Entrevista – Samie Carvalho

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Ela é brasileira que mora no Japão, desenha um quadrinho muito conhecido na internet e é a nossa entrevistada para o mês da Visibilidade Trans, que termina hoje, mas que possui uma luta diária. Nossa entrevistada é a Samie Carvalho autora do quadrinho Sasha, A leoa de juba.

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Lady’s – Como você foi parar no Japão?

Vir pro Japão sempre foi um sonho de infância, algo que eu imaginava que tinha que fazer. O Japão sempre foi um país que me fascinou e de uma forma ou de outra sempre estive conectada com sua cultura. Na adolescência comecei a aprender japonês como hobby. Um hobby que foi ficando sério, até que quando terminei a faculdade já sabia de uma possibilidade de bolsa de estudos para o Japão. Apliquei, fiz as provas e entrevistas (em japonês), passei, e em abril de 2008 embarquei pra terra do sol nascente. E acabai nunca mais voltando ao Brasil desde então. Fiz pós-graduação, me formei e acabai ficando. O Japão tem seu lado ruim as vezes, mas é um país único de se viver, especialmente se você sabe o idioma. É uma experiência que todos deveriam ter.

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Lady’s – Quando você se enveredou pelo mundo dos quadrinhos? Sempre gostou de desenhar?

O desenho sempre foi algo presente em minha vida também.em minhas memórias mais jovens, já me lembro de desenhar cadernos e mais cadernos. Minha mãe sempre me incentivou muito a leitura, inicialmente com livros infantil ilustrados e com quadrinhos da Turma da Mônica e da Disney. Dai pra eu começar a desenhar quadrinhos foi um pulo. Desde criança já desenhava minhas próprias historinhas nos temas mais variados.

 A Sasha é um quadrinho extremamente autoral, quase uma epifania. Era algo que eu sentia que tinha que colocar pra fora de alguma forma.”

Lady’s – Sasha, The Lioness é um quadrinho autoral. O quanto foi importante para você falar de sua história? Como foi o retorno dos leitores?

A Sasha é um quadrinho extremamente autoral, quase uma epifania. Era algo que eu sentia que tinha que colocar pra fora de alguma forma. A Sasha no começo era algo que eu fazia como terapia, e acabou crescendo além da minha expectativa. O retorno teve dois lados, infelizmente um negativo, pois desde que comecei a publicar a Sasha (em português), passei a receber muitas ameaças de gente preconceituosa, e-mails com agressões verbais vindas desde os machistas mais tacanhos até TERFs raivosas (feministas radicais que difamam pessoas trans). Fiquei bastante assustada com a maldade gratuita alheia. O lado bom foi a excelente recepção positiva que eu tive dos leitores que curtem a Sasha. Através dela, conheci pessoas incríveis de todos os tipos e várias portas foram abertas. Graças a Sasha aprendi muito sobre militância feminista, LGBT e de direitos humanos. E o mais gratificante é ver a Sasha transformando mentes e corações. Recebi vários emails e mensagens de pessoas que foram tocadas pela mensagem da Sasha e reviram seus preconceitos em relação a população trans. Pessoas que antes eram inimigas e hoje são aliadas. Tive até algumas amigas trans que se assumiram após lerem a Sasha. São muitas histórias…

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Lady’s – No dia da visibilidade Trans qual a mensagem que ainda precisamos reforçar? A Sasha te ajuda nesse processo?

Precisamos reforçar tanta coisa que nem sei por onde começar. Mas talvez eu sugeriria começarmos pelas palavras reconhecimento e respeito. Reconhecimento porque a população cis precisam aprender a reconhecer que as pessoas trans existem. Reconhecimento porque as pessoas cis precisam reconhecer a identidade de gênero das pessoas trans. Pessoas trans não são homens vestidos de mulher e mulheres vestidas de homem. Somos homens e mulheres. Cada caso é um caso, e a transexualidade se expressa no indivíduo de diversas formas e por diversos motivos, biológicos, psicológicos, sociais. Existem pessoas trans hetero, homo, bi e assexuais. Existem pessoas trans que o são simplesmente por terem nascido com algum nível de intersexualidade (vulgo “hermafroditismo”) e que por puro equívoco de médicos e/ou dos pais, que baseando-se em genitais, acabam criando (e registrando) a pessoa dentro do papel de gênero errado, forçando a pessoa a “transicionar” posteriormente. Logo, a transexualidade não é um fenômeno uniforme. É preciso reconhecer as identidades trans em sua totalidade e não apenas como aquele preconceito velho de que “mulher trans é um gay afeminado”… Porque não é. Nos existimos e ninguém é trans por diversão. Respeito porque independente da pessoa gostar ou não, aprovar ou não o estilos e vida despesas trans, é dever cívico dela respeitar e cobrar das autoridades que tenhamos nossos direitos garantidos. Não respeitamos (ou pelos menos em teoria devíamos respeitar) a população deficiente? As religiões? As ideologias políticas? Porque em pleno século XXI ainda não se consegue respeitar um ser humano simplesmente porque sua identidade de gênero, que é pura convenção social, não está de acordo com os padrões cisnormativos? Eu vivo num pais que está longe de ser um paraíso pra população LGBT, mas por aqui nunca vi ninguém questionar minha identidade de gênero. Por mais que apresente documentos que ainda constam como “masculino”, nunca me aconteceu no Japão de por isso me tratarem como homem. A de saber diferenciar e separar biologia de sociologia. Um homem trans pode possuir atributos biológicos de o que consideramos sendo de uma mulher, e por isso ter necessidades específicas, mas em nenhum momento ele deve ser deslegitimado de sua identidade masculina por isso. Ele continua sendo homem. E por último acho que o que mais falta é educação. E sobra desinformação, fundamentalismo e ignorância. Nesse aspecto o Brasil está mais perto das nações mais retrógradas do planeta! o que me deixa muito triste e desanimada. Me desanima muito também a postura dos nossos três poderes da república. Tanto o judiciário, como o executivo e legislativo são completamente ignorantes em relação as questões trans. Com exceção de alguns poucos parlamentares, advogados, promotores e médicos, para a imensa maioria a transexualidade ainda é vista como perversão, pecado, algo errado, e negar as pessoas transexuais direitos básicos como documentos com nome e gênero de acordo com suas identidades ainda é tratado com desdém ou visto como “privilegio”. Pessoalmente se as coisas não melhorarem eu penso seriamente em buscar asilo político em outro país ou tentar tirar outra nacionalidade.

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Lady’s- Você deu uma pausa nas tiras da Sasha e agora tem publicado a tirinha “Amanda a garota cientista”. Como foi fazer essa nova tirinha e o todos querem saber: quando a Sasha volta?

Dei um stand by na Sasha por vários motivos. Primeiro porque sempre fiz a Sasha no meu tempo livre, entretanto quando surgiu a oportunidade de publicar a Amanda, tive que me focar mais na Amanda por motivos financeiros. A Sasha eu faço literalmente de graça, já a Amanda eu recebo por página. Além disso, eu sou muito perfeccionista em relação a qualidade dos desenhos e da arte. Se não puder manter a qualidade prefiro não fazer. Como a Amanda já estava me tomando mais tempo, estava com medo da Sasha perder em qualidade. Por isso resolvi dar uma parada na Sasha pra dar uma reformulada na arte e na narrativa. Essa primeira fase de 30 tiras da Sasha surgiu mais como um projeto de conscientização, de apresentação e experimentação de linguagem, dos personagens e da temática. Eram tirinhas muito de militância, mais focadas no tema transfobia em si do que na própria Sasha como personagem. Quero trazer a Sasha de volta, mas com uma narrativa que foque especificamente nela, no seu dia a dia, no que ela pensa. Nesse sentido, preciso repensar muita coisa. Outro problema é que a Sasha tava me expondo demais, e isso gerou vários resultados negativos na minha vida pessoal. É emocionalmente desgastante lidar com certas situações que toda essa exposição gera. Preciso de um tempo pra me curar, pra resolver alguns conflitos internos, tem uma depressão que sempre me assombra uma vez ou outra. Tudo isso contribuiu de formas negativas e positivas pra que eu tenha colocado a Sasha na geladeira. Mas a Sasha volta, eu quero que ela volte, e volte com força total. Mas tenho que dar uma arrumada na casa da minha vida antes de voltar a produzir. Mas até lá, não se sintam órfãos! Sempre tem a Amanda e o Cebola pra divertirem a gente com suas aventuras nonsense!

 

Acompanhe o trabalho da Samie na página da Sasha no Facebook  da Amanda A Garota Cientista;

Seu portfólio pessoal: https://www.facebook.com/SamieCarvalhoPortfolio

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Twitter: @SamieCarvalho e Tumblr: sashalioness.tumblr.com/

— Leia também uma entrevista com a ativista Daniela Andrade.

Um comentário em “Entrevista – Samie Carvalho

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