Entrevista – Raquel Vitorelo

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Uma garota das artes e com trabalhos que nos propõe a sair da nossa zona de conforto. Uma garota multifacetada e que tem muito a acrescentar ao campo das artes. Vai longe. Raquel Vitorelo tem 20 anos, é de São Paulo e está fazendo seu último ano de Comunicação e Multimeios na PUC-SP. Ela movimentou as redes com sua série de ilustrações “Coisa de Mulher” e o documentário “Mulheres Desenhadas”. Além desses conhecidos trabalhos ela tem uma pesquisa chamada “Valente: a desconstrução dos estereótipos de gênero em uma princesa Disney” que vale ser lida e outros pequenos quadrinhos que devem ser apreciados. Na semana do Dia da Mulher, ela traz a webcomic “Judite” que surgiu após ver o quadro Judite decapitando Holofernes da pintora do barroco italiano Artemisia Gentileschi. Neste quadro, a artista fez seu autorretrato como Judite, e no lugar de Holofernes pintou o homem que a abusou e saiu impune. Mas essa não é uma simples adaptação: a ideia é brincar com a relação palavra-imagem a partir de recortes originais do texto bíblico (literalmente recortados). Assim, Judite vira uma narrativa gráfica, bíblica e intergalática. Conheça esse e outros trabalhos da Raquel!

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Mariamma- Pelo visto você é uma garota que gosta de comunicar. Além de quadrinhos, você trabalha como design, faz ilustrações, animações, pesquisa e já fez um documentário. O que mais te encanta nesse mundo?

Pois é, sempre gostei de experimentar com expressões diferentes, tanto que fui parar em Multimeios na PUC rs. Acho que o que me encanta mesmo é essa possibilidade de contar histórias, não necessariamente de ficção. Foi assim que acabei aprendendo a desenhar, editar vídeo… Sempre gostei muito de ler e escrever também, tenho muito carinho pela Clarice Lispector. Ah, e apesar de não ser uma gamer muito dedicada, curto bastante jogar de vez em quando. Mas pensando bem, até os jogos eu escolho pela narrativa, então acho que é isso aí haha.

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Mariamma – Quando foi que percebeu que era necessário associar o desenho a um propósito? Assim como fez na série “Coisa de Mulher” (série de ilustrações que busca mostrar as mulheres da história).

Engraçado que eu estava pensando nisso esses dias: eu sempre desenhei, mas o que me incentivou mesmo a treinar foi a vontade de fazer histórias. Com o tempo acho que me perdi um pouco dessa motivação, até que uns anos atrás voltei a fazer coisas mais direcionadas. Acho que não faz sentido dominar uma técnica se você não faz nada com ela. É mais interessante quando você não faz só pra você, mas pra outras pessoas.

Mesmo o “Coisa de Mulher”, é uma série que eu fiz com muito prazer, mas que foi feita pensando nas meninas que se sentem desencorajadas a fazer o que gostam. Quero que elas saibam que não são exceção e não estão sozinhas.

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Mariamma – E como surgiu a ideia do documentário “Mulheres Desenhadas”? Como foi o retorno das pessoas sobre ele?

Eu fiz o “Mulheres Desenhadas” para a aula de Documentário Performático que eu tive na faculdade. A proposta era que se fizesse um documentário mais autoral, a partir de alguma experiência do diretor. Foi natural escolher o tema do desenho, até tentei fugir dele na verdade rs, mas é fato que eu desenhei minha vida toda, sempre fui incentivada pelos meus pais, que são arquitetos.

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Como você falou, acho que existe uma necessidade de associar o desenho a um propósito, e eu mesma não tinha tanta certeza de qual abordagem seguir no minidoc; então abrir uma chamada de autorretratos foi um jeito até meio simbólico de lidar com isso. Muitas artistas deram depoimentos que me fizeram pensar de um jeito mais amplo nessa questão toda.

O documentário teve uma recepção muito boa pra minha surpresa, e fiquei extremamente feliz com as reações delas, as mulheres, é claro: mulheres de todas as idades fizeram questão de me contar que ficaram emocionadas, que se identificaram, e isso é tudo o que eu poderia querer com esse trabalho. Teve até um professor de um colégio estadual de Sergipe que veio me contar que passou o documentário para os alunos dele! Não teria recompensa maior. Fico pensando em dar continuidade ao projeto de alguma forma, no futuro.

Mariamma – O seu mais recente trabalho traz uma webcomic sobre a história do Livro de Judite (um dos livros do antigo testamento). Mais uma vez você quer trazer um caso de opressão aos quadrinhos. Você acredita que os quadrinhos tem um potencial transformador?

Acredito que tudo o que a gente escolhe ver e ler pode ser transformador! O problema às vezes é convencer o leitor rs. O que eu gosto muito nos quadrinhos é que é uma linguagem bastante acessível, porque todo mundo já leu um gibi alguma vez na vida. Por mais que você não seja fã de literatura ou de cinema, quando se bate o olho num quadrinho o impulso é ler, porque a primeira vista o quadrinho parece ser mais descompromissado (mas nem por isso menos sério). A internet também facilita bastante.

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Mariamma – Quais são suas referências e quais quadrinhos recomenda?

 Gosto bastante dos trabalhos da Jillian Tamaki, Philippa Rice, Aaron Diaz, Bryan Lee O’Malley, Noelle Stevenson, Alisson Bechdel… Então vou recomendar o trabalho deles mesmo:

 Da Jillian Tamaki recomendo o “SuperMutant Magic Academy“, que é engraçado, inteligente e GRÁTIS: e também recomendo comprar o livro dela e da Mariko Tamaki, “This One Summer”, é lindo e acho que muitas mulheres vão se identificar.

Da Philippa Rice eu recomendo o “My Cardboard Life“, que é simplesmente genial.

Do Aaron Diaz recomendo a webcomic “Dresden Codak“, que tem uma protagonista que é quase uma versão feminina do Edward Elric de FullMetal Alchemist, mangá da Hiromu Arakawa pelo qual eu sou apaixonada!

Noelle Stevenson e sua webcomic despretenciosa Nimona.

Bryan Lee O’Malley e Alisson Bechdel já são famosos demais para recomendar rs Mas fica a menção: respectivamente “Seconds” e “Você É Minha Mãe?”. Também gosto muito do trabalho das brasileiras Bianca Pinheiro e Lovelove6.

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​Conheça mais do trabalho da Raquel acessando:

Portfólio  / Facebook / Judite

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