Entrevista com Edna Lopes

Ao som do samba concorrente da Mangueira, indicado no seu twitter, li as respostas de Edna Lopes, curitibana, desenhista e escritora. Como todo samba que “chega chegando!” com o sorriso no rosto e  surdos marcantes Edna Lopes apareceu na história das HQ’s. Primeira mulher a escrever uma graphic novel – “Amana ao Deus dará” em 2004 – e libriana assim como eu, tem dentro de si algo a dizer e ele simplesmente aparece ou “baixa” como disse nessa entrevista que você confere agora:

Lady’s – Vamos voltar no tempo. Em 2004 quando você publicou “Amana ao Deus dará”, o que mais foi comentado? A HQ ou o fato de ser a primeira mulher a publicar uma graphic novel no Brasil?

Edna – Eu acho que tive a sorte desses dois motivos ficarem praticamente em primeiro plano ao mesmo tempo. Sorte porque eu queria muito, na época, que o quadrinho começasse a ser lido não apenas por fãs de HQ. Tinha a pretensão de espalhar o gosto pelas histórias em quadrinhos para um público novo. Com esse tipo de chamada os jornais e blogs acabaram mesmo atraindo pessoas que nunca tinham lido uma HQ na vida. Eu pude notar isso pelos e-mails e nos eventos de autógrafos onde encontrava muita gente que nunca tinha lido um quadrinho e que estava lá super entusiasmada com o ineditismo e com a história.

Lady’s – Porque decidiu na época produzir a “Amana ao Deus dará”? Algo do momento ou foi planejado?

Edna – Um esboço bem cru da história já existia há muitos anos, mas estava “emperrado”. Faltava alguma coisa que me impulsionasse. Quando li o livro do Gilberto Dimenstein, Meninas da Noite, fiquei bem chocada com o relato. Dias depois eu tive uma inspiração repentina e surgiu o gancho que faltava para a história deslanchar e para que eu me entusiasmasse em fazê-la. Foi uma junção do que estava meio planejado com o momento de inspiração.

Lady’s – Amana fala de rebeldia, abandono, prostituição… Porque a escolha desses temas?

Edna – Inicialmente o tal esboço tinha apenas a intenção de mostrar as diferenças culturais que existem no Brasil. Sua diversidade, riqueza de comportamento social e alguma crítica política que é de lei (hehehe). Mas com o tempo e a leitura de Meninas da Noite a coisa tomou um rumo inesperado até pra eu mesma. A verdade é que o roteiro foi “baixado”, como eu sempre digo, e não construído conscientemente por mim. Foi um ato de inspiração que eu nunca havia experimentado.

Sempre conto que eu estava fazendo café de manhã e do momento em que coloquei a água sobre o pó no coador até ela começar a sair escura do outro lado, na jarra, Amana estava totalmente pronta. Depois foi só acrescentar os diálogos e… desenhar, finalizar. Claro que deve contar o fato de eu ter sido militante de esquerda por muitos anos e de ter ouvido muitos relatos de violência e abuso de poder sobre mulheres indefesas. Mas a verdade é que eu não estava pensando, inicialmente, exatamente nisso. Acho que nossas vivências são mais fortes e acabam prevalecendo na hora da inspiração.

Capa de "Amana ao Deus dará"

Lady’s – Voltando para os dias de hoje, como está sua produção de desenhos? Algum projeto sendo realizado?

Edna – Estava fazendo alguns quadrinhos para revistas, inclusive uma cultural de Portugal. Todas de poucas páginas. Em 2008 eu estava com uma vaga pretensão de escrever uma ficção científica, mas não me achava capaz. Até que aconteceu novamente.

Eu estava me preparando para passar o feriadão de carnaval esparramada no sofá da sala assistindo os desfiles das escolas de samba quando de repente começou a “baixar” um roteiro. Perdi quase todos os desfiles porque o tal do “download” desta vez era imenso e durou cerca de uma semana. Vinha com muitos diálogos complexos junto. Acabou se tornando uma HQ enorme, de cerca de 700 páginas. E é uma história de ficção científica, nada a ver com o Amana. Estou na fase dos desenhos e já fiz alguns nanquins. É um trabalho demorado, penso em lançar em dois volumes.

Lady’s – O que mais gosta de desenhar ou produzir?(ilustrações, quadrinhos, sites, CDs…)

Edna – O que mais gosto é de criar a história, os diálogos e fazer rascunhos das páginas. A finalização confesso que é sofrida e com isso demoro muito para terminar. Então o que mais gosto de fazer são os quadrinhos, apesar da arte final.

Lady’s – Conte um pouco de como é a produção de um trabalho seu. Você costuma fazer pesquisas? Escuta música enquanto desenha?

Edna – Depois que o Alan Moore disse que não consegue criar ouvindo música, graças à Deus posso dizer, sem vergonha, que não consigo também. Assim como ele, fico induzida pela música e não gosto dessa sensação de ser guiada por outro meio. Prefiro imprimir o ritmo que a história pede e isso tem que ser, pra mim e parece que pra ele, num estado de concentração total, sem interferências.

Digo isso dessa forma porque existe uma certa conexão, quase que uma obrigação entre HQ e Música. Muitos desenhistas inclusive são músicos, ou pelo menos tocam um instrumento, ou pensam que tocam hehehe! E você dizer que não ouve música desenhando é quase um sacrilégio! Eu ouço música, mas fora desse tempo de criação (que é bastante grande hehehe).

A pesquisa é o tempo todo. Gasto um tempo enorme em pesquisas visuais e agora estudando um pouco de ciência que eu sempre adorei. Astronomia e genética são meu foco hoje. Fora os sites de sci-fi vintage… Minha coleção de revistinhas Mecânica Popular dos anos 60 estão em uso finalmente.

Lady’s – Qual material que você usa nos seus desenhos?

Edna – Os mais simples: primeiro lápis e papel, qualquer um que me dê conforto. Nanquim para a arte final, agora uso pena, antes usava a caneta Sakura. Para colorir uso o Photoshop.

Página de "El Pibe versus White Trash"

Lady’s – O que é ser mulher desenhista nesse mercado onde a produção é na maioria masculina?

Edna – Sou muito reclusa então não costumo estar em contato com o pessoal que produz. O Amana saiu pela Casa da Palavra, onde as editoras eram mulheres, só tinha um editor e que gostava muito do trabalho. Inclusive não era uma editora especializada em fazer HQ, era o primeiro trabalho dela nessa seara. Os principais meios que falaram do Amana foram muito entusiasmados e bem receptivos.

Aqui no Rio, agora, tem um pessoal de uma grande livraria que está realizando vários eventos onde as mulheres sempre têm um dia especial. Em outubro haverá uma semana de debates e eu vou falar numa mesa sobre a produção geral de HQs.

É claro que tem seus clubinhos fechados, afinal quadrinhos “é coisa de menino”. Tem sempre aqueles que torcem o nariz pra qualquer coisa nova que possa tirar ainda mais um pouco da fatia desse bolo que mais parece um mini brigadeiro (!). Mas eu realmente não posso reclamar, tenho um amigão que é o Marcatti (quadrinista), que eu admiro muito e que sempre me deu a maior força.

A produção feminina internacional é muito significativa e está em busca de temas mais abrangentes do que histórias policiais, super heróis ou violência gratuita… Não que eu não leia tudo isso e não goste também, mas as mulheres trazem uma nova visão para essa arte tão desprezada pelos meios de comunicação.

Lady’s – Deixe seu contato (site, twitter…) para quem quiser saber mais sobre seu trabalho!

Edna – Estou no Myspace e no Facebook como Edna Lopes. No caso do Twitter tive que colocar Edna Lopes HQ.

Para comprar “Amana ao Deus dará”

Para conhecer e adiquirir – Meninas da Noite de Gilberto Dimenstein

Conheça um pouco de Alan Moore

3 comentários em “Entrevista com Edna Lopes

  1. A primeira vez que vi Amana, foi quando fui pela primeira vez em Sampa aonde dei uma palestra no Espaço Cultural Planeta Tela em 2006 sobre a minha revista de HQ La Bouche du Monde, foi um amigo que me aconselhou em comprar, e que bom conselho, me apaixounei pela publicaçao. Me apaixonei pela narraçao, é bom saber que Edna Lopes produz ainda, bom morando na França nunca mais ouvi falar na Edna, legal que o site Lady’s fez essa otima entrevista. Parabéns !

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