Erotismo e HQs: porque política é uma questão criativa

Este texto foi produzido a partir da oficina “Erotismo e quadrinhos”, coordenada por mim durante o Dia Nacional do Quadrinista BH 2017. Agradeço aos organizadores do evento, o Estúdio Black Ink e a Fundação Municipal de Cultura, e a todos os participantes da oficina.

 

Sexo é uma presença constante em nossa sociedade, seja para quem pratica ou não. Se você for assexual (orientação sexual na qual a pessoa tem pouco ou nenhum interesse na prática sexual), sabe do que estou falando. O tempo todo e sem importar o contexto, a mídia nos bombardeia de imagens sexualizadas, que vão do tabu ao sonho de consumo.

A presença constante do sexo na mídia raramente é acompanhada de uma reflexão sobre seus significados. Pelo contrário: a hegemonia de certos tipos de representação faz com que estes sejam vistos como naturais, óbvios, inquestionáveis. Esquecemos que as imagens desses corpos, ideias e sensações não são neutras, mas produzidas com intencionalidade e em diálogo com seu contexto. Quer queiram ou não, são carregadas de significados políticos, econômicos e culturais.

A dificuldade em compreender e discutir essa dinâmica está presente na resistência à crítica, sobretudo a feminista e anti-racista. Ela se manifesta na negação do caráter racista e machista da Globeleza ou, para falar de erotismo, na confusão do retrato de uma prática BDSM saudável com o de uma relação abusiva que faz a série 50 tons de cinza.

Não pretendo me ater em mais exemplos individuais, mas notar que esse é um fenômeno cultural que se manifesta da mesma forma no mundo dos quadrinhos – como a recorrente sexualização gratuita de personagens femininas e a constante confusão entre sexo e estupro.

Vamos pra marte, porque tem gente que acha que esgotou o sexo por aqui. “Olga, a sexóloga” por Thais Gualberto.

Pra você que já está achando cansativo esse papo de opressão e quer falar logo de sexo, devo dar a triste notícia de que, em nossa sociedade, sexo está com mais frequência do que não intimamente ligado a opressão. A crítica feminista não inventou isso: é o resultado de longos processos históricos que amalgamaram em nossa cultura formas de manter o privilégio de alguns grupos em relação a outros. O que a crítica faz é evidenciar como tais formas de violência se manifestam na cultura. E isso deveria ser do interesse todos, mas em especial dos autores e criadores.

Identificar discursos opressores é uma ferramenta intelectual, que pode e deve ser usada de modo criativo. Quero apontar que a ausência de crítica e discussão fundamentada implicam em prejuízo não apenas por uma questão de responsabilidade autoral, mas também por uma questão criativa. Qualquer mídia que queira ser tratada com seriedade precisa se submeter à reflexão. São precisamente essas ferramentas que possibilitam a inovação e o aperfeiçoamento no trabalho criativo.

“A primeira vez que transei… / …eu estava com tanta fome… / que não consegui ter uma ereção. / … / …desculpa… ” Strangers, por Ellie Irineu.

Nas produções de conteúdo explicitamente sexual isso é ainda mais urgente. Por estar de certa forma à margem da cultura mainstream, muitas vezes seus produtores agem como se tivessem licença para reforçar violência e preconceito de forma ainda mais extrema. É o que acontece com a indústria pornográfica, um dos negócios mais lucrativos no mundo e cuja influência cultural é massiva. Escolhi o termo “erotismo” para esse texto não para me referir a um conteúdo não explícito ou pretensamente menos vulgar, mas para marcar um distanciamento em relação à indústria da pornografia e à cultura de opressão que a permeia.

A verdade é que a maioria desse conteúdo se guia pelos mesmos valores opressores presentes na cultura mainstream. A padronização dos corpos é defendida a unhas e dentes como opção estética. A violência à mulher e as diversas formas de LGBTTfobia são apresentadas como parte natural do sexo e da sociabilidade. Tanto os estupros reais filmados para o prazer de internautas no mundo inteiro quanto o estupro ficcional de Cersei na série Game of Thrones desconsideram a vontade da mulher e confundem sexo com estupro, produzindo uma das maiores violências possíveis, que é a de negar a existência mesmo da violência. É o que a crítica feminista chama de cultura de estupro: uma cultura onde a violência sexual é considerada normal.

Qualquer crítica, porém, é lida como censura ou moralismo. Acredito que, a essa altura, tenha ficado claro que não se trata de não poder mostrar ou falar sobre algo. As formas com que se escolhe fazê-lo, porém, tem consequências e efeitos diferentes. Ora, um ato de violência sexual deve ser diferenciado de um ato consensual – essa é uma diferença narrativa crucial. Representar um ato de violência sexual como fonte de prazer para o leitor é um reforço a cultura de estupro e uma escolha simultaneamente política e criativa. Não acredito na separação dos méritos artísticos e políticos. A objetificação de mulheres – quer dizer, retratar uma personagem apenas em sua “utilidade” para outro personagem ou para o espectador – é uma prática tão pobre e limitadora narrativamente quanto é desumanizadora. Não há mérito nenhum aí.

A quantidade massiva de conteúdo de má qualidade e carregado de preconceitos afasta muitos leitores e, às vezes, até mesmo autores de se aproximar do gênero. Como produzir conteúdo sobre sexo nessas condições? Vale a pena fazê-lo?

A oficina sobre quadrinhos e erotismo envolveu a produção de conteúdo pelos participantes, depois reunido em um fanzine.

Sexo e sexualidades são dimensões da experiência humana e, pessoalmente, eu gostaria de explorá-lo em minhas criações e leituras. Meu interesse é conhecer, reforçar e criar formas de se relacionar com o sexo e a sexualidade que não sejam permeadas pela violência, opressão à mulher e heteronormatividade. Embora sejamos constantemente submetidos ao assunto, carecemos urgentemente de representações sobre sexo que girem em torno do prazer e do consenso de todas as partes.

Durante a oficina sobre quadrinhos e erotismo, convidei os participantes a fazerem um exercício criativo para tentar sair da narrativa normalmente reforçada pela pornografia e a cultura de modo geral sobre o sexo. Na verdade, a intenção era sair dos percursos criativos a que nos acostumamos, seja em qualquer contexto. Baseado em dinâmicas que aprendi com Ricardo Tokumoto e Luís Felipe Garrocho, que usam a aleatoriedade como combustível para a criação, os exercícios envolviam desenhar cenas eróticas em que não era possível descobrir o gênero ou sexo dos participantes, e depois usando apenas objetos.

Refletimos sobre partes da experiência sexual que nem sempre são exploradas: a confiança, a imaginação, a expectativa. Quanto mais essa experiência envolve? Que intimidades podemos acessar com nosso trabalho? Quais são as dimensões do erotismo que transcendem a divisão de gênero ou as genitálias? Quando o sexo é retratado insistentemente como apenas penetração heterossexual e dominação do homem sobre a mulher, formas profundas e interessantes de pensar e sentir são perdidas. O resultado da oficina foi um fanzine que pode ser lido aqui.

A crítica feminista aqui é incorporada como parte do método de criação. Não se trata apenas de uma opção moral ou política, mas também pode ser. Estas estão sempre presentes, pois fazem parte de nós e do nosso mundo. Nos dando conta disso e ativamente refletindo sobre o caráter político das nossas criações, podemos ser honestos e conscientes com relação ao próprio processo criativo e ir além das possibilidades criativas estagnadas e limitadas que em geral nos oferecem. Não tenha medo de se envolver. Você só precisa dizer sim.

 

“Rainy Day… or not” por Karolyne Rocha Bastos é uma HQ envolvente e ~intensa~

 

Falo mais sobre o assunto nesse episódio do AvanteCast, junto com Isabelle Felix, Savio Roz e Beliza Buzollo. 

 

Quadrinhos gostosos pra ler:

“Garota Siririca”, por Lovelove6

“Lost Girls”, por Melinda Gebbie e Alan Moore.

“Melindrosa”, por Aline Lemos

“Mô”, por Lu Cafaggi

“MareRosso”, por Chairim

“Na ponta da língua”, por Beliza Buzollo

“Olga, a sexóloga”, por Thais Gualberto

“SDDS”, por Sirlanney

“Rainy day… or not”, por Karolyne Rocha Bastos

“TranZa”, por Coletivo ZiNas

 

Em inglês:

“Celluloid”, por Dave McKean

“Oglaf.com”, por Trudy Cooper e Doug Bayne

“Oh joy sex toy”, por Erika Moen

Queerdoodles“, por Ellie Irineu

 

Conhece HQs legais sobre o assunto? Comenta aí!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *