Já que saiu em HQ: vamos falar de Jane Austen

Pode parecer estranho falar de uma autora da literatura no Lady’s Comics, mas não posso perder a oportunidade de apresentar Jane Austen quando lançam, no Brasil, uma versão em quadrinhos de sua principal obra: Orgulho e Preconceito.

Aquarela feita por Cassandra Austen, irmã de Jane Austem, 1810.

Retrato de Jane Austen por Cassandra Austen, irmã da autora, 1810.

Quando surgiram os primeiros textos impressos de feministas, como os de Mary Wollstonecraft, Jane Austen (1775-1817) escreveu romances com mulheres protagonistas. Como a escrita feminina era considerada inferior a dos homens, Jane conseguiu publicar seus livros apenas quando concedeu os direitos autorais à editora – com muita insistência e apoio da família. A identidade de Austen só foi conhecida após a morte, antes assinava como “por uma senhora” (by a Lady) ou “autora de Razão e Sensibilidade”.

Conversei com a Adriana Sales Zardini, presidente da Jane Austen Sociedade do Brasil e tradutora de alguns livros da autora, para levantar pontos que chamam atenção nos romances de Austen e na própria figura. A começar com a influência das obras de Wollstonecraft, avó do feminismo, (autora de Uma Reivindicação pelos Direitos da Mulher, 1792) que questionava a limitação dos estudo das mulheres da época. “Não acho que o feminismo como o conhecemos a partir da luta de igualdade da década de 60 seja uma característica marcante na obra de Austen. Entretanto, considero Austen uma escritora proto-feminista, no sentido de que ela mostrava como as mulheres de sua época viviam, suas limitações com relação ao dinheiro, escolaridade, igualdade entre outros”.

No século XVIII (era georgiana), na Inglaterra, a mulher branca de classe média até a da pequena corte tinham um papel social limitado. O estudo era focado na etiqueta e nos dotes, como tocar piano, dançar, bordar, desenhar, aprender algumas línguas para poder cantar músicas estrangeiras, quase tudo para o lar e para conquistar possíveis pretendentes. Esse direcionamento do aprendizado era questionado por Mary e evidenciado por Austen nos romances. “Ao se demonstrar como as mulheres viviam, por meio de suas histórias, ela retratava as desigualdades. Não há como sabermos a real opinião de Austen, pois suas cartas foram incineradas, ou seja, suas reflexões acerca da sociedade de seu tempo, sua opinião real, provavelmente estavam ali nas cartas que trocava com parentes e amigos”, explica Adriana.

Logo do Jane Austen Sociedade do Brasil

Logo do Jane Austen Sociedade do Brasil

Ainda que tenha ligações com Wollstonecraft, Jane tem uma visão conservadora. Não rompe com os comportamentos desejados da época: suas protagonistas se casam e acreditam no amor. Orgulho e Preconceito, por exemplo, explora a corrida da mãe para casar cinco filhas visando a segurança financeira e status social. Na família sem filho homem, elas não tinham direito de posse da herança do marido ou do pai – era tudo passado para o parente mais próximo.

O casamento romântico era difícil de acontecer. Gosto quando a autora retrata a realidade ao expor os sentimento de uma solteira de 27 anos – Charlotte Lucas, amiga da protagonista Lizzie Bennet, de Orgulho e Preconceito. Charlotte se sentia um estorvo para a família e a possibilidade de vislumbrar uma felicidade no amor era pouca. Ela não podia se dar ao luxo de recusar qualquer proposta por conta da idade avançada e o futuro incerto.

O que torna Jane Austen única é porque utiliza situações corriqueiras e comuns de sua época para a construção de obras primas. Se observarmos podemos reparar que características dos personagens estão presentes em muitas pessoas ao redor do mundo! O que marca em Austen é justamente a simplicidade e o brilhantismo de sua escrita. Mas é a ironia requintada e pontual que marca suas obras é que me cativa! Ela é bastante irônica! – Adriana Zardini 

ADAPTAÇÕES E ENSINO

Aqui no Brasil, Austen nem sempre foi reconhecida como é hoje em dia. Adriana compara o volume crescente de leitores que buscam os romances desde os tempos do Orkut. “Naquela época, não havia referência sobre Austen, nem no Wikipédia em português. Era tudo muito simples. As perguntas [na comunidade] eram a respeito dos livros que ela escreveu, como conseguir as traduções aqui no Brasil, já que muitas estavam esgotadas”. Foi a partir dessa falta de referências que o janeaustenbrasil.com.br (JASBRA) surgiu e foi o primeiro blog sobre a escritora em língua portuguesa.

Quadrinho lançado pela Nemo

Quadrinho lançado pela Nemo.

Nesses 8 anos de site, ela percebe que auge das obras da britânica se deu por volta de 2012 e 2013, quando Orgulho e Preconceito fez 200 anos. A partir daí, surgiram versões na literatura, cinema e quadrinhos com mais frequência.

Zardini também leciona inglês e trabalha em sala de aula com a versão inglesa do quadrinho publicada pela Nemo no Brasil. Ela conta que procura as adaptações da obra da Austen, como a HQ e os graded readers, porque não conseguiria trabalhar com um romance de mais de 300 páginas nas aula para o ensino médio. “Acredito que a linguagem das HQ facilita a compreensão em língua inglesa e, principalmente, faz com que os alunos descubram Austen”, enfatiza. Muitos passam a ler o livro. “Creio que o fato de eu ser a professora deles acaba influenciando”, arremata.

 OUTRAS VERSÕES

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Orgulho e Preconceito por Kate Beaton. Fonte: www.harkavagrant.com

Não existe apenas essa versão lançada pela Nemo, há outras como as da Marvel. Há também fanfics como as tiras da Kate Beaton e a webcomic Manfeels Park de Erin e Mo. Essa última é uma sátira, que usa frases de homens atuais em cenas de seriados dos romances de Austen – as opiniões machistas e classicistas combinam com o século XVIII.

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Webcomic de Erin e Mo – versão de Orgulho e Preconceito. As falas são retiradas das redes sociais. Fonte: http://www.manfeels-park.com/

Uma das capas das obras adaptadas pela Marvel. Fonte: Amazon.

Uma das capas das obras adaptadas pela Marvel. Fonte: Amazon.

Ainda fico na espera de um quadrinho mais experimental das obras de Jane Austen no Brasil. Fiquei pensando como seria nos traços de artistas como Lu Cafaggi e Fefê Torquato, que trariam a leveza que a autora tem nos textos.

Aliás: quantas outras obras feitas por mulheres na literatura já estão em domínio público e podem ser usados e relembrados para as HQs? Seriam ótimas se ressignificadas para os dias de hoje.

Livros publicados: Razão e Sensibilidade (1811), Orgulho e Preconceito (1813), Emma (1815), A Abadia de Northanger (1818, póstuma) e Persuasão (1818, póstuma).

Mais sobre os contextos históricos e aprofundamento das obras de Austen. Acesse:
Vídeos da professora Kathryn Sutherland no site do British Library
Austen’s House Museum
Escritoras inglesas
JASBRA

2 comentários em “Já que saiu em HQ: vamos falar de Jane Austen

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