[Entrevista] Gatamarela

Em 2016 quatro ilustradoras que residiam em Recife (PE) e trabalhavam juntas em um estúdio de editoração já vinham produzindo ilustrações para livros infantis há alguns anos, mas tinham em comum o interesse em começar a fazer histórias em quadrinhos. Foi assim que surgiu o grupo Gatamarela, formado por Jacqueline Lima (Jac), Kau Bispo (Kau), Gisele Rosa (XL Rosa) e Mary Moss (Mary). 

Como começaram a fazer quadrinhos? Por que quadrinhos?

JAC – Sou apaixonada por quadrinhos e sempre tive uma grande vontade de produzir. Depois que conheci as meninas, me senti muito confiante para, finalmente, colocar em prática esse desejo.

KAU – Todas temos nossos quadrinhos prediletos, gostamos bastante de contar estórias, e o quadrinho é um veículo que vem ganhando força no mercado brasileiro.

MARY – Li quadrinhos toda a minha infância. Hoje, não leio tanto, mas cresci com referências de Marvel, D.C e Vertigo. Aprendi muito, copiando desenhos das edições que eu mais curtia. Posteriormente, conheci um grupo de fanzineiros, fazíamos até projetos, mas, infelizmente, não vingaram, coisas de adolescente. Já tive a oportunidade de trabalhar com a Luluzinha teen, há alguns anos, foi uma experiência muito bacana.

XLRosa (Gi)

GI – Eu nunca havia feito nada de quadrinho, exceto umas tirinhas que eu desenhava quando era mais nova e não mostrava pra ninguém. Turma da Mônica fez parte da minha infância e, durante a adolescência, paquerei os quadrinhos dos X-MEN. Segui desenhando outras coisas até a Gata realmente acontecer e esta acabou sendo uma bela oportunidade para por em prática um lado que eu sempre gostei!

Por que resolveram fundar o Gatamarela? Quando? Qual a origem do nome?

JAC – Kau tinha muito interesse em formar um coletivo feminino no qual pudéssemos nos expressar, debater ideias. Primeiro, ela chamou a Mary, depois a mim e, por fim, a Gi. Escolhemos as tirinhas por acreditar que esse meio de expressão é muito mais direto. Nosso interesse era falar um pouco sobre nós como mulheres, como profissionais, nossas alegrias e frustrações de uma maneira mais suave e de uma forma que outras pessoas pudessem se identificar. O nome surgiu pelo interesse das quatro por gatos e a palavra amarela vem da cor que gostamos e, para nós, representa a criatividade, a felicidade. Brincamos também com as palavras Gata-amarela…ou tudo junto como Gatamarela. Nesse mês de Outubro, completaremos 1 ano.

KAU – No caso, eu pensei na ideia, pois queria fazer algo para mudar a rotina diária do trabalho, para aproximar as meninas ilustradoras, e também para ter novas experiências e desafiar este caminho, que todas nós sabemos como é longo e complicado. Sobre o nome, todas amamos gatos e, amarelo ou amarela é uma expressão daqui, do nordeste.

Mary

MARY – Queríamos falar sobre o universo feminino dentro do nosso universo de quadrinistas.
Todas temos personalidades e mundos diferentes, mas uma mesma paixão, não do quadrinho em si, mas a da ilustração. Achamos que seria bacana nos expressar através de tirinhas. O nome GataMarela veio de muito “matutar”, aí descobrimos que todas gostamos de gatos. Eu tenho dois amarelinhos, por isso, super curti a ideia do nome. Concordamos que tinha boa sonoridade, carismático e como todas somos “gatas”, pra mim, foi perfeito!

GI – Estamos desde outubro de 2016 com o Gatamarela no ar. Trocamos algumas ideias sobre fazer algum projeto juntas e surgiu a ideia de formarmos uma equipe de quadrinistas. Todas tínhamos como interesse em comum (além de felinos) falar um pouco sobre as questões femininas, cada qual com sua própria abordagem e estilo de humor/revolta/filosofia, além da oportunidade de fazermos algo diferente do habitual (ilustração comercial de livros). Ser “amarela” é ser danada aqui no nordeste, então juntamos tudo e deu esse nome!

O grupo tem ou planeja ter algum tipo de ação ou publicação fora da internet?

JAC – Temos muito interesse em fazer nossa primeira HQ, estamos trabalhando em roteiros para futuramente fazer publicações.

Kau

KAU – Nós temos em mente ir mais longe que a internet. Já pensamos em publicar algumas tirinhas ou fazer algo novo no impresso, mas, por enquanto, estamos nos adaptando a mudanças que ocorreram em nossas vidas.

MARY – Já fizemos alguma ações como sorteio de canecas; no mês das mulheres, homenageamos algumas divas que nos inspiraram, essas coisas… Alguma tiras reflexivas, crítica social… não nos impomos a obrigação de fazer uma ação, mas nos deixamos livres para nos expressar. Quem quiser criticar ou expor algo, ainda que seja polêmico, fica à vontade. Quanto ao futuro, temos alguns projetos, que precisamos amadurecer, mas sim, teremos publicações impressas.

GI – Sempre houve esse interesse, desde o início. Fizemos até sorteios de canecas para dar um start! Só que não é tão fácil iniciar e manter um projeto como esse. Mesmo não conseguindo ser assídua como nos primeiros meses, a Gata é aquele filhotinho que a gente cuida pra crescer saudável, mas que, por precisarmos conciliar as rotinas com esse compromisso, ficou inevitável adiarmos os planos de fazer publicações impressas. Ainda temos um bocado para amadurecermos de qualquer forma, e estamos preenchendo esse tempo com experiência.

Quais são as referências de vocês, dentro ou fora do universo das HQs?

Jac

JAC – Dentro da HQs gosto da Júlia Bax, Sarah Andersen, Bill Watterson, Laerte, Ana Luiza Koehler e Noelle Stevenson.

KAU – Tim Burton foi uma grande influência em toda minha vida, assim como Edgar Allan Poe, Augusto dos anjos e Lao Tsé. Alguns entre meus graphic novels preferidos são: Frankenstein de Gris Grimly’s, Animal’z de Enki Bilal, Koko be good de Jen Wang e os Msp (alguns artistas e também projetos pessoais destes). Algumas que sigo são Lu cafaggi, Júlia Bax e Psonha.

MARY – Hoje, minhas amigas e companheiras de projeto são grandes inspirações pra mim. Durante meu processo de aprendizagem e amadurecimento como ilustradora, tive muita influência de Todd Mcfarlane, Mozart Couto, Danusko Campos, Mike Deodato, Stan Lee. Além de mangás como Akira, filmes de Hayao Miyazaki (não canso de ver), animes como Monster, Samurai Champloo, enfim… foram muitas…

GI – Eu sempre fui daquelas que não vira fanzona de nada, mas é inevitável não citar Persépolis (Marjane Satrapi), Scott Pilgrim, as tirinhas do Calvin e Haroldo, Laerte e André Dahmer como mini bíblias do meu repertório nos últimos anos, além dos novos talentos como Laura Athayde e Cesar Filho. Mas também fui uma criança ligadona em Caverna do Dragão, Harry Potter e Disney.

Existe uma temática específica que o grupo ou alguma integrante foque em abordar?

JAC – Procuramos abordar temas mais variados. Eu, particularmente, foco na simplicidade do dia a dia, procuro sempre a forma mais cômica para retratar o que me aconteceu.

KAU – Nós temos, desde do início, a proposta de liberdade, cada qual se descobrindo e seguindo seu caminho. Nós trabalhamos tanto com coisas padronizadas, regradas, cheias de limitações todos os dias, desenhando em traços não próprios para o mercado que quando começamos, tínhamos alguns títulos, mas acabou que deixamos tudo livre. Acredito que a liberdade de criação leva você a se autoconhecer e a se encontrar como artista.

MARY – Não necessariamente. Acredito que escrevemos de acordo com nosso humor. Algumas vezes, bolamos algo juntas, como foi no mês das mulheres por exemplo, quando cada uma postou sua homenagem. Algumas datas, combinamos algo, mas não é uma obrigatoriedade. De um modo geral, é o dia a dia e o momento de cada uma.

GI – Eu lido com oscilações de abordagem: tanto faz mostrar um humor ácido e irônico numa semana e, na outra, algo mais dramático e pessoal. Às vezes, há temáticas que combinamos de fazermos em conjunto, mas são exceções e, ainda assim, cada uma no seu próprio estilo e linguagem, pois cada uma é completamente diferente da outra. Coincidências à parte, somos duas capricornianas e duas librianas, seja lá o que isso signifique! O ponto em comum acabam sendo as questões cotidianas de uma forma geral.

O que acham das iniciativas que focam nos trabalhos femininos, como Lady’s Comics e Gatamarela? Foi algo pensado ou a parceria entre vocês surgiu naturalmente?

JAC – Acho a iniciativa incrível, nós, mulheres, precisamos nos unir porque esse universo ainda continua muito masculino, mas acredito em coletivos como esses. Juntas somos mais fortes. Nossa parceria e amizade foi acontecendo naturalmente, surgiu da vontade de todas se expressarem além das ilustrações de livros infantis.

KAU – Acredito que, cada vez mais, o número de mulheres em quadrinhos vem aumentando. E são iniciativas que devem continuar a acontecer e que também devemos apoiar uma as outras. A parceria e a amizade foram naturalmente acontecendo na construção da ideia e já existia até antes do Gata.

MARY – Pessoalmente, já ouvi piadinhas e incredulidade sobre meu trabalho. Já surpreendi e conquistei a admiração de algumas pessoas, não por ser “foda”, mas por se mulher. Essa é uma iniciativa muito importante. Existe sim preconceito, infelizmente. Temos que questionar, passar por cima e quebrar essas barreiras. Nós quatro somos diferentes e temos estilos diferentes. Somos a prova que padrões não existem.

GI – Mais do que necessárias! Mulheres nos quadrinhos são mais comuns do que se imagina e até eu tenho vergonha em não explorar mais a fundo esse universo tão vasto. Precisamos reforçar a presença feminina sim! Nossa parceria está fluindo naturalmente, nos apoiamos e acreditamos nos trabalhos umas das outras, e isso conta muito pra harmonia do grupo.

Que dificuldades encontraram desde que começaram a fazer histórias em quadrinhos?

JAC – Atualmente, a grande dificuldade que enfrentamos é produzir as tirinhas no meio do trabalho e freelances. Muitas vezes, sinto um bloqueio em poder produzir histórias.

KAU – Encontrei dificuldade por ainda não ter tido tempo em estudar sobre o assunto ou fazer um curso aprofundado. Apesar de se aprender muito lendo e observando, sinto falta disto. Minha linguagem são livros, então está sendo uma aventura. Outra é ter ideias e tempo na correria da vida.

MARY – A falta de tempo e as prioridades. E, muitas vezes, esse cansaço nos bloqueia a inspiração. Mas a luta é essa, aos poucos vamos planejando e produzindo.

GI – A falta de tempo para me dedicar é, em geral, o grande impasse. As prioridade$$$ pesam e aquela tirinha maravilhosa que eu pretendia postar acaba por ser adiada. Fora a questão dos insights, que nem sempre acontecem quando queremos, e é especialmente nisso que me cobro: aprender quadrinhos mais tecnicamente, sem necessariamente contar com uma inspiração bombástica, é meu grande desafio.

Que recado vocês gostariam de dar para autoras que estão começando a produzir HQs?

JAC – Meu recado é que acredite no seu trabalho, barreiras sempre aparecerão. Mas com força e perspicácia conseguimos alcançar o que desejamos. Produza! Faça! Tente! Você só vai conseguir produzir mais e ter um trabalho de qualidade com o tempo, esforço e dedicação.

KAU – Acreditarem em si e em seu trabalho, ninguém nasce sabendo, tudo é conquistado através de estudos, persistência e risos. Alguns podem ser ruins e outros podem ser bons, tudo faz parte do aprendizado. Não desista no primeiro esboço!

MARY – Prática e pesquisa, não se deter a estilos e tentar criar a própria identidade. Não ter medo de recomeçar, refazer quantas vezes for necessário. Não se intimidar nem invejar o trabalho do coleguinha, e sim aprender, porque a ilustração é uma prática constante. Ter consciência que críticas virão, sejam elas positivas ou negativas, mas nunca se magoe e nunca tire os pés do chão. Evolua sempre. E, principalmente, não veja só como um “sonho”, acredite!

GI – Gatas, viver de quadrinho não é pra qualquer uma. Eu acredito que nunca será minha principal ocupação, não só pela dificuldade mercadológica como pela conciliação com outros interesses igualmente interessantes, como o hand lettering, uma paixão que surgiu em paralelo com o Gatamarela. Ainda assim, espero que alguém no futuro chegue pra mim dizendo o quanto meu trabalho ou minhas palavras influenciaram na carreira dela! Brincadeiras à parte… Como tudo na vida, sucesso é a resposta do quanto você se dedica e se vende. Tem que arregaçar as manguinhas e estudar, praticar e, acima de tudo, ter coragem pra enfrentar as adversidades, que não serão poucas. Se unam! Qualquer coisa, tô por aqui dando essa força pras minas também! :)

Para acompanhar o grupo Gatamarela e cada uma das autoras individualmente, acesse:

Gatamarela – InstagramFacebook

JAC – Instagramportfolio

KAU- BehanceInstagram

MARY – BehanceInstagramFacebook

GI – Instagramportfolio

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