Entrevista – Renta Nolasco

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A quadrinista com quem conversamos hoje veio de Mossoró – RN, está concluindo sua graduação em jornalismo e publica semanalmente, na internet. Renata Nolasco assina a página Atóxico e tem feito, além das tiras, quadrinhos longos (e muito foda!) que podem ser lidos no Medium. Com um traço característico e cores vibrantes, a artista tem apresentado em seus quadrinhos temas relevantes como representação feminina, identidade de gênero e feminismo. Com um grande potencial, percebemos a evolução do seu trabalho e notamos como os desenhos têm ficado cada dia com mais detalhes de textura e cores. Podemos ver o trabalho da Renata também como jornalista, já que tem colaborado com alguns textos em site como o Cafeinazine e Delirium Nerd. Além disso, faz parte da Revista Farpa, do projeto Eu Vejo Flores em Você e do Coletivo Dei-Chá.  Leia a seguir uma pequena entrevista que fizemos com a autora ;)

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Lady’s  – A gente percebe que seus quadrinhos possuem um tom político e crítico muitas vezes. Você começou a produzir com essa pretensão?

R: É difícil dizer exatamente porque eu comecei a produzir, mas definitivamente falar sobre temas políticos não estava nos meus planos. Até hoje acho muito estranho quando alguém apresenta o meu trabalho como “quadrinhos de cunho político”. Eu não me sinto confortável com essa denominação porque nunca foi o meu objetivo que fossem… Mas talvez sejam. Desenho quando não consigo expressar em palavras tudo o que estou sentindo, e em uma sociedade em que os sentimentos da mulher são invisíveis o que é pessoal é também político. Talvez o meu material seja muito político porque isso é intrínseco à minha vivência na militância e todos os meus quadrinhos são sobre o que eu sinto. As pessoas estão o tempo todo falando sobre os sentimentos das mulheres, mas nunca falam sobre o que as mulheres sentem de verdade.

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Lady’s  – Você acredita no poder de um quadrinho em criar uma reflexão sobre esses assuntos?

R: Claro. Acredito muito no potencial transformador de manifestações artísticas. Às vezes tenho a gratificação de experimentar de pertinho isso acontecendo, quando alguém chega pra mim e diz “ei, aquele seu quadrinho lá, eu nunca tinha pensado sobre isso”, ou “eu não acho que aquilo que você desenhou é bem assim porque…”. E então podemos ter longas conversas sobre representatividade, ou sobre ações do cotidiano, a importância de auto-gestão, etc. que se não fosse por aquele desenho inicial nunca teria acontecido. E isso acontece todos os dias entre milhares de pessoas sobre outros milhares de quadrinhos diferentes. O poder da arte e consequentemente dos quadrinhos para produzir reflexão e transformações sociais é infinito, é só querer e saber usar.

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Lady’s – Como as pessoas recebem seu trabalho?

Isso varia bastante com o tempo e com o conteúdo. Costumava ser bem mais tranquilo do que hoje, na verdade. Não sei se isso se dá porque hoje meu alcance é maior do que no começo, ou porque vemos um avanço muito grande e assustador dos conservadores direitistas, ao passo em que os movimentos de esquerda e em prol da mulher estão se desestabilizando e as discussões internas assumiram uma importância maior do que o debate geral. Muitas meninas me mandavam mensagens dizendo que se sentiam representadas pelo que eu fazia e gostavam muito do meu trabalho, raramente aparecia alguém procurando treta. Hoje, não tem um quadrinho que eu faça que não tenha que moderar comentários ofensivos. Por um lado, eu gosto das discussões porque afinal faço os quadrinhos para gerarem debate e tenho horror a possibilidade de estar produzindo sempre para as mesmas pessoas que pensam exatamente como eu, sabe? Chovendo no molhado… Mas por outro fico assustada com tanto ódio.

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Lady’s – Como ingressou nos quadrinhos?

Eu sempre li quadrinhos. Desde pequena o meu pai me levava para a banca de jornais e me deixava escolher cinco quadrinhos a cada duas semanas. Eu sentia uma certa identificação com a melancolia e solidão do Bruce Wayne nos quadrinhos mais antigos, então lia muito Batman e também X-Men. Mas na verdade eu comecei a desenhar por causa dos animes e mangás, e basicamente só desenhava os personagens de minhas histórias por diversão. Fazer quadrinhos sempre soou algo muito distante da realidade para mim, uma vez que estive acostumada a ler material feito por equipes grandes em que um faz o esboço, outro faz a finalização com nankim, mais um faz a coloração, aí vem outro pra fazer as letras… Pff, é claro que eu nunca conseguiria fazer um quadrinho. A coisa deu uma guinada em 360º na minha perspectiva de ver as coisas quando conheci o universo de produção independente que fica escondida sob o mainstream. Estava passando por um ano particularmente muito difícil, foi o mais fundo que cheguei na minha depressão, adoeci, e usei esse tempo em que fiquei de cama para criar a página no facebook, Atóxico, e colocar no mundo o meu pessoal político. Mas eu ainda não achava que podia fazer quadrinhos, não quadrinhos “de verdade”, não “como os caras fazem”. Então eu fiz um trabalho na faculdade sobre representatividade feminina nas HQs norte-americanas e conheci iniciativas como o Lady’s, Mulheres nos Quadrinhos e Zine XXX. Foi a segunda vez que meu mundo deu um giro completo. Foi tipo: “pera lá! Eu também posso fazer quadrinhos??”

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Lady’s  – Pra você o que significar fazer quadrinhos?

Eu poderia escrever páginas e páginas sobre isso e ainda não sei se acharia a resposta haha Posso dizer que é um misto de sentimentos que está em constante mudança. Às vezes é gratificante, outras vezes é massacrante, mas eu não poderia deixar de fazer se quisesse. É algo que faz parte de mim, e tem feito há muito tempo. É uma realização tremenda participar de algo que por muito tempo você apenas consumiu por trás de uma barreira, e encaro também como a oportunidade de corrigir muitas coisas que queria que a jovem eu não tivesse lido, ou que tivesse lido de uma forma diferente. Há muita coisa tóxica na indústria de entretenimento no que diz respeito a representação feminina e penso que essa nova geração de produtoras de conteúdo vem com a cabeça mais no lugar em relação a mensagem que querem passar. No final, é sobre como você enxerga a realidade e como queria que ela fosse.

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Lady’s – Como funciona seu processo criativo?

Tento não ficar muito tempo sem desenhar senão a gente esfria. Hoje, estipulei uma tira semanal para a página no facebook como forma de me obrigar a exercitar o traço. No caso da tira, a inspiração vem muito do cotidiano. Um trecho de conversa, uma notícia, algo que vi na rua… Normalmente é sobre alguma noção equivocada e eu faço o desenho com a intenção de ser didática para com aquele conteúdo. Sempre anoto esses lapsos de inspiração que vem em um caderninho para amadurecer a ideia com a cabeça fria mais tarde, porque é sempre bom ter opções, e depois de consultar fontes sobre o tema eu faço a tira. Já quando estou fazendo quadrinhos longos, primeiro escrevo o esboço do roteiro com os diálogos principais, sem me preocupar em ser muito detalhista, e depois passo tudo para o roteiro final. No roteiro final faço o detalhamento das páginas, até o formato e tamanho dos quadros, cenário, expressão dos personagens e balões. Quando finalizo essa etapa esboço todas as páginas pra ver como vai ficar pronto e só depois faço a arte-final. As letras vem por último. É onde eu tenho mais dificuldade porque minha caligrafia é horrível. Gosto de fazer as tiras porque como demoro muito no roteiro, se fosse fazer apenas quadrinhos longos ia ficar muito tempo sem desenhar nada e isso é péssimo.

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Lady’s  – Nos fale de suas referências e materiais que usa.

Minha maior referência é sem dúvidas (e obviamente) o Bryan Lee O’Malley. Acho que os quadrinhos dele foram meu primeiro contato com traço estilizado e mais cartoonesco em quadrinhos não necessariamente infantis e gosto da estética preto e branco. Mas meu amorzinho de verdade verdadeira é a Gemma Flack, sou apaixonada por tudo o que ela faz e me inspiro bastante na limpeza do traço. Também estou consultando sempre o trampo da Babs Tarr e do Craig Thompson, esse último principalmente em questão de roteiro e composição, gosto do uso dos silêncios dele. Nacionalmente vou admitir que estou completamente apaixonada pelos quadrinhos do Fred Cassar e queria ser!! hahaha Inclusive isso já vem de um bloqueio grande com meu trampo que tive que quebrar. Por muito tempo me obriguei a ser uma artista tradicional, comprei nankim, pincei, pintei muito minha cara e me frustrei, negando que eu na verdade sou uma artista digital. Eu desenho com tablet mesmo, e não há nada de errado com isso. Quadrinistas como Cassar e a Brendda Lima me mostram isso e admiro muito o trampo deles. Preciso fazer menção honrosa a Fefê Torquato, Isadora Zeferino e Hanna Seabra porque admiro e me inspiro muito nos estilos marcantes de seus desenhos.

~Vem trabalho novo aí!~

Estou trabalhando atualmente na história de uma vigilante chamada Ana, que vai explorar aquela fase da nossa vida em que o nosso universo se expande e de repente temos que descobrir quem somos e tudo é muito novo, extremo e rápido demais. Ah e tem muita porrada e super-poderes. O projeto provavelmente vai entrar no Catarse ano que vem.

Aqui uma imagem do concept dos protagonistas:

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