Entrevista – Terry Moore, autor de Strangers in Paradise

Colaboração de Ana Carolina Cunha – Atualmente faz Cinema de Animação na UFMG, além de trabalhar e estudar na Escola de Artes Casa dos Quadrinhos. Já escreveu sobre quadrinhos e cinema para os sites A Galáxia, Abacaxi Atômico e HQ Memória e mantém o blog Marca Rubra .  Aprendeu a ler com a Turma da Mônica e redescobriu sua paixão por quadrinhos aos 15 anos, quando leu Cavaleiro das Trevas pela primeira vez, desde então, não parou mais de se apaixonar pelas HQs, chegando a fazer mestrado em Psicologia sobre o tema A LUTA PELA JUSTIÇA: uma análise fenomenológica das histórias em quadrinhos do BATMAN . Seu sonho é poder conciliar profissionalmente suas paixões: quadrinhos, cinema, desenhar e escrever.

Este artigo foi publicado originalmente no extinto site A Galáxia, em 2005, quando eu tive a oportunidade de entrevistar um dos meus ídolos, Terry Moore, quadrinista norte americano, que escreve, como poucos, sobre personagens femininas.

Esta entrevista é uma espécie de introdução ao universo criado por ele e um aquecimento para a segunda entrevista que ele vai me concedeu após o encerramento da série nos Estados Unidos.

Não se façam de estranhos e sejam bem-vindos a Houston, Texas, e às vidas de Katchoo, Francine e David.

Estranhos no Paraíso ou Strangers in Paradise no original, ou ainda SiP como é carinhosamente chamada por seus fãs, é uma série de quadrinhos alternativos criada por Terry Moore, e publicada pela primeira vez em 1993, pela Antartic Press. Depois do relativo sucesso dessa série original, Terry Moore criou sua própria editora, a Abstract Studio, que publicou a série até 2007.

Em linha gerais, SiP conta a história de três jovens, Katina Choovanski (Katchoo), Francine Peters e David Qin, que vivem juntos na cidade de Houston. O tema básico da série é o relacionamento entre as três personagens, seu cotidiano e seus problemas emocionais e amorosos. Mas a série não se resume só a isso, existe também um enredo policial de fundo, devido à ligação passada de Katchoo e David com o crime organizado. Além disso, temas polêmicos como prostituição, lesbianismo, AIDS e incesto desfilam por suas páginas, mas de uma forma sensível e séria, sem ser apelativa em momento algum.

Estranhos no Paraíso já foi publicada aqui através da Editora Abril (minissérie em três partes), pela Via Lettera (em forma de álbuns encadernados) e pela Pandora Books (em álbuns e como série mensal). Infelizmente, nenhuma das editoras levou a série até o fim, e seus fãs brasileiros ficaram a ver navios.

Além de escrever e desenhar Estranhos no Paraíso, Moore trabalhou como roteirista e/ou desenhista de algumas outras séries como Lady Supreme (Image Comics), Ultimate Team Up #14 (para a Marvel, em uma história estrelada pelo Aranha e a Viúva Negra, publicada aqui na Marvel Millennium #11), Tara & Willow (minissérie derivada da série Buffy- A Caça Vampiros em quadrinhos) e a edição DC First que abordava o primeiro encontro entre a Batgirl e o Coringa. Também foi roteirista de Runways e Spiderman loves Mary Jane, ambas da Marvel Comics. Tem duas outras séries autorais: ECHO  e Rachel Rising.


Como surgiu a idéia para uma série como Estranhos no Paraíso (SiP)?

Eu acho que (Estranhos no Paraíso) é apenas uma mistura de todas as coisas que eu gosto e não gosto na vida. Tudo, desde quadrinhos, passando pela literatura, e cultura pop. Definitivamente estava procurando por alguma coisa como SiP para ler e não consegui encontrar, então comecei a escrever (SiP) para meu próprio entretenimento.

Depois de 10 anos de publicação, como você avalia seu trabalho na série? Olhando para trás, hoje em dia, existe algo que você faria diferente?

Uma visão posterior oferece uma poderosa perspectiva, algo que você não tem quando está no meio daquilo tudo. Eu tento não me torturar sobre os erros do passado. Mas, aprendi um bocado nestes últimos dez anos. Tenho esperança de que possa aplicar o que aprendi no futuro.

Como foi a experiência de fazer uma revista em quadrinhos de super-herói?

Divertida, porém frustrante. Não tive tempo para fazer o que realmente queria. Especialmente no Homem-Aranha. Eu realmente amaria desenhar e arte-finalizar uma edição desse título dando a minha total atenção a ele, pois essa era uma revista que eu lia quando criança e realmente gostava. Foi a última HQ que eu larguei na adolescência quando parei de ler quadrinhos. Então, terminar fazendo uma edição (do Homem-Aranha) anos depois foi importante para mim, mas não tive tempo de fazer isso direito. Eu adoraria uma outra tentativa algum dia.

Você foi convidado a assumir os roteiros de Birds of Prey (série estrelada pelas heroínas Canário Negro e Oráculo, ocasionalmente publicada nas revistas do Batman por aqui), mas desistiu. Porque mudou de idéia?

Novamente eu percebi que não consigo ficar centrado em duas coisas simultaneamente. Enquanto estiver fazendo SiP, não posso fazer outras séries. Eu adoro Birds of Prey, e realmente adoraria pensar sobre suas personagens e seu mundo, mas eu trabalho melhor quando estou completamente concentrado em alguma coisa. É preciso abrir mão de algo quando você tem muita coisa em seu prato. Optei por Estranhos no Paraíso ao invés de Birds of Prey.

Em quase todos os seus trabalhos, as mulheres, mulheres fortes em sua maioria, são figuras centrais (Katchoo e Francine, Tara e Willow, Lady Supreme, Viúva Negra). É mais fácil para você escrever sobre personagens femininas que masculinas? Por que?

Não é que seja mais fácil, eu apenas prefiro. Acho que nós já temos histórias demais exaltando os homens. Não estou interessando em adicionar mais uma a essa multidão. Gosto dos homens individualmente, mas a humanidade como um todo é uma fera violenta e sem direção, e eu os retrato dessa forma em minha série.

Nós podemos pensar em Katchoo e Francine como opostos. Quer dizer, Francine é romântica e sonhadora, Katchoo é forte e independente. Você acha que elas são, de alguma forma, modelos das mulheres modernas? E você acha que alguém poder ser ao mesmo tempo romântica e independente, ou nossa sociedade impõe que as mulheres devam ser ou uma Katchoo ou uma Francine, nunca ambas?

Eu vejo Francine e Katchoo não como exemplos de mulheres modernas, mas como exemplos extremos de mulheres em geral, de qualquer época. Você pode encontrar mulheres assim em qualquer ponto da História. E, apesar de parecerem ser pólos opostos, elas realmente dividem o mesmo tipo de emoção e sentimentos. O que acontece é que cada pessoa enfatiza isso de um modo diferente, do modo que funciona melhor para elas. Sim, há românticas independentes lá fora, e em SiP. Elas podem não ter se revelado ainda, mas estão lá.

Uma coisa que realmente impressiona em seu trabalho é seu realismo. A vida real, pessoas que conhece e situações que vive e observa, influenciam no seu modo de escrever suas histórias?

Sim, é claro. É assim que funciona. Você sai, experimenta a vida, e então, senta para fazer uma história, percebendo como tudo isso se reflete em você.

Estranhos no Paraíso é publicada em diversos países. O que você acha que há de tão especial na série para que ela faça tanto sucesso em culturas tão diferentes entre si?

Acho que é porque estou escrevendo sobre algo que todos temos em comum, nossos sentimentos e emoções pessoais. Nós temos a mesma estrutura biológica e as mesmas experiências básicas de amor e amizade. Quando você trabalha nesse nível, você está escrevendo algo com que as pessoas de qualquer lugar podem se relacionar.

Sites oficiais de Terry Moore:

http://www.terrymooreart.com/

http://www.strangersinparadise.com/

http://www.echocomic.com/

————————

Esta segunda entrevista foi realizada para o fanzine virtual Tsuru, que acabou por se transformar no meu atual site, Marca Rubra, mas não se encontrar mais disponível lá, sendo agora, exclusiva do Lady’s Comics.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *