Lady’s foi ao FIBD 2016

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por Aline Lemos e Gabriela D’Aquino

O Festival Internacional de Quadrinhos de Angoulême (FIBD) ocorre anualmente desde 1974 na cidade medieval que deu nome ao mesmo. É o segundo maior da Europa, perdendo apenas para o italiano Lucca Comics & Games, e sua importância no cenário dos quadrinhos europeus é inegável. A 43ª edição aconteceu de 28 a 31 de janeiro, sob um clima chuvoso e inconveniente. Para ver as exposições, museus, pavilhões de editoras e palestras espalhados pela cidade, o visitante deve andar pra cima e pra baixo – literalmente, pois a cidade fica em uma colina. Ônibus gratuitos circularam para facilitar o deslocamento para o  festival, que por sua vez é pago.

Além das atrações, o Festival organiza premiações de grande impacto no mercado francês e internacional. As categorias premiadas foram mudando ao longo do tempo, mas em 2016 as principais foram: melhor álbum do ano”, prêmio do público e prêmio especial do júri. E, é claro, o carro-chefe: o Grand Prix, prêmio pelo “conjunto da obra de um autor e sua contribuição para a evolução dos quadrinhos”. Grandes nomes das HQs já receberam a homenagem, de Will Eisner a Art Spiegelman, mas apenas uma mulher até hoje foi selecionada: Florence Cestac (no ano 2000). Há uma tendência histórica do festival em homenagear autores do mundo franco-belga, mas isso têm mudado de alguns anos para cá. Após protestos do público e profissionais do setor, a organização se mostrou mais aberta ao conjunto total de autores no mundo, dando espaço a nomes consagrados também do mangá e do quadrinho mais “mainstream” americano. Reflexo disso foram os premiados de 2014 e 2015: Bill Watterson e Katsuhiro Otomo.

O festival que amava as mulheres?

Dessa vez, a polêmica rendeu. A lista de indicados ao Grand Prix de 2016 contava com 30 nomes, todos masculinos, o que levou a uma manifestação do Coletivo de Autoras Contra o Sexismo e a um boicote por parte de indicados. O que se seguiu foi uma série de trapalhadas: a organização do festival achou que incluir alguns nomes femininos resolveria o problema, mas se recusou a pedir desculpas alegando que historicamente não há tantas quadrinistas no mundo da nona arte e que “amam as mulheres, mas não podem refazer a história dos quadrinhos”. Assistiram a repercussão internacional crescer em meio a desculpas esfarrapadas e acabaram chutando o balde e abolindo a lista. Os profissionais da área elegeram em votação livre os finalistas Claire Wedling, Alan Moore e Herman Huppen, três artistas que manifestaram reservas em relação ao prêmio.

O Grand Prix foi finalmente concedido ao belga Hermann durante a cerimônia de abertura do Festival, que é fechada ao público. Ele recebeu a estátua um pouco desajeitado, declarando: “eu estou aqui, aceitei o prêmio, o que vocês querem agora?”.

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Katsuhiro Otomo entrega o Grand Prix a Hermann

O que vocês querem agora?

De nossa parte, queríamos não ter ouvido novamente, na cerimônia a declaração , que o Festival preza pela diversidade e pela avaliação das obras com neutralidade, sem levar em consideração raça, gênero ou qualquer outra forma de discriminação, de modo que isso justificava o número reduzido (zero) de mulheres nomeadas. Então, depois de todos os debates e protestos, devemos assumir que, coincidentemente ou não, os trabalhos das mulheres simplesmente não são bons o suficiente?

É verdade que não dava pra esperar grandes coisas dessa premiação. O único desfecho satisfatório seria se o público invadisse o coquetel VIP e causasse um caos generalizado que resultaria no desaparecimento da estátua, restando apenas a memória, as lendas e a vergonha em torno de todo ocorrido… Certo, isso seria pedir demais. Aparentemente também era pedir demais esperar que um autor estabelecido, que já demonstrou anteriormente uma postura crítica com relação ao evento, usasse esse momento para se solidarizar com as mulheres autoras, ou ao menos marcar uma postura transformadora.

Mas é compreensível! Ninguém quer estar desse lado da discussão, não é mesmo?

Nós também não, principalmente quando a discussão se torna unilateral. Nós nos perguntamos, fazendo coro com Jada Pinkett Smith: “será que chegamos a um momento e lugar em que reconhecemos que não podemos mais implorar pelo amor, reconhecimento ou respeito de grupo nenhum?”. A declaração foi publicada em resposta à ausência de negros entre os atores indicados ao Oscar pelo segundo ano consecutivo, uma situação parecida em alguns aspectos com a do Grand Prix de Angoulême.

O paralelo serve aqui para apontar que a luta por maior representatividade não é apenas uma questão das mulheres, nem dos quadrinhos. Não podemos mais ignorar as formas de opressão e exclusão que estão enraizadas na cultura em que consumimos. Primeiro, porque sem a consciência disso vamos nos deixar levar por falsos argumentos de neutralidade, que ignoram as forças que causam exclusão também nos níveis da estética, da competição e do julgamento crítico. Segundo, porque a crescente organização e conquistas de movimentos sociais não permitirá mais que isso seja esquecido. E terceiro, porque isso é bom para os campos criativos.

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Bem, para concordar com o terceiro ponto, é preciso concordar com a ideia de que a maior diversidade de indivíduos e grupos tendo acesso a narrarem e fazerem circular suas experiências e criações é uma coisa boa do ponto de vista democrático e cultural. Nesse sentido, se for para falar do que queremos, não se trata de quais nomes estão faltando na lista ou do que queremos que seja publicado, mas de qual indústria queremos fazer parte. É esse o ponto que o “lado de lá” da discussão perdeu, uma atitude com a qual estamos familiarizadas também aqui no Brasil (leia sobre aqui, aqui e aqui).

Ao menos o caso chamou a atenção para a questão da diversidade nos quadrinhos.  O Festival também foi um local para debater, de modo construtivo, a participação de autoras na programação e mesas específicas a respeito de diversidade. Leia mais sobre uma dessas mesas clicando aqui.

 

A presença de mulheres em Angoulême era inquestionável: de crianças a senhoras, eram praticamente metade do público, autores e profissionais da área. Mais uma vez não nos espanta o número de mulheres envolvidas no mundo dos quadrinhos. É apenas uma realidade que passou da hora de ser reconhecida.

Vale a pena ressaltar que, entre os 40 selecionados ao prêmio de melhor álbum do ano, tivemos 12 mulheres indicadas (veja a lista e imagem abaixo). Gente de peso, com quadrinhos que já vinham sendo elogiados pela crítica nos últimos meses. De quebra, tivemos a premiação de Ms. Marvel como melhor série. Antes do resultado, tivemos a oportunidade de conversar com algumas das indicadas, além de outras autoras presentes no festival. Confira a galeria de imagens no final da reportagem para ver as fotos e depoimentos!

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Autoras cujos álbuns entraram para a Seleção Oficial de 2016: Nicole J. Georges – “Aloô, Dr. laura?” Delphine Panique – “En temps de guerre” Roz Chast – “Est-ce qu’on pourrait parler d’autre chose?” (título original: Can’t We Talk About Something More Pleasant?) Anneli Furmark – “Hiver rouge” Mai-Li Bernard – “Mortelle Vinasse” G. Willow Wilson (com Adrian Alphona) – “Ms. Marvel – vol. 1” Noelle Stevenson – “Nimona” Isabelle Merlet (com Vincent Perriot) – “Paci” Zeina Abirached – “Le piano oriental” Marine Blandin (com Sébastien Chrisostome) – “La renarde” Fiona Staples (com Brian K. Vaughan) – “Saga – vol. 4” Marion Montaigne – “Tu mourras moins bête” Presença brasileira

Apesar do nosso oceano de distância, todo ano alguns brasileiros marcam presença no Festival de Angoulême. Este ano, além das correspondentes Lady’s Comics (chique), tivemos a presença de alguns representantes do setor, especialmente da cena independente.

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  • O autor baiano Flávio Luiz Nogueira apresentou a conferência “O mercado independente dos quadrinhos no Brasil”. Fazendo um panorama da história dos quadrinhos independentes nacionais, falou também do recente crescimento do mercado, dando exemplo das 350 mesas no FIQ, onde foram lançados 300 títulos, 80 dos quais eram de autoras mulheres. Expôs também o problema de distribuição no país, ainda extremamente concentrado no sudeste e em especial RJ-SP.

  • O carioca radicado na Espanha Marcello Quintanilha também estava presente no Festival e saiu com o prêmio de melhor álbum na categoria policial com “Tungstênio”, publicado no Brasil pela editora Vêneta. Parabéns, Marcello!

  • A revista Café Espacial e a HQ digital de Cátia Ana Baldoíno da Silva, Refuge, também concorreram a prêmios na seleção do festival. Também de parabéns!

  • A cartunista Cyntia Bonacossa, que está fazendo residência artística na Maison des Auteurs de Angoulême, e a quadrinista Fabiane Langona (Chiquinha) participaram da organização da exposição Vague Brésilienne (Onda Brasileira), sobre quadrinhos brasileiros independentes. Clique aqui para ler o relato em quadrinhos de Chiquinha.

O futuro dos quadrinhos, dentro e fora do Festival

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Todos os comércios da cidade parecem estar envolvidos com o festival, mesmo os mais improváveis

O Festival é para os profissionais uma oportunidade de chamar atenção para pautas que consideram importantes. Em vários estandes, era possível encontrar panfletos do Coletivo de Autoras Contra o Sexismo e pessoas dispostas a debater o futuro dos quadrinhos, não apenas no que diz respeito à igualdade de gênero. A quadrinista Tanxx estava em greve de autógrafos para chamar atenção para as condições de trabalho dos autores – as dedicatórias são uma das principais atrações do festival, mas a presença dos artistas não é considerada como trabalho nem é remunerada. Também questionando o caráter comercial do festival, artistas independentes organizam paralelamente o FOFF (Fuck Off Angoulême), uma feira e exposição aberta e gratuita que visa atender artistas e leitores que não podem estar no festival pago.

O FIBD é sem dúvida um festival de proporções impressionantes, com capacidade de reunir apaixonados por quadrinhos do mundo inteiro. Se o nosso contexto ainda não nos permite realizar um festival dessas proporções no Brasil, podemos aproveitar a inspiração e os debates para construir nossa realidade com consciência. Com relação à diversidade, nosso FIQ nacional tem deixado Angoulême para trás – na edição de 2015, posicionou-se contra casos de sexismo, trouxe uma jovem artista para fazer sua identidade visual e apoiou iniciativas contra o preconceito. E por que não ouvir o conselho de Jadda Smith? “Façamos nós, melhor.”

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A estátua do Corto Maltese fica na ponte sobre o rio Charente e não tem cheiro de Dior.

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