Entrevista – Rebeca Prado

No dia 10 de fevereiro, conversei com Rebeca Prado sobre sua produção, vida acadêmica, crianças que curam timidez e sobre o Navio Dragão, que está no Catarse. Como foram 2 horas de conversa via Facebook, vou colocar só algumas coisas aqui (a entrevista parece enorme, mas é só impressão por conta da barra de rolagem xD).

Conheça a Rebeca:

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Samanta Coan: Bem, queria primeiro que me falasse como e quando começou a ler quadrinhos?

Rebeca Prado: Nossa, vou te falar uma coisa terrível e que talvez eu até devesse mentir, mas eu leio poucos quadrinhos! Sou uma viciada em livros de literatura desde sempre, mas só comecei a ler quadrinhos de forma mais empenhada depois de mais velha! Sempre gostei de Turma da Mônica, e li muitos mangás na adolescência, além de algumas publicações em tiras tipo Peanuts e Calvin e Haroldo. Mas ainda leio menos quadrinhos do que eu deveria!

Sam: Que tipos de livros tu lias/lê?

Rebeca: Ahh, eu sou fissurada em suspense e policial. Adoro essas coisas, sempre foi um gênero que me prendeu muito. Acho que já li quase tudo da Agatha Christie, Stephen King…adoro o Stieg Larsson, Spencer Quinn. Mas leio outras coisas também! Harry Potter marcou minha infância e adolescência, Tolkien…nossa, muita coisa!

Nos quadrinhos eu estou cada vez mais fã dos nacionais, tipo o Valente, Ryotiras, adoro os trabalhos do Gustavo Duarte, do Beyruth, da queridíssima Bianca Pinheiro, Fefê Torquato, Fernanda Nia…enfim, tenho acompanhado todos, praticamente!

Sam: Faz pouco tempo que começasse a fazer quadrinhos? A primeira vez que ti vi foi numa feira de design que teve ali na praça da Liberdade com o Baleia #1.

Rebeca: Ah, falo pouco tempo mas não é tãão pouco UHEAUHEAUH

Tem uns 5, 6 anos. Acho que desde que eu comecei a estudar na Casa do Quadrinhos uns 7 anos… é!

Quadrinho da série Baleia.

Quadrinho da série Baleia. Existem dois volumes impressos e as tiras também são postadas na página do Facebook – Inc.

Sam: É, faz bastante tempo. haha

Vi numa entrevista, no Bossa e Brisa, que fosse desestimulada a desenhar por conta do teu estilo e decidiu trabalhar com educação por um tempo. Isso aconteceu quando?

Só pra entender como foi isso, porque tu tens um traço muito bonito. Como diria a Lu Cafaggi, queria tuas mãos. hahaha o.o Soa meio canibal, mas enfim…

Rebeca: Ow, eu entrei na faculdade querendo trabalhar com quadrinhos, né? Eu já estudava lá na Casa dos Quadrinhos, e era isso o que eu queria fazer. Entrei na faculdade em 2009, e lá pra 2010 parecia que nada que eu fazia era bom lá dentro

UHEAUHEAUHAU é um canibalismo saudável!

Mas na faculdade tudo o que eu fazia eles achavam ruim, e culpavam a influencia dos quadrinhos que eu tinha, como se fosse uma coisa ruim, sabe?

Falavam que eu desenhava certinho demais, que meu trabalho era muito infantil ainda, que eu deveria investir na arte conceitual. Essas coisas… Aí eu passei a fazer só o que eles me pediam e engavetava o resto. Até pro meu TCC, que foi sobre criação de personagens, foi super difícil encontrar alguem que quisesse me orientar.

Uai, pra você ter noção, teve professor meu que virou pra mim, no oitavo período e falou que não tinha espaço pra mim numa escola de arte! E foi horrível, porque se seu professor não acredita em você, é difícil você mesmo acreditar, né?Acho que decepcionar com professor é uma das piores coisas pra gente. Porque professor é uma entidade, uma referência, que muitas vezes o aluno não acha em nenhum outro lugar.

Espero nunca decepcionar meus alunos assim.

Sam: Isso é, nem opinião de família consegue cortar o que um professor fala. XD

Rebeca: Né? E olha que minha mãe foi minha professora no colégio! Eu tive os dois lados da moeda AO MESMO TEMPO. UHAUHEUEAH

Quadrinho da série Sutil ao Contrário.

Quadrinho da série Sutil ao Contrário.

Sam: E quando veio a libertação disso tudo? De acordar e perceber que existia um novo mundo…

Rebeca: Acho que eu cheguei num ponto em que liguei o “me processa”.

Eu tive depressão e síndrome do pânico. E vi que o mundo continuou funcionando enquanto eu estava mal, então se eu quisesse fazer algo por mim, teria que ser por minha conta. Aí eu trabalhava numa escola da prefeitura, e pedi demissão. Fui correr atrás de coisas na minha área mesmo. Tentei trabalhar assiduamente com publicidade, mas acho que não é pra mim. De vez em quando é legal, mas direto eu não me adaptei e eu sempre acabava indo pros quadrinhos em algum momento. Aí achei que não custava dar uma chance, já que eu ainda posso errar muito nessa vida!

Sam: E como foi o início disso? Tu já tavas formada?

Rebeca: Tava! Tinha uns 5 meses que eu tinha formado e tava trabalhando, tinha meu dinheiro, mas tava sem perspectiva. Acho que isso é cada vez mais normal pra gente da nossa idade, né?

Aí pensei que se eu não fizesse algo com muito amor, provavelmente não teria outra chance na vida, porque depois as responsabilidades aumentam e tal.

Sam: E tavas publicando como os quadrinhos?

Rebeca: Ó, eu custei a tomar coragem pra publicar, viu?

Demorou uns 3 meses. Eu já tinha a página Inc. onde eu publicava uns desenhos as vezes. Aí eu aproveitei a página. Porque assim, no meio da faculdade, meu namorado e eu fazíamos umas tirinhas, tínhamos um site chamado R2P2, a Samara até conhece!

Só que a faculdade começou a apertar e sem estimulo nenhum, a gente parou de fazer, mas tínhamos um retorno muito legal! Acho que o site nem existe mais, perdemos o domínio e tudo.

Sam: E as tiras?

Rebeca: Eu ainda tenho algumas em algum lugar do meu PC! Mas acho que não tem muito a ver com o que eu faço hoje. Aí deixo guardadinhas. hehehehehe

Tira do

Tira do R2P2

Sam: Não tem a ver por conta do estilo/roteiro?

Rebeca: É mais pelo estilo mesmo!

Sam: Acho legal esse passado que as pessoas não tenham mais tão a vista.

Rebeca: Nossa, eu tenho muita coisa antiga assim. Participei de uma publicação antiga pela Casa dos Quadrinhos, chamada Talismã. Outro dia vi vendendo na Leitura (livraria de BH) eu desenhava muito mal, gente. AUHEUHEAUH

Até no R2P2 meu traço era beeem diferente.

Sam: Autocrítica é sempre bom, só não pode ser pessimista demais.

Rebeca: Eu tenho uma técnica super secreta pra saber se meu desenho tá legal.

Sam: Qual?

Rebeca: Eu mostro pros meus alunos. Que tem uma média de 9 anos, então eles são extremamente sinceros e eles falam mesmo!

“Professora, eu te amo muito, mas não sei se gostei desse desenho”.

Aí eu sei que tá na hora de repensar. UHAUHEUHAEUAEHEUAHEUH

Sam: O traço atual eles curtiram?

Rebeca: A Lif mesmo eu mostrei pra eles e não contei que era minha. Eles piraram, queriam o site e queriam saber se tinha na biblioteca. Demorei umas duas semanas pra contar.

Eles fizeram fanart e pediram pra eu dar pro autor (porque eu falei que conhecia).

Lif e Carne. Personagem do Navião Dragão.

Lif e Carne. Personagens do Navião Dragão.

Sam: E como foi a reação depois?

Rebeca: Eles não acreditaram que era meu! Até que eu tirei as tirinhas originais da bolsa e mostrei.

Eu achei bonitinho porque eles vieram super elogiando “uau professora, quer dizer então que você não é famosa só com a gente?” HAHAHAHAHAHAHA

Criança é mais exigente que adulto, claro que eu teria que provar, eles não iam engolir assim. Eles não acreditaram no dia em que eu apresentei o Vitor (Cafaggi) pra eles também. Ele teve que desenhar um Valente pra provar que era ele que fazia.

Sam: Ensinar crianças já era um objetivo de trabalho ou surgiu do nada?

Rebeca: Eu sou fascinada com criança e com bicho. Sou voluntária numa ONG perto da minha casa também, e dou aula para crianças. Então acho que é um tipo de missão, na verdade.

Sam: A Lif é criança ou adolescente? (Eu tava me perguntando se a Lif veio do contato com as crianças enquanto conversava com a Rebeca.)

Rebeca: HAHAHA todo mundo pergunta!

A Lif tem mais um menos entre 6 e 9 anos! Ela é uma criança. Mas muita gente visualiza como adolescente. Eu não acho que cabe a mim dar a idade dela, então. Já que o foco não é bem esse, na verdade.

Pra galeria, teve gente que desenhou ela adulta, nem criança, nem adolescente, então acho que é interessante eu não interferir nessa percepção mesmo.

Até porque eu mesma as vezes a vejo mais adolescente mesmo

Sam: Eu tenho essa impressão que às vezes ela é jovem e, outras, é criança por conta da história… Ela foi criada como?

Rebeca: Então, a Lif é baseada em mim!

Sam: Até a personalidade?

Rebeca: Só que todo mundo fala ‘geeente, mas não parece com você, porque você não é grosseira igual a ela”. Mas é que eu peguei alguns aspectos da minha personalidade que sempre me causaram muito problema e dei pra ela de presente. auheauaheeau

Aí eu dei uma exagerada, é claro. Mas por exemplo, eu sou muito sincera, mas é uma sinceridade meio sem noção, que eu estou tentando melhorar. Enquanto ela já não tem problemas com isso. hehehehe

E eu sou bem reclusa, sempre fui.

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Sam: Reclusa de opção?

Rebeca: E isso sempre me atrapalhou muito, porque eu só consigo criar laços com pessoas muito parecidas comigo, e com as outras eu fico parecendo meio avulsa. Também, eu sou muito impaciente com pessoas.

É, e não é por opção. Hoje em dia é um pouco. Antes não.

Sam: Ahhhh sim… Eu percebi que tu és bem tímida, até o vídeo do Catarse denuncia isso. Não sei se seria tímida… me corrija. xD

Rebeca: UHEAUHAEUHEAEUH

Ó, eu não gosto de ficar muito em evidência, não. Mas eu não sou muito tímida também não. Acho que dar aulas para crianças ajudou muito nesse sentido, porque eu não posso ser tímida com eles, senão eles não vão se apegar.

Então eu vou pra aula fantasiada no dia das bruxas, canto com eles, danço as musicas que eu dançava quando era adolescente e eles acham super engraçado

Sam: É, de fato as crianças ajudam.

Rebeca: Pois é! Isso acaba com a timidez.

Sam: Isso ti ajudou a publicar no Inc.? Ou foi antes das aulas com as crianças?

Rebeca: Ajudou, claro! Eu fui percebendo que eu não precisava ficar com vergonha de tudo, afinal. Que o mundo não ia ter só gente que ia me julgar negativamente, como eu tava acostumada. Quando eu comecei a publicar, eu já dava aulas na prefeitura fazia muito tempo, uns 3 anos, quase, pouco depois disso, eu saí pra me dedicar.

Sam: Nesse meio tempo, quando surgiu a Lif?

Rebeca: Ó, foi uns dois meses antes de eu sair (do antigo trabalho). Ela tava rondando meu sketchbook já fazia uns 4 meses, ai eu fiz uma tirinha dela em nanquim. A primeira de todas. Mas não curti o resultado e parti pra aquarela, que é minha técnica favorita.

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Lif em naquim.

Sam: Ela deve ter um processo bem mais longo de fazer cada tira, não?

Rebeca: Nú, cê não imagina o tanto que demora. Leva umas duas horas contando o tempo pra secar.

Sam: E como foi a ideia do Catarse?

Rebeca: Ó, então, o Catarse foi uma novela. Eu percebi que as tirinhas que não eram da Lif tinham mais compartilhamentos e tal. Mas que a Lif tinha fãs!

Aí comecei a colocar as tirinhas dela com mais frequência, uma vez por semana. Antes era muuuito de vez em quando, porque dava muito trabalho. As pessoas começaram a me perguntar quando teria um livro com as tiras da Lif. E poxa, eu não tenho dinheiro pra fazer… juntei todas as minhas economias pra fazer o Baleia #2 e ele era bem menor.

Aí pensei no Catarse, mas dei pra trás várias vezes pensando que não ia rolar. Desde o final do ano passado comecei a trabalhar com afinco pra fazer o projeto. O livro tá praticamente pronto, falta só organizar o material extra e diagramar.

Tô fazendo tirinha da Lif igual a uma impressora UHEAAHEEUH

Uma das recompensas do Catarse é o desenho original  (jabá!)

Uma das recompensas do Catarse é desenho original (jabá!)

Sam: E como tá a repercussão?

Rebeca: Olha, eu literalmente chorei de emoção esses dias. Eu compartilhei o projeto e em umas 3 horas, já tinha tanta gente compartilhando. Gente muito foda e [gente] que eu nem conhecia, elogiando e tal, entrando em contato comigo. Já tem 1/3 financiado [no dia da entrevista]. Não pensei MESMO que ia ser assim.

Sam: Eu acho que vais conseguir pelo tanto que arrecadou de início, viu… e é muito puxado… o Catarse, às vezes, é cruel também.

Rebeca: Sim! Muito! Eu fico sempre ansiosa, fora que as pessoas são sempre muito cruéis também.

Sam: Porque?

Rebeca: Ah, sempre tem um Hater, né?

Como eu ainda não tenho lá essa segurança toda, as vezes rolam uns comentários que me deixam insegura, mas tô tentando lidar com isso da melhor forma. Eu tô tentando ser bem positiva com o projeto! Até porque veio mais retorno positivo do que eu pensei!

Até a galera do Omelete apoiou! =O

Sam: Oh! hahahaha Viu? Haters não passarão.

Rebeca Prado: É o que eu espero!!! Mas tô bem animada mesmo! Até pela experiência. Nunca tinha lidado com publico assim, de dar a cara pra bater. Eu vendia minhas coisas, mas tipo lá na feira, mais na mocada mesmo.

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Sam: Tens dúvida do teu estilo de quadrinho? Falasse numa entrevista que está no caminho pra um, mas parece que não é o que queres.

Rebeca: Sobre o estilo, eu tento ser flexível, acho que nada nessa vida pode ser permanente, sabe? Falar que é esse o meu estilo e fim, não acho que a gente precise levar as coisas dessa forma. Tô feliz agora, mas não quero me conformar nunca! Quero estudar e evoluir mais. E se evoluir pra algo muito diferente, mas melhor, vou ficar muito feliz do mesmo jeito!

(vide as tirinhas do R2P2, que eram o melhor que eu podia na época)

Mas a Lif todo mundo sabe quem é em qualquer estilo. HAHAHAHAHAHA

Sam: Ah, não tem a menor dúvida. A roupa, o cabelo ruivo ajuda e o comportamento dela também.

Rebeca: Pois é! Mas sabe o que as pessoas mais acham marcante na Lif? Pelo menos todas as que eu pergunto.

É o dente quebrado! Mas é porque eu tenho o dente quebrado na frente, mas é bem pequenininho. Quase não dá pra ver

Sam: E o cenário veio como no meio disso?

Rebeca: Então, eu precisava de uma desculpa pra fazer ela meio bruta, né?

Fazer ela uma princesa, ou uma menina normal seria meio sacado. Então eu pensei “poxa, se ela for viking, ninguém vai achar ruim de ela colecionar escalpos”, de ser ruivo e meio grossa, assim. Fica uma coisa meio dentro do contexto e funciona bem porque, mesmo sendo viking, ela consegue surpreender as pessoas com o tanto que ela é estúpida às vezes. Agora, imagina ela numa sociedade normal? Ela seria um monstro!

Sam: É, seria. xD

Rebeca: Tanto que ela tem até uns “amiguinhos”, assim, que meio que ligam o foda-se pra ela e conversam do mesmo jeito. Se ela não fosse viking, isso jamais faria sentido, ninguém ia querer conversar com ela.

Sam: Ela parece popular na vila e tem autoridade. Não que ser autoridade seja querida pelas pessoas.

Rebeca Prado: HAHAHAH né?

Mas o jeito dela, no contexto dela, não é algo totalmente ruim. Uma pessoa durona protege a vila, então a vila respeita ou é obrigada a respeitar, né. UHEAUAEHUEAH

Então eu escolhi o contexto mais para sustentar esse lado. Senão ela seria apenas uma menina pé no saco.

Sam: Os outros personagens são baseados em outras pessoas reais?

Rebeca: Não! Só uma!

Sam: O Carne existe? Qual?

Rebeca: A única Viking de cabelo preto. É minha melhor amiga (Luiza Rozza), na vida real. Os outros todos são loiros, como Vikings de fato só ela tem cabelo preto e a Lif, que é ruiva. E ela é a única que chega pra conversar mesmo com a Lif, os outros geralmente aparecem cobrando algo, um numa situação mais impessoal. Mas agora ela tá ruiva também! Então não dá pra identificar claramente mais.

Ela na época tava com o cabelo pretinho e curto, igual ao da personagem mesmo. Agora tá ruivo e comprido, mas ela não quer que mude na tirinha.

E o Carne é baseado na cachorrinha do meu pai! A Bolinha! Que é boba alegre que nem ele.

Eu tenho um coelho, em vez de um cachorro que é bobo alegre também, mas não é o Carne.

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Essa é a Bolinha

Onde encontrar quadrinhos da Rebeca Prado? Facebook | Navio Dragão

Como apoiar Navio Dragão? Acesse: catarse.me/naviodragao

Imagens retiradas da página do Facebook Inc.

Um comentário em “Entrevista – Rebeca Prado

  1. Apoiei no Catarse e tô torcendo pra caramba pra dar certo. Quero muito uma Lif pra chamar de minha e tocar, e ler toda hora na cama e mi mi mi mi <3.
    A entrevista tá ótima, falou de tudo.
    Nice! :D

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