Lily Renée – Da guerra para os quadrinhos

Era 1943 quando Lily Renée foi contratada para apagar o lápis dos traços finalizados dos quadrinitas do estúdio “Fiction House”. Ela precisava do emprego, tinha pouco tempo que morava nos Estados Unidos, depois de morar na Inglaterra. Renée vinha fugida em 1939 de Viena, sua cidade natal, por causa dos nazistas. A Alemanha incorporava a Áustria na assim chamada Anchluss, ou seja, anexação. Ela foi mandada pelos pais para Londres para que depois fosse para Nova Iorque. Na Inglaterra foi presa ao tentar pegar o navio, mas um desconhecido a soltou deixando-a chegar a seu destino.

Teve inúmeros empregos antes de conseguir uma vaga no estúdio: foi babá, zeladora e até encarregada de levar crianças a um abrigo em caso de ataque aéreo. Quem a incentivou foi sua mãe, que viu um anúncio no jornal. Além dela, havia mais uma garota, Marcia Snyder, que fazia o mesmo trabalho. Num lugar cheio de homens, e por ser muito bonita, Renée recebeu inúmeras “cantadas” pelas páginas dos quadrinhos, algo que a incomodava. Chorava muito por receber esse assédio no trabalho, mas gostava do que fazia. Nessa época os estúdios estavam vazios por causa da guerra, eles contratavam mulheres para substituir os homens que estavam lutando na II Guerra Mundial, como ilustra Scott McCloud no seu livro “Reinventando os Quadrinhos”:

Renée passou a desenhar as histórias Jane Martin, Werewolf Hunter e Señorita Rio. Jane Martin, seu primeiro trabalho, era sobre uma jovem que trabalhava na indústria de aviação; Werewolf Hunter era a história de um professor europeu que viajava pelo mundo descobrindo feitiços e caçando monstros;  e Señorita Rio uma espiã. Ela também desenhou a HQ “Lost World”.

Em Nova Iorque ela ilustrava catálogos e fazia aulas de artes no Art Students League. Seus trabalhos sempre contiveram influências do expressionismo alemão. Em 1947 se casou com um cartunista político, também refugiado vienense, que quase foi preso ao fazer uma caricatura de Joseph Goebbels. Em 1948 deixou a “Fiction House” e foi trabalhar para St. John Publications.


Como muitas quadrinistas da Idade do Ouro, ela tinha vergonha de trabalhar com quadrinhos por causa do preconceito, mas ao mesmo tempo, Renée diz que se divertiu e que se sentia emocionada ao ver suas revistas nas bancas.

Em 1949 se separou e casou com um norte-americano chamado Randolph Phillips, que faleceu em 1990, com quem teve um filho e uma filha. Ela deixou os quadrinhos, mas depois de 50 anos Trina Robbins a localizou, o que resultou em sua participação na San Diego Comic-Con (2007), uma premiação no Friends of Lulu e sua biografia em quadrinhos “Lily Renée, Esacpe Artist: From Holocaust Survivor” escrita por Robbins e desenhada por Anne Timmons.

Renée ainda fez uma faculdade de filosofia e literatura. Passou a se interessar por dramaturgia e escreveu cinco peças de teatro. Hoje, aos 86 anos, ela vive em Manhattan, perto da Madison Avenue.

Na San Diego Comic-Con deste ano, a IDW anunciou que estavam planejando uma coleção do trabalho de Renée desde a época da Fiction House. Será a primeira coleção de sua obra já publicada.

Recomendo a leitura da matéria “A Real-Life Comic Book Superhero”, sobre Renée neste link

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8 comentários em “Lily Renée – Da guerra para os quadrinhos

  1. Só no Ladyscomics mesmo!

    Vcs estão reunindo um acervo de preciosidades ao longo do tempo, espero que não descartem a ideia de reunir esta coleção de matérias primorosas numa antologia…seria uma belo de um livro!

    Abraço!

  2. Puxa, achei interessante esse ar de “achado” que tem o post, sobre essa redescoberta. Também acho que seria legal se ela fizesse um trablaho autobiográfico.

    Ah, e concordo com o Marshall. De fato, vcs já tem material pra um livro muito bom!

  3. Parabéns pelo excelente post, moças.
    Encontrei o site de vocês através do excelente Poltrona Mobius, do talentosíssimo amigo Vinícius.
    Apesar de eu gostar de hqs, ainda conheço pouco dos artistas atuantes nos primórdios desta arte.
    Lily Renée foi uma destas pessoas que simplesmente não se importam com as convenções sociais e fez aquilo que gostava.
    Como recompensa, entrou pra História das hqs.
    Valeu.

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