Entrevista – Mariana Waechter

A paulistana Mariana Waechter, 25 anos, estudante de artes visuais, é uma dessas quadrinistas que eu não sei como ainda não está no Lady’s de alguma forma. (A lista de mulheres que fazem quadrinhos é grande e cresce rápido!) Tive um papo com a Mariana sobre as duas produções que ela lançou – Medeia (2014) e É favor manter a calma – são apenas uns loucos que da casa de loucos fugiram (2015).

Foto de Sissy Eiko

Foto de Sissy Eiko

Sem mais rodeios:

Samanta Coan: Como começou a ler e fazer quadrinhos? Ou ter interesse neles?

Mariana Waechter: Quando eu era pequena, minha mãe trabalhava em uma biblioteca, foi uma época massa. Eu passava lá as tardes lendo Turma da Mônica e tiras de jornal. Foram as primeiras (e mais acessíveis) referências.
Mais tarde, meu tio me deu uma porção amarelada de HQs antigas que ele ia jogar fora, como Chiclete com Banana, Fritz e umas primeiras impressões independentes do Marcatti. Mas só depois de conhecer Alan Moore e Sandman no ensino médio eu fiquei interessada em abrir aquele pacote. Daí, começou.

Sam: Nessa época já tinhas interesse em ser quadrinista ou foi consequência disso mesmo?

Mariana: Ah, quando eu era pequena, escrevia uns contos fantásticos, acho que queria mais escrever. Mas gostava de desenhar também, é aquela história corriqueira dos quadrinistas, de acabar juntando imagem a narrativa porque as ideias não cabem em uma linguagem só.

Sam: Massa!
Só pra entender, a faculdade de artes é a primeira graduação? Só pra compreender a tua história com a artes e quadrinhos…

Mariana: Sim! Entrei velha na faculdade.

Prestei algumas vezes nas públicas e nunca passava na prova específica, hahaha

Página de Medeia

Página de Medeia

Sam: O teu primeiro quadrinho foi a Medeia?

Mariana: Autoral, publicado, sim.

Sam:  Ele é de 2013, né?

Mariana: Então, ele foi feito em 2012, concluído no início de 2013 e publicado em agosto de 2014. O processo todo com o coletivo se deu em 2012.

Sam: Poisé, eu fui atrás pra saber disso e achei muito legal o projeto em si do coletivo Sáfaro. Como foi para ti participar desse projeto do Medeia desde o acompanhamento, tua própria pesquisa e até a finalização do quadrinho?
(Eu não sei se o que tem publicado na internet é o mesmo que tem no impresso. Pelo que eu vi tem mais páginas, não?)

Mariana: (Sim! aquela versão é metade da HQ entregue pro CCJ, o primeiro edital, depois destinamos parte da grana pra publicação no segundo edital)

Foi muito bacana, um processo longo. A montagem de Medeia partia de Eurípedes, a nossa discussão a partir daí relacionava a questão da mulher estrangeira, feiticeira, apaixonada devota e assassina ao tema do terrorismo, e de forma mais abrangente, ao terrorismo de Estado, aos mecanismos de cerceamento, à demonização do outro, do estranho, do que pode ser expulso da sociedade pelas suas características pouco “helênicas”, civilizadas. E então o terrorismo do “inválido” como resposta. Discutimos isso tendo em vista a produção cultural da época (pouco anterior e de 2012), de Hollywood, das séries americanas, como elas funcionam como “ensaio” da realidade, a exemplo de Tropa de Elite e a subida da PM ao morro, dos acontecimentos em SP, como o caso aterrador de Pinheirinho (coisa que o Pedro Moura do LerBD decifrou, o que foi o máximo).
Quando eu comecei a criar Medeia a minha filha tinha um ano, então o coletivo (que era composto por artistas da performance, video, teatro, cenografia) desenvolvia a construção da montagem da peça através de performances, improvisos coordenados, derivas – eu ficava a maior parte do tempo em casa, com ela e com os esboços. Sempre que possível, eu ia às reuniões e observava o que estava rolando, fazia uns desenhos de observação, ouvia as discussões do processo. Se ouve muito falar que a profissão do quadrinista é solitária, né? Mas foi uma época muito massa, que eu pude começar a fazer quadrinhos de forma bem focada.
Enfim, até começo de 2013 estava terminando a HQ e só em 2014, quando o coletivo se juntou pra realizar um novo intercâmbio (Helena) que destinamos parte da verba à materialização da HQ de forma independente.

Página de Medeia

Página de Medeia

Sam: Os desenhos de observação são a tua base pra fazer os personagens ou foi apenas pro Medeia? Vi no teu Tumblr que segues um estilo naturalista.

Mariana: As referências são pontuais – pra ângulos e movimentos pouco usuais – mas geralmente quando se entra no fluxo da narrativa o desenho vai se tornando mais intuitivo, pela frequência. Agora, isso do meu estilo ser mais naturalista, eu não sei direito ainda, mas realmente tenho essa tendência.

Sam: Trabalhas o preto e branco por opção?

Mariana: Opção pela economia. hahaha!

Na verdade é por isso mesmo, até agora, que desenvolvi mais o pb. Mas ando experimentando e pretendo aprender a trabalhar melhor com cor. Mas gosto muito do p&b!

001b-pb
Sam: Tu usas que material?

Mariana: Geralmente nanquim, pincel, lápis, ecoline preto pras manchas aguadas que foram bem presentes em Medeia (dica do Mutarelli, as manchas ficam mais doidas que as do nanquim).

Sam: Tuas referências são quais? Falando de modo bem amplo mesmo…

Mariana: Dürer, Goya, Mutarelli, Bill Waterson, Bechdel, Harry Clarke, Austin Osman Spare, Jorge González…
[De literatura] Bom, tem o Jack London, [De música] Coco Rosie, Raul Seixas, Sergio Sampaio…
(Essa parte das referências é sempre cruel)
(hehehe)

Sam: (hahah é mesmo!)
Tais agora lançando um quadrinho na revista BILL. Né?

Mariana: Sim!

Foto de Guilherme Ziggy.

Página do quadrinho da revista Bill – Foto de Guilherme Ziggy.

Sam: O roteiro e o desenho são teus?

Mariana: Sim! Minha HQ [É favor manter a calma – são apenas uns loucos que da casa de loucos fugiram] no Bill tem três páginas, foi inspirado em trechos selecionados arbitrariamente de Almoço Nu, do Burroghs, e traduzidos numa narrativa onde inclui um travesti de um clipe do The Knife e o clássico Little Nemo, que acho absurdamente lindo, é uma referência também.

BILL

Página de É favor manter a calma – são apenas uns loucos que da casa de loucos fugiram

Sam: Qual clipe?

Mariana: haha, a revelação!

Sam: (Gente! Nunca percebi que nesse clipe era uma travesti…)
Tens umas misturas muito loucas. o.o

No Medeia eu fiquei um bom tempo olhando cada página pra entender bem o conjunto… Ok, sei que não tava completo, mas achei que eu tinha uma profundidade que eu não compreenderia. hahaha a loca.

Mariana: É, então, é meio uma colagem de referências, brisas tidas durante o processo. Mas acho que é acessível! rs
(Leia Medeia! É elucidativo já a partir da primeira página. E uma ótima leitura clássica)
(Digo, o Eurípedes tb, talvez depois! haha)

Sam: (Eu conheço a história bem por cima de Medeia. Mas porque depois?)
Depois da revista BILL, vem novos projetos nesse ano?

Mariana: (Depois, antes, durante! hahaha – não tem ordem!)
Logo mais terei uma charge publicada na coletânea sobre o atentado ao Charlie Hebdo, pela Cia da Letras. Tenho uma HQ guardada desde o começo de 2014 que gosto bastante e deve sair pelo projeto Inverna, encabeçado pela Paula Mastroberti – acredito que está em fase de captação. No mais, não tenho projetos autorais previstos.

Sam: (Vou fazer isso! :D)

Agora é a parte de jabá… Onde podemos conseguir teus trabalhos?

Mariana: Tem meu Tumblr (marianawaechter.tumblr.com) pra ver meu trampo (um pouco desatualizado, mas em vias de mudança).

É possível comprar online pela loja da Ugra: ugrapress.webstorelw.com.br/products/medeia

Mas existe a incrível possibilidade de até o fim de março comprar diretamente comigo – conversando por email (mari.waechter@gmail.com) ou inbox no Facebook – sem cobrança de frete e receber em casa pelo correio autografado.

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