Entrevista: Paula Mastroberti

Paula Mastroberti

“A consciência de gostar de quadrinhos chegou com a adolescência”, revela. Paula Mastroberti, autora de Adormecida: Cem anos para sempre (ed. 8inverso, 2012), nem sempre teve os quadrinhos como leitura principal. A literatura era seu maior gosto e, desde cedo, já apreciava Alexandre Dumas, Oscar Wilde, Mark Twain e Agatha Christie.

Depois dos 15, aí as HQs tomaram conta, com a Heavy Metal, que eu lia em inglês, onde eu conheci autores europeus como Moebius ou Phillipe Druillet, etc. – Paula Mastroberti

Capa do HQ

Adormecida é seu primeiro quadrinho. Antes deste, produziu várias páginas inacabadas, sempre tentando criar roteiros a partir de famosos textos literários – como A Bela Adormecida, evidentemente.

Paula tinha quase 30 anos quando a desenvolveu e o tempo de execução foi de três anos. A criação do roteiro foi sem planejamento. Deixou fluir enquanto construía, como uma experimentação. Após algumas entrevistas, menciona que sua inspiração visual, na época, foi muito além de Moebius ou Druillet. Sua referência maior foi Gustave Doré, ilustrador do século XIX, e os artistas simbolistas do final do séc XIX e início do Séc XX.

Sou artista plástica por formação e é na arte que encontro minhas maiores fontes visuais, em primeiro lugar, assim como é na literatura que encontro minhas maiores fontes para produzir roteiros. – Paula Mastroberti

A entrevista feita pelo Lady’s é como se fosse uma busca no passado para entender a peça final, que não foi mexida por escolha da própria quadrinista.

No fim das contas, não achei justo a Paula de quase 50 se meter no trabalho da Paula de quase 30. – Paula Mastroberti

Página interna de Adormecida

O fato histórico sobre o comic, que possui 22 anos, é interessante. Assim, podemos perceber as impressões passadas da autora – sobre o mercado dos quadrinhos e o desenvolvimento do comic.

Depois que eu terminei, até pensei em publicar, levei para a Argentina, inclusive. Mas não deu certo, os hermanos até gostaram, mas não confirmaram nada. Aqui no Brasil o papo era o mesmo: não tinha público para esse gênero e era muito cara para produzir. – Paula Mastroberti

O quadrinho publicado parece que veio como uma apresentação da autora, que atualmente desenvolve uma nova HQ com base no conto de fadas Peter Pan (http://peterpanwendyprojeto.blogspot.com.br/ ).

Neste hiato de 22 anos, a autora virou artista plástica, aprofundou seus estudos nos contos de fadas, tornou-se doutora em Letras, continuou com o gosto pelos quadrinhos e não teve medo de experimentar um novo caminho profissional – o de ser quadrinista.

Lady’s: Quando começou a se interessar por quadrinhos? Você sempre foi leitora de quadrinhos? É fã de algum quadrinho ou quadrinista?

Paula Mastroberti: A consciência de gostar de quadrinhos chegou com a adolescência. Antes eu não me dava bem conta, porque eu lia mais era literatura, mesmo, clássicos como Alexandre Dumas, Walter Scott, Oscar Wilde, Mark Twain… Ou policiais como Agatha Christie. Quadrinhos eram a minha segunda leitura, e incluía Disney, Lili, a modelo (Millie, the model), quadrinhos antigos como Príncipe Valente, Lil’Abner, coisas assim. Lá pelos 12 anos, lia muito DC comics e Marvel, e meus heróis prediletos eram Batman, Surfista Prateado, Homem-Aranha, Thor. Depois dos 15, aí as HQs tomaram conta, com a Heavy Metal, que eu lia em inglês, onde eu conheci autores europeus como Moebius ou Phillipe Druillet, etc.

Lady’s: Quando e como começou a fazer quadrinhos?

Paula: Com uns 15 anos, mais ou menos. Eu tinha dois personagens chamados Alex e Cris, dois rapazes tipo detetive amador. Os roteiros eram embasados em romances policiais variados.

Lady’s: “Adormecida” é sua primeira obra?

Paula: Publicada, é. Mas antes dela, eu já havia produzido muitas páginas de HQ que permanecem comigo, a maioria sem terminar, eheh… Ou argumentos que conservei, mas nunca cheguei a desenvolver. Meus roteiros em geral são recriações a partir de textos literários, mas não são adaptações, que eu detesto. Gosto de recriar a história em outro contexto, aproveitar só como ponto de partida, tal como faço nas minhas novelas editadas pela Rocco e Artes&Ofícios.

Lady’s: Quando você fez “Adormecida”, você tinha a pretensão de publicar de fato ou era apenas uma experimentação?

Paula: Depois que eu terminei, até pensei em publicar, levei para a Argentina, inclusive. Mas não deu certo, os hermanos até gostaram, mas não confirmaram nada. Aqui no Brasil o papo era o mesmo: não tinha público para esse gênero e era muito cara para produzir.

Lady’s: Você fala que ficou em dúvida se ia publicar o HQ depois de 22 anos guardada. Porque?

Paula: Porque acho que o roteiro poderia ser melhor, ela poderia ter mais umas 10 páginas. Por outro lado, acho que a gente não deve mexer em trabalho antigo. Assim, preserva-se a autora Paula Mastroberti tal como ela era dos 26 aos 28 anos. No fim das contas, não achei justo a Paula de quase 50 se meter no trabalho da Paula de quase 30.

Lady’s: Como o quadrinho foi recebido? Acredita que há 22 anos teria público para ele?

Paula: Puxa!!! Não esperava tanta repercussão!!! Não posso afirmar se teria tanto público para ele na década de 80. Mas meus amigos gostavam muito quando a liam emprestada. Acho que hoje esse gênero está mais difundido, e talvez os leitores tenham mudado… Nos anos 80 recém a L&PM estava trazendo para o Brasil quadrinhos de uma linha mais sofisticada.

Página interna de Adormecida

Lady’s: Teve inspirações de algum(a) quadrinista ou artista para fazer a sua obra?

Paula: Pois é. Nas entrevistas iniciais eu dizia que minhas influencias maiores teriam sido Moebius ou Druillet. Mas agora, pensando melhor, acho que minha referência maior foi mesmo Gustave Doré, ilustrador do século XIX e os artistas simbolistas do final do séc XIX e início do Séc XX. Sou artista plástica por formação e é na arte que encontro minhas maiores fontes visuais, em primeiro lugar, assim como é na literatura que encontro minha smaiores fontes para produzir roteiros.

Lady’s: O que te fascina nos contos de fada? Qual foi a sua motivação para fazer a releitura da Bela Adormecida numa nova linguagem? Qual é a vantagem de ser em quadrinhos e não em texto escrito?

Paula: Bom, sempre gostei de contos de fada, e não perdi o interesse por eles nem mesmo durante a adolescência, porque sempre curti muito as sagas mitológicas, de onde esses contos derivam. Meu interesse por eles foi se aprofundando, na medida em que ia tendo contato com suas compilações escritas mais antigas e originais, como as de Giambatista Basile, de Charles Perrault e dos irmãos Grimm. Percebi que eles se interconectam à literatura fantástica e mesmo a de terror, dependendo do caso, além de, é claro, com a cultura popular. E eu tenho um gosto preferencial pela literatura e quadrinhos do gênero fantástico. Acho que essas narrativas sempre dão pano pra manga, porque estão ligados às raizes de todas as narrativas, que são os mitos. Mesmo na história mais prosaica, mais realista, a gente pode perceber um diálogo com a saga, com a fábula, com a lenda. Tratam-se de gêneros flexíveis e superprestativos como estrutura de base para outros roteiros. A vantagem de ser em quadrinhos é que vc pode explorar o imaginário gráfico-visual, a partir de uma iconografia que vem desde os gravadores mais antigos do século XIX, além da riqueza simbólica da narrativa.

Lady’s: Vejo que as histórias, não só nos contos de fadas, necessitam da materialização do bem e do mal. Porque estes dois lados devem sempre existir?

Paula: Isso não é bem verdade, pelo menos não nas narrativas mais fiéis às origens. Não há bem e mal nos Contos de fadas, o que há é uma relação de equilíbrio entre forças opostas da natureza humana: claro e escuro, luz e sombra, velhice e juventude, inveja e amor, vida e morte, homem e mulher. Na minha HQ, por exemplo, a feiticeira não é má, mas parte de um jogo erótico masculino x feminino, que quando em desequilíbrio causa uma desordem simbólica.

Lady’s: As ilustrações do seu quadrinho segue o padrão de filmes e livros de contos de fadas. Uma nova interpretação da história não caberia, também, uma releitura do modelo visual? Você acha possível?

Paula: Acho tudo possível e tudo isso enriquece o universo dos Contos de fadas. Eu mesma já recriei visualmente muitos contos, como por exemplo, em Cinderela – uma biografia autorizada (pela Artes&Ofícios) que se passaria na década de 60. Ou então Sapatos Vermelhos (no prelo, pela Artes e Ofícios), que eu situo num período atemporal, com toques dos anos 20. Mas essas duas obras não são HQs, são novelas ilustradas. No caso de Adormecida, lido com influencias da Disney (figurino de Malévola e cor verde para iluminar os momentos de feitiço) e com figurações de fadas em três variações: fada clássica ou romântica, fada duende e fada cristã (o anjo). Esses clichês foram escolhidos de propósito e tem a ver com uma influencia pos-moderna, tipo pastiche, típica do pensamento da época e já recorrente em outros trabalhos meus. Também o figurino do príncipe foi trabalhado em cima do clichê principesco tradicional. No caso dessa HQ, funciona, porque estou justamente discutindo a estrutura narrativa de um conto de fadas tradicional como metalinguagem, jogando-a num cenário que não se sabe real ou onírico.

Página interna de Adormecida

Lady’s: Você tem outras obras engavetadas?

Paula: E quem não tem?! No momento, estou trabalhando num projeto de HQ de 250 pgs!!! Não sei quando vou terminar, mas aqui está o link do blog para quem quiser acompanhar o processo: http://peterpanwendyprojeto.blogspot.com.br/ . Mas tenho outros projetos além desse, como artista plástica e como escritora. Tempo pra produzir é que é.

Lady’s: Quais são os últimos quadrinhos que você leu? Quais você recomenda?

Paula: Ultimamente meu negócio tem sido mangá. Adorei Basilisk, dos Yamada e Segawa, mas tá muito mal impressa no Brasil. Recuperei e reli O Incal, do Moebius, recém reeditada pela Devir. Comprei recentemente O beijo adolescente, do Rafael Coutinho, (arte bárbara!). Tá na minha cabeceira o Na prisão, de Kazuichi Hanawa. Tenho que dividir meu tempo com a literatura, que eu não abandono. Nesse momento, estou relendo Dracula, em inglês.

Lady’s: Quais materiais que você costuma usar nos seus desenhos?

Paula: No tempo de Adormecida não se usava computador ainda. Nela foi bico-de-pena e ecoline, mesmo. Hoje desenho sobre papel, quando quero passo o traço com caneta em papel (usando de tudo, hidrográficas, esferográficas, nanquim, etc), mas gosto de editar e de colorir no computador. Na Série Reversões, publicada pela Ed Rocco, minhas novelas gráficas (eu chamo assim, porque embora não sejam quadrinhos, ficam no limite) são trabalhadas com mixagem de fotografia, recortes variados, materiais diversos como pastel, acrílica, pincel ou caneta, lápis, etc… explorando o P&B ao máximo nas texturas, volumes, contrastes.

Lady’s: Como é acordar no mundo dos quadrinhos brasileiros hoje em dia?

Paula: Puxa, já estou bastante feliz por terem “me acordado”, rsrsrs.  Mas acho que o momento não poderia ser melhor. Não só porque o quadrinho brasileiro está bombando (para além do Maurício de Souza, claro), em especial as autoras de HQs, mas porque para a minha carreira profissional representa uma grande virada. Eu era uma artista plástica com um percurso solidificado quando me tornei escritora, e agora como escritora que já ganhou prêmios importantes, como o Troféu Jabuti, viro quadrinista! Não é o máximo?

Acompanhe Paula pelos links:

Site: www.mastroberti.art.br

Twitter:@pmastroberti

Projeto atual: http://peterpanwendyprojeto.blogspot.com.br/

3 comentários em “Entrevista: Paula Mastroberti

  1. Eii meninas. Visitar esse blog tem sido uma injeção de animo ,todas as vezes que me desanimo.Me encanta vir aqui ,porque sempre é um incentivo a mais.Um dia eu espero melhorar melhorar meus desenhos e conseguir conquistar meus objetivos e quem sabe ate ser uma lady dos desenhos?
    Gosto muito do trabalho de vocês.Parabéns!
    Abraços,

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