Kiki de Montparnasse

“… e Deus sabe o quanto fiz amor na minha vida.”

~ Kiki, pág 354

A graphic novel “Kiki de Montparnasse” conta a vida da musa da boemia francesa, Kiki, na Paris agitada do início do século 20, período entre a 1ª e 2ª Guerra Mundial.

O álbum de Catel e Bocquet chegou ao Brasil com três anos de atraso. Publicado originalmente na França pela Editora Casterman e lançado no Brasil pelo selo Galera, da Editora Record, Kiki chegou às nossas livrarias e comic shops, em abril de 2010.

A HQ dá saltos na história da personagem, mostrando os períodos mais marcantes da ascensão à decadência da artista parisiense. Trata-se de uma obra biográfica, mas os autores alertam que alguns dos momentos apresentados são ficcionais.

Nas mais de 400 páginas da obra, Kiki é retratada como uma mulher à frente de seu tempo – não apenas pela associação fácil entre a figura de Kiki e a questão da liberdade sexual, mas também pelos anseios da personagem à liberdade emocional e liberdade de pensamento e expressão.

Mulher atraente, usuária de drogas, alcoólatra, envolvida em romances escandalosos, Kiki representa uma parcela libertina da população parisiense que questionava os modelos conservadores e ordinários da época.  Kiki é, ao mesmo tempo, uma personagem romântica e carismática, capturada pelo universo artístico em suas mais variadas formas e expressões.

Nas ruas de Paris, sobrevivendo a pão e vinho, a camponesa nascida em Borgonha e criada pela avó,  Alice Prinn, descobre e reinventa a boemia francesa, tornando-se Kiki de Montparnasse.  Graças à sua ousadia, Kiki cativa artistas brilhantes, como os pintores Moise Kisling, Fujita Tsuguharu e Pablo Picaso, o fotógrafo surrealista Man Ray (com quem se envolve emocionalmente) e o escritor dadaísta Tristan Tzara. A beleza exótica da protagonista, sua personalidade forte e seu comportamento divertido (até mesmo nas passagens mais “quentes” da HQ, o respeito de Kiki a suas vontades e paixões sugere simplicidade e traços de inocência) atraem a amizade de ícones da cultura mundial como Jean Cocteau, Marcel Duchamp, André Breton, Ernest Hemingway. Kiki é eternizada em pinturas, fotografias, uma autobiografia (Kiki Memoirs, com prefácio de Ernest Hemingway; um dos únicos prefácios feitos pelo escritor a outros autores) esculturas e filmes experimentais.

A ilustradora Catel Muller

O roteiro do álbum é de José-Louis Bocquet e a arte é de Catel Muller. O texto de Bocquet é direto, limpo e eficiente. Catel tem um traço ágil, delicado e marcante que funciona bem com os argumentos do autor. A atmosfera da década, os cenários, penteados, roupas, feições e personalidades foram muito bem representados pela ilustradora. Para conhecer mais dos trabalhos de Catel, visite seu site oficial: www.catel-m.com (em francês).

Desde o lançamento de “Kiki de Montparnasse”, seus autores colecionam prêmios pela obra, como o Prix Essentiel Fnac SNCF, no Festival de Angoulême, de 2008, o Millespages BD, do ano anterior e o Grand Prix RTL Comix Strip.

“Kiki de Montparnasse” não é uma HQ erótica, mas o sexo está fortemente presente em quase todas as passagens da obra. Kiki divide a cama com outros personagens e exibe as suas curvas sensuais em vários momentos e em situações muito diversas (seja em um momento íntimo com Man Ray, seja no inusitado momento em que demonstra a Kisling que é capaz de se divertir enquanto trabalha e… solta um pum). É importante ressaltar que todo o conteúdo sexual do álbum não é trabalhado como mero atrativo aos leitores. A personagem vive o sexo como um meio para expressar suas paixões, inquietações e seu corajoso desejo de viver a vida intensamente.

8 comentários em “Kiki de Montparnasse

    • Não li Modotti, mas concordo que essas mulheres mereçam uma HQ à altura! Muitas delas são pouco conhecidas ou o que se conhece sobre elas é muito ‘fantasiado’.

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