Entrevista – Cris Peter

 

Hoje a entrevista é com a colorista Cris Peter. Já conhecida no meio dos quadrinhos a porto-alegrense fez trabalhos para a Marvel, DC e Dark Horse. Um de seus trabalhos mais recentes foi Astronauta – Magnetar, um sucesso da linha Graphic MSP. Atualmente ela está comum projeto no Catarse para lançamento de um livro sobre Cores! Saiba mais na entrevista a seguir:

Lady’s – É comum ver pessoas querendo ser quadrinistas e não coloristas. Poucos sabem que é uma profissão. Pode nos contar como é ser colorista e porque escolheu esta profissão?

É verdade, eu acho que o desenho é uma paixão maior para a maioria das pessoas do que colorir, e também acho que o pessoal sempre parte do princípio de que um quadrinista DEVE fazer tudo sozinho (desenho+cor+letreiramento). Mas acho também que aqui no Brasil, ser um artista completo é mais comum do que nos EUA, por exemplo. Lá eles tem aquela produção insana de quadrinhos por mês, então é normal para eles setorizarem os trabalhos.

Eu não sei, tenho a impressão de que eu só comecei a desenhar porque queria desenhos pra colorir. Minha infância foi humilde e meus pais não tinham dinheiro pra comprar vários livros de colorir (que eu adorava). Quando comecei a desenhar sempre tive uma preguicinha, então quando descobri a profissão de colorista, fui me interessando cada vez mais, pois era algo que eu tinha mais facilidade e era um caminho pouco trilhado, vi a oportunidade ali: Na falta de interessados em seguir esse ramo. A realidade hoje é outra, mas na época foi o que me chamou atenção.

Astronauta - Colorização: Cris Peter | Desenho: Danilo Beyruth

Astronauta – Colorização: Cris Peter | Desenho: Danilo Beyruth

Lady’s – Como foi trabalhar em Astronauta, uma de suas mais recentes publicações?

Foi uma delícia. A equipe era entrosada e falávamos a mesma língua (literalmente hahaha). Foi tudo tão tranquilo que nem pareceu trabalho. Eu não tinha parado pra pensar na importância que as Graphic MSP teriam no mercado de quadrinhos no Brasil. Só fui perceber isso na GibiCon de 2012, quando a equipe estava toda reunida falando a respeito, e pude perceber como foi boa a aceitação do público. Tenho a impressão de que participar desse título foi mais importante pra minha carreira aqui do que ter sido indicada ao Eisner.

Lady’s – Quais suas referências na hora de trabalhar?

Eu não tenho referências específicas. Procuro seguir meu instinto, procurar referências diversas em desenhos, fotos, pinturas aleatórias que transmitam o que acho que combinaria com a história na qual estou trabalhando. É um estudo separado para cada estilo, e depois de fazer um teste sempre tento trocar ideias com o desenhista e os editores. Sempre chegamos em um acordo juntos.

Lady’s – Você tem algum método de trabalho específico?

Não. Não sou uma pessoa muito constante hahaha. Claro, quando trabalho sempre com os mesmos artistas, tenho um modo meio automático de colorir. Cada artista tem um estilo de colorização diferente. Como por exemplo, quando trabalho com o Gabriel Walta, no Astonishing Xmen, sempre colorizo da mesma forma até que vira uma produção automática. Descrevi como trabalho na arte dele no meu blog.

Lady’s – Como surgiu a ideia de seu projeto no Catarse?

A ideia deste livro já estava engavetada há alguns anos. Quando comecei a publicar meus tutoriais na internet comecei a perceber que de post em post eu não seria capaz de transmitir os assuntos mais importantes sobre as cores. Estava querendo uma parceria com uma editora para produzi-lo, mas, apesar de haverem algumas interessadas, não havia dinheiro para investir na produção. Além disso, meu volume de trabalho estava me impedindo de focar em qualquer outra coisa, senão colorir. Então, quando comecei a me informar sobre o Catarse, vi a oportunidade de realmente me comprometer com o trabalho e montar uma equipe pra me ajudar na produção dele.

Lady’s – Você disse: “Estudar sobre as cores não precisa ser chato. Quando penso em CORES, diversão é a primeira palavra que me vem em mente.”. Comente como é trabalhar com as cores.

Quando vejo algo em preto e branco, imediatamente tenho vontade de colorir. Não sei o que é, não sei se esse instinto vem desde pequena, ou se adquiri ele com os anos de trabalho. Sempre achei que as cores aproximam mais o desenho do espectador. Sinto mais vida no desenho, quando ele é colorido.

Colorização: Cris Peter | Desenho: Ana Luiza Khoeler

Lady’s – Existem vantagens e desvantagens de ser colorista? Se existir, quais são?

As vantagens, acho que o leitor não deve ter muita dificuldade em supor. Trabalhamos em casa, fazemos o próprio horário, temos mais tempo pros nosso animais de estimação, podemos colorir desenhistas com a arte linda, não precisamos fazer tanta pesquisa de referência quanto um desenhista, não precisamos desenhar cidades em perspectiva, etc.

As desvantagens: muitas vezes não recebemos o mesmo valor de revista pra revista, é um mercado saturado e difícil de se estabelecer, ganhamos muito menos do que um desenhista, muitas editoras não nos pagam royalties, somos facilmente substituíveis por outro colorista com trabalho e valor inferiores (graças a pouca importância que algumas pessoas dão a qualidade de colorização), enfim, a maioria das desvantagens tem a ver com dinheiro. Há alguns que reclamam do pouco prazo e da “obrigação” de recuperar o atraso dos desenhistas, mas não reclamo disso, pois acredito ser uma questão de postura. Eu nunca aceitei trabalhos de prazo apertado, então nunca tive de virar noites, e nem pretendo.

Sim, citei mais desvantagens do que vantagens. Nenhum mercado é dos sonhos. É mais fácil criticar do que elogiar. Acho que isso é um problema cultural hahaha

Lady’s – Você disse que quer “Produzir um livro de teoria sobre cores com uma linguagem que agrade tanto ao pessoal que trabalha na área das artes visuais quanto aos que se interessam pelo tema, mesmo que não sejam profissionais da área!”. Como pensa em fazer isso?

Como sempre fiz nos meus posts. Falar usando a nossa linguagem, não a linguagem de um acadêmico teórico. Isso sempre foi algo que me incomodou: o excesso de formalidade na hora de educar. Não estou falando palavras erradas nem deseducando ninguém ao escrever como falo com meus amigos, fazendo piadas, etc. Não estou dizendo que devemos ser palhaços, mas só que existem maneiras mais práticas de ensinar.

Casa Nova – Colorização: Cris Peter | Desenho: Fábio Moon e Gabriel Bá

Lady’s – Quais são suas dicas para quem está começando na área?

Minhas dicas são: Produza algo todos os dias, tenha um plano B, C, D, E. Não seja bitolado, estude de tudo, aproveite as oportunidades, faça um marketing pessoal na internet (sem spam, por favor. Deixe o público te achar, não corra atrás dele feito um carente) e não deixe ninguém te explorar.

Lady’s – Você também desenha. Um dia vamos ver um quadrinho com seus traços?

Não sei… desenhar me incomoda um pouco, pois sou bastante limitada. Não tenho muita experiência em desenhar cenários,vários ângulos, etc. Se um dia me bater uma inspiração maluca, talvez faça algo mais cartum. Uma tirinha, talvez. Tenho um próximo projeto para 2015 onde vou arte-finalizar a Ana Koehler em um livro ilustrado de minha autoria. Vamos ver .. ;)

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Para acompanhar o trabalho da Cris Peter:

Site: crispeterdigitalcolors.com
Projeto Catarse: catarse.me/pt/usodascores

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