariana! Acompanho o Lady’s desde o comecinho e sei que só aparecem trabalhos e artistas de primeira por aqui. Mesmo assim achei importante ressaltar o lance de gênero, pois sempre que falo por aí que a Adriana é minha desenhista de quadrinhos favorita tem sempre um para perguntar “mas você fala entre as mulheres, né?” e isso me incomoda um pouco. Quando digo que alguém é meu favorito em alguma coisa, nem passa pela minha cabeça essas diferenciações, na verdade, sabe?

    Enfim, tomara que eu tenha conseguido me expressar melhor dessa vez. :)

    Beijos.

  3. Cara sei que sou homem(talvez até pega mal eu ta postando aqui ^^),mais é muito legal ver que desenho não é coisa só de homen(acho que não só o desenho,mais muitas coisas antes pareciam ser “restritas” ao sexo feminino). vcs estão de parabéns!!!
    DESENHO PARA TODOS!!!!^^

  4. Embora eu não seja o maior entendido em comics, daqueles que compra tudo todo mêes (prefiro mangá, embora também não compre tudo todo mês…), já conhecia um pouco o trabalho da Adriana Melo.
    Acho injusto dizer que ela “desenha como um homem”. Ao contrário, eu, pelo menos, vejo bastante diferença do traço dela para o de outros desenhistas. O traço dela é mais delicado e limpo, mais orgânico e anatômico. As garotas que ela desenha são mais bonitas, com rostos mais delicados, enquanto geralmente os homens exageram nos peitos e fazem cinturas exageradamente finas. Mesmo os homens que ela desenha, embora musculosos (não tem como fugir disso em comics), não tem aqueles braços exagerados cheio de detalhes pra dizer que é mega-definido.
    Eu, particularmente, acho que o trabalho dela está entre os melhores, é até injusto que não seja muito lembrada entre os fãs de comics, que falam tanto de Romita Jr, Jim Lee e Alex Ross. Concordo que eles são ótimos, mas a Adriana também é. Merece ter mais espaço e reconhecimento. ^_^

    ——–
    Risadas novas todo fim de semana em
    http://supercreeps.thecomicseries.com

  5. A entrevista foi ótima. É assustado o desafio que a Adriana enfrentou e venceu. Além da qualidade dos desenhos dela, de seu talento, foi muito legal o que ela falou sobre as diversas referências e como provocam seu trabalho.

  6. Guilherme, seu comentário contém alguns equívocos, a meu ver, que eu gostaria de tentar esclarecer.

    “As garotas que ela desenha são mais bonitas, com rostos mais delicados, enquanto geralmente os homens exageram nos peitos e fazem cinturas exageradamente finas”.

    Cara, isso é uma grande bobagem. Claro que existem desenhistas de merda como Rob Liefeld que desenham mulheres (e tudo mais) de forma horrível, mas daí a dizer que “geralmente os homens exagera…etc”, me parece uma generalização sexista. Não é um comentário justo.

    Eu, particularmente, acho que o trabalho dela está entre os melhores, é até injusto que não seja muito lembrada entre os fãs de comics, que falam tanto de Romita Jr, Jim Lee e Alex Ross. Concordo que eles são ótimos, mas a Adriana também é. Merece ter mais espaço e reconhecimento. ^_^

    Cara, existem muitos desenhistas fodões no mundo dos comics, mas o Jim Lee não está entre eles. O trabalho dele é uma porcaria. Nos desenhos do Jim Lee todas as mulheres são gostosas, todos os homens são super bombados e todo mundo tem rosto igual, além dele fazer os personagens “duros” como pedra. Dê uma olhada no trabalho do Francesco Francavilla, John Cassaday, Duncan Fegredo, Mike Allred, e principalmente no do Ivan Reis, na minha opinião o melhor desenhista brasileiro no ramo dos super heróis, disparado.

    Abraço.

  7. Acompanhei o surgimento das Ladys logo no comecinho graças ao universo HQ, fiz um comentário breve sobre a qualidade do material até então publicado,que estava excelente, mas por conta de vários motivos acabei deixando as Ladys um pouco de lado.Eis que na minha volta,sou presenteado com essa fantástica entrevistae o que é Melhor:As Ladys continuam BOA no que fazem. Parabéns meninas, essa foi uma das melhores entrevistas que eu ja li com a Adriana.

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