Helter Skelter

Algumas palavras antes de começar.
Risadas e gritos são muito parecidos.

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56e2cf198cVocê não quer que eu te ame?
Estou descendo rápido, mas estou a milhas de você
Diga-me, diga-me a resposta, vamos me diga a resposta
Você pode ser uma amante mas você não é dançarina
Confusão, Confusão
Confusão

(Helter Skelter, The Beatles)

Escrito por Kyoko Okazaki (13 de dezembro de 1963), Helter Skelter foi inicialmente publicado de forma seriada na revista Feel Young da editora japonesa Shodensha, entre julho de 1995 e abril de 1996, sendo sua compilação lançada em 2003 pela mesma. No Brasil, a publicação saiu em 2016 pela editora NewPOP (única crítica que faço à publicação é quanto a revisão, que deixa a desejar e escorrega em vários diálogos). A autora é considerada por muitas pessoas uma das mães do josei (nome dado aos mangás shoujo voltados para mulheres adultas). Também uma das responsáveis pela ascensão do estilo de mangá gyaru, pois suas obras chamam atenção pelos temas controversos que costuma abordar, como sexo, sadomasoquismo, drogas, homossexualidade, estupro, assassinato e prostituição. Além de Helter Skelter, Kyoko publicou inúmeras obras. Entre as mais conhecidas Pink, Tokyo Girls Bravo, River’s Edge e ROCK.

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Helter Skelter conta em 316 páginas a história de Lilico (ou Ririko), uma super modelo japonesa que está em evidência por causa da sua beleza desejada e invejada, mas que para estar no topo tem que se desdobrar também como atriz e cantora. Também luta diariamente com remédios e outros procedimentos mais invasivos para estar sempre linda e jovem, além de calmantes e soníferos para aplacar os sintomas do tratamento. Contudo, vemos ao longo da narrativa várias mulheres desejando ser magras e belas como ela. Podemos perceber durante a história a luta de Lilico para manter o estilo de vida que deseja e o quanto a mortifica essa cobrança que sofre de si e da sua empresária, chamada por ela de Mama, o que tem a ver não apenas com a relação de dependência que elas desenvolvem, mas principalmente por ser Lilico uma criação da Mama. O que é curioso, já que descobrimos ao longo da história que a modelo praticamente não tem mais qualquer contato com a própria família.

Além de sua beleza e sua agenda, tem também sua vida pessoal vigiada nos mínimos detalhes. Contudo, Lilico faz o que pode e o que não pode para realizar seu sonho de se casar com um príncipe encantado que irá sustentá-la pelo resto da vida, para que ela não precise mais passar por tanta dificuldade e sofrimento físico e mental para continuar sendo a modelo mais famosa do Japão. Mas apesar de nos compadecermos com as cobranças profissionais e estéticas sofridas por Lilico, em vários momentos do mangá é difícil sentir muita simpatia pela modelo que está constantemente aproveitando-se da sua beleza e posição de poder para manipular, humilhar e até mutilar quem a desagrade. Lilico se vê como um produto com o prazo de validade prestes a expirar, por isso desconta constantemente seu desagrado em quem estiver ao seu redor.

“O motivo das pessoas frequentemente acharem os famosos interessantes, é porque eles são uma anomalia como o câncer.”

Ao final da narrativa somos levadas a esperar por uma continuação que nunca aconteceu, talvez porque a história termine ali mesmo, talvez por causa do acidente que a autora sofreu, atropelada por um motorista bêbado logo após finalizar a publicação. Mas a história da obra não terminou aí, Helter Skelter foi ganhador do Prêmio Cultural Osamu Tezuka em 2004, ganhou o prêmio de excelência do Japan Media Arts Festival em 2003 e foi nomeado para a seleção oficial de obras essenciais do Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos de Angoulême na França em 2008. Por fim, o mangá ganhou em 2012 uma adaptação para o cinema dirigida por Mika Ninagawa, responsável também pelo longa Sakuran.

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Paralelamente à história principal, acompanhamos dois promotores que investigam um caso de remédios ilegais importados, relacionados a um antigo caso de tráfico de órgãos envolvendo clínicas obstétricas. Além da temática, o trabalho da autora chama atenção também pelo seu estilo artístico, que apesar de lembrar em alguns aspectos a obra de Ai Yazawa, outra mangaka singular, possui um traço mais solto, que se adequa muito bem à confusão das vidas das personagens, mostrando em alguns momentos imagens mais detalhadas e, em outros, opta pela simplicidade ou pela poluição, chegando a usar os balões para demonstrar essa sensação a quem lê. Com todas essas contradições que causa na leitora, Helter Skelter é uma obra complexa, mas também fluida, que fala sobre a volatilidade dos desejos no mundo da moda e da beleza e quem a ler devorará suas três centenas de páginas sem grandes esforços.

“As pessoas vão se esquecendo das coisas enquanto que os desejos continuam. Mas com nomes diferentes.”

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