Margot’s room de Emilly Carroll

Hoje vamos falar de horror, webcomic e do conceito de “tela infinita” e suas infinitas possibilidades. Vamos falar de Margot’s room!

Sua criadora é a ilustradora e quadrinista canadense Emilly Carroll, ganhadora do Eisner Award’s 2015 na categoria “Melhor História Curta” com When the Darkness Presses. Em 2016, ela concorre novamente, desta vez na categoria “Melhor Publicação para crianças” com o livro  Baba Yaga’s Assistant, escrito por Marika McCoola. É dela também o álbum Through the Woods, que reúne diversas histórias de sua autoria. Em seu website é possível ler várias histórias curtas (em inglês) incluindo Margot’s room, que foi publicada em 2011.

Auto-retrato, por Emilly Carroll

Auto-retrato, desenho de Emilly Carroll. Fonte: http://emcarroll.com/

Imagem 2

Capas dos livros Baba Yaga’s Assistant e Through the woods. Fonte: https://www.amazon.com

 

Margot’s room é uma história de horror contada em primeira pessoa por uma mulher cuja filha, Margot, faleceu ainda criança. A partir dessa perda, sua vida e a de seu esposo mudam drasticamente até chegar a um triste desfecho. A tragédia é contada através da fala da mãe e a narrativa mistura momentos do presente com o passado, as vezes de modo extremamente sutil. A autora se apropria da “tela infinita” como formato para suas páginas nesta e em boa parte de suas webcomics. Este conceito, criado pelo quadrinhista Scott McCloud, parte do princípio de que na web as páginas podem ter tamanhos infinitos e não são limitadas pelo tamanho da tela. A tela, assim, tem a função de uma janela, onde a história pode ser lida a medida que a página é rolada.

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Imagem da tela inicial de Margot’s room. Fonte: http://emcarroll.com/comics/margot/

 

Emilly dividiu Margot’s room em cinco partes e em cada uma delas há a exploração de um sentido de leitura: vertical ou horizontal e um misto dos dois na última parte. Estas partes estão conectadas por links com a página inicial, que é o ponto de partida para a leitura. Nela se lê um poema e se vê a imagem de um quarto onde alguma espécie de briga parece ter ocorrido. Alguns itens dessa imagem são clicáveis e conduzem a leitura para suas respectivas partes, que vão explicando o que ocorreu ali. A ordem de leitura é indicada através da ordem com que os objetos ou cenas são citados no poema. Dedução a que cheguei depois de algum tempo clicando aleatoriamente nos links e que, agora, me parece bem óbvio:

Primeiro ele me deu flores

E segundo eu fiz para ela uma boneca

Mas terceiro ele se foi por horas

E quarto chegamos num beco sem saída[1].

Finalmente houve sangue,

(rico e cru à luz da lua)

Não posso esquecer

Sempre me arrependerei

Do que aconteceu

No quarto de Margot

 

First he gave me flowers

E (and) second  I made her a doll

But third he’d be gonne for hours

E (and) fourth we hit a wall.

Lastly there was blood,

(rich and raw in the light of the moon)

I can’t forget

I will always regret

What happened in

Margot’s room

flowers08

Trecho da primeira parte de Margot’s room. Fonte: http://www.emcarroll.com/comics/margot/flowers.html

Lendo a história tive a sensação de estar em um dos universos fantásticos criados por Edgar Allan Poe em seus contos, tanto pela ambientação e vestuário dos personagens quanto pelo tom misterioso e sobrenatural que a narrativa vai tomando. A narração em primeira pessoa em contos assim, quase sempre dá ao seu desfecho um tom de dúvida. Pois se a história é contada através dos olhos de um personagem inserido na trama ele terá uma visão/opinião limitada sobre o que está relatando. E só veremos/saberemos aquilo que ele viu/deduziu. E, no caso de Margot’s room, isso ocorre com o relato da mãe e levanta a questão de que até que ponto o que ela nos conta realmente aconteceu ou foi imaginado por ela. A mudança na aparência da personagem demonstra sua inquietação mental, como na imagem abaixo com uma cena da parte I e outra da parte V.

expressoes

Montagem com expressões da personagem principal na parte I (primeira imagem) e na parte IV.

 

Em entrevista à Taryn Hubbard na revista Room Magazine, Emily afirma:

“(…) Em “Margot’s room” era parte do projeto que ele teria que ser feito para a tela, especialmente porque o defini no quarto da criança e você tem que encontrar os objetos e clicar sobre eles, porque eu queria colocar o leitor em uma situação onde eles tinham que tocar em objetos no quarto de um estranho. Pensei que isso criaria uma leve sensação de desconforto ou intrusão na história. Nesse quadrinho especialmente, me assegurei que toda a página fosse preta em torno da história e dos quadros. Era muito importante para aumentar o isolamento da personagem principal e o tom sombrio da história. Acho que, com a maioria das webcomics que faço, tenho em mente a tela e em como as pessoas irão vê-la e tento controlá-la tanto quanto possível. Nestes quadrinhos não penso em imprimi-los porque eles foram projetados para a tela. Alguns deles poderiam ser transferidos, mas outros são especificamente para serem lidos online[2].”

Pela fala de Emilly percebe-se que todos os elementos da história, especialmente a tela infinita e os links, foram utilizados para criar e manter o clima tenso de Margot’s room.  Até mesmo no momento de revelação da história as cenas sugerem mais do que mostram, conduzindo o leitor para um final “fechado” mas também aberto a interpretações. Fato que não desmerece a história, pelo contrário, instiga sua releitura várias vezes para tentar responder à pergunta: afinal, o que realmente aconteceu no quarto de Margot?

 

Se quiser se aventurar na história, Margot’s Room está acessível aqui.

Para ler mais webcomics de Emilly Carroll clique aqui.

 


[1] Inseri aqui uma expressão nossa que possa ser equivalente a “hit a wall” . Em inglês, segundo o Collins Dictionary,“hit a brick wall” significa chegar a um ponto em determinada situação onde é impossível continuar devido a algum obstáculo.


[2] Texto original: “With “Margot’s Room” it was very much part of that design that it had to be made for the screen, especially because I set it in the child’s room and you have to find the objects and click on them because I wanted to put the reader in a situation where they actually had to touch objects in a stranger’s room. I thought right away it creates a mild sense of unease or intrusion into the story. In that comic especially, I made sure the whole page was black around the story and the panels. It was very important to heighten the isolation of the main character and the shadowy dark tone of the story. I think with most of the web comics I do I keep the screen in mind and how people are going to be viewing it and I try to control it as much as possible. In those comics I don’t think I would transfer them to print because they were designed for the screen. Some of them could be transferred but others are specifically supposed to be read online.”

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