Entrevista – Pryscila Vieira

Mais uma curitibana para a lista das Lady’s Comics. Pryscila Vieira é inteligente e não dispensa piadas. No seu blog ela publica as tiras “Amely – uma mulher de Verdade”, textos seus e de Zdravokrástov – uma mistura de duende com ornitorrinco, que digita o que a Pryscila pensa. Ele é profundo conhecedor da língua portuguesa e formado em datilografia pela Universidade de Cambridge. Tem a temperatura basal constante por volta dos 12 graus Celsius e vive cerca de vinte e três anos.

Lady’s – Tenho que começar com a Amely, já que ela é a atração do blog! (não é a toa que é metida haha) De onde surgiu a ideia de contar a relação de um homem com uma boneca inflável?

Amely é uma boneca inflável que foi batizada sob esta graça por conta do samba de Mário Lago intitulado “Ai que saudades da Amélia”. A tal Amélia deixava saudades por ser uma mulher de verdade, ou seja, um exemplo de resignação feminina. Só que Amely destrói o mito de que a “mulher de verdade” deve se anular em prol do seu parceiro. Amely chega por encomenda à casa de seu comprador com dois grandes e irreversíveis “defeitos de fabricação” segundo o publico masculino: o primeiro é que ela pensa. O segundo defeito é que ela fala… e muito!  Isto a transpõe do patamar de “mulher inflável” para o de “mulher infalível”.  Amely torna-se “a mulher de verdade”. Adquire vontade, iniciativa e independência apesar de seus “proprietários” não esperarem nada dela além do que um objeto sexual proporciona. Os quadrinhos da Amely tratam dos sentimentos e pensamentos de alguém que não esperamos que os tenha, muito menos que os expresse tão veementemente. Infelizmente no mundo machista que vivemos, algumas mulheres ainda se deparam com situações semelhantes na sociedade e no mercado de trabalho. Além de Amely, ainda há outro personagem nas tirinhas, que interpreta o comprador da boneca. Ele resolve adquirir uma mulher inflável exatamente porque desistiu de tentar compreender as mulheres de verdade. O comprador tem a esperança de que Amely será uma mulher perfeita, visto que não tem vontade própria, logo não tentará julgá-lo. E tudo isso por um preço módico! Mas a solução perfeita para sua crise dura pouco. Para seu desespero, Amely recusa-se a ser um mero objeto sexual. Ela quer ser seduzida, quer preliminares, atenção, amor e carinho como toda mulher, afinal ela é uma mulher de verdade.

Lady’s – Você acha que existe mais mulheres infláveis do que infalíveis?

Toda mulher torna-se inflável exatamente pelo excesso de vontade de tornar-se infalível. Uma mulher “montada” de silicone, botox, horas diárias de academia, preocupada excessivamente em ser apenas bonita, sofre da síndrome da perfeição que o mundo de hoje exige: Solicitam bonecas perfeitas, plastificadas, como que retocadas por Photoshop durante 24 horas por dia. Além desse quase dever da beleza, temos que provar a cada minuto que somos profissionalmente capazes, sentimentalmente equilibradas (apesar do baile de hormônios mensal), boas donas de casa, excelentes mães… Ou seja: Temos que provar o tempo todo que somos infalíveis! Ah… Isso infla é o meu saco (Oops… Nem o tenho). Diante de tanta cobrança, não é a toa que as mulheres tenham sentimento de culpa exacerbado e que sejam as maiores consumidoras de antidepressivos do planeta, tudo por conta de não atingir as insalubres metas que lhes são cobradas. É um drama: Ser tão perfeita quanto as revistas ditam, só seria possível se vivêssemos num mundo habitado exatamente por insossas mulheres de plástico. Sejamos infalíveis na medida, para que não nos tornemos infláveis. Ainda é melhor ser uma mulher de verdade.

Lady’s – Atualmente você está só publicando no seu blog as tiras que você faz para o Jornal Folha de São Paulo. Por onde anda Zdravokrástov?

Meus pensamentos andam tão sórdidos que até Zdravokrástov sente vergonha de digitá-los. Zdravokrástov disse que a vida era bem mais agradável quando prestava assessoria para o Marquês de Sade. Em seguida catou seus pertences (uma escova de dente, um pote de ovos de codorna, meu York Shire) e bateu a porta dizendo que iria procurar outra mente para viver em paz. Mas, acho que depois do cio ele retorna.

Zdravokrástov

Lady’s – O chargista e cartunista encontram de vez em quando a barreira da censura. E você já falou disso no blog. Você já foi censurada alguma vez?

Já fui censurada com aquela tarja preta… Pelo psiquiatra.

Lady’s – No seu blog dá pra perceber que você adora pesquisas. Você costuma fazer pesquisas pra desenhar as tiras ou elas surgem de algo informal, como uma conversa de bar?

Surgem de todas as formas. Como tenho que fazer as tirinhas diariamente (o que é um tanto desesperador), acabo me aproveitando de diálogos que ouço por aí, de depoimentos de amigos e até da minha própria experiência (o que já me rendeu entreveros com namoradinhos). Também adoooooro as pesquisas sobre comportamento, ciência, política, genética, etc. Gosto de dados super úteis, como por exemplo: Quantos orgasmos de uma lesma albina são necessários para gerar energia elétrica suficiente para ligar todas as enceradeiras de Piracicaba?! De tantas fontes surgem as tirinhas…

Lady’s – Qual o material que usa pra desenhar?

Atualmente uso apenas uma tablet da Wacom (MA-RA!), o Photoshop e as vezes o Painter. Tornei-me escrava da tecnologia. Não vivo mais sem o Ctrl+Z. Uma pena que não tem Ctrl+Z para aplicar nos meus relacionamentos.

Lady’s – Além das tiras está fazendo mais algum trabalho atualmente?

Vida de cartunista não é fácil. Só é possível viver de tirinhas a partir do momento em que se consegue publicá-las em vários jornais, coisa que eu ainda estou batalhando. Quem sabe um dia a Amely será tão publicada quanto é o Garfield… Aí então, poderei viver comendo morangos orgânicos e degustando espumantes na beira de uma piscina de bolinhas. Por ora, tenho uma empresa de ilustrações que presta serviços para agências de publicidade, assessorias de imprensa, jornais e clientes diretos. Acessando o obrapryma.blogspot.com você ficará impressionada com a variedade de traços que sou capaz de fazer para colocar brioches na minha mesinha de centro. Se for preciso, pinto até moranguinho em pano de prato.

Lady’s – Poucas mulheres produzem tiras humoristas como a sua. O que você acha que falta para mulheres entrarem no mundo do cartum e da tira cômica? Você acha que as mulheres precisam rir mais delas mesmas?

Problema é que o humor sempre foi feito por homens e para homens. Por conta disso sempre foi muito machista. Vide Pasquins, livros de piadas de poucos anos atrás como o Status Humor, etc. Repare que nestes veículos que representaram o humor gráfico por tanto tempo, a mulher sempre é objeto, representada por um estereótipo sem voz, é a gostosa, ou a burra, ou a bonitinha que está sendo enganada para ir para a cama com um homem. Então, condicionadas a pensar que todo humor gráfico segue este padrão machista, as mulheres acabam por sequer procurar por este tipo de arte. Sentem-se agredidas, caçoadas e jamais gastariam seu dinheiro para comprar um livro em que são reduzidas a mero objeto de piada.

É a hora de desenhar nossa feminilidade engajada e de caçoar das infinitas possibilidades de piadas que o universo masculino nos proporciona. Só que onde estão estas desbravadoras?! Temos algumas no país, mas ainda vejo uma lacuna da voz feminina no humor, tal como é Amely. Ela representa a mulher de verdade, que pensa, fala e é independente, mas que apesar de tantas qualidades intelectuais e de caráter, ainda é vista como um mero objeto sexual. Ainda vivemos isso, muito menos no humor que na sociedade, infelizmente.

Onde nasceu/onde vive atualmente e quantos anos tem?

Nasci em Curitiba e por aqui permaneço. A idade… Ai… Uma Lady nunca revela, principalmente se ela tem mais de 30… Rsrsrs!!!

twitter: @prycartunista
Orkut e Facebook: Pryscila Vieira
Portifólio tem no pryscila.com.br e no obrapryma.blogspot.com

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8 comentários em “Entrevista – Pryscila Vieira

  1. Muito boa a entrevista, já pedi uma ilustração para a pryscila que para uma revista e ficou muito boa. ela manda muito bem mesmo.

    Parabéns pelo blog.

    Beijos

  2. Pingback: 33 HQs para o dia da Mulher | Lady's Comics

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