Mulheres em quadrinhos – parte 1

Falar sobre o grupo Mulheres em Quadrinhos, criado em março deste ano no Facebook, tornou-se necessário por que possui a mesma proposta que o Lady’s – discutir o universo feminino nos quadrinhos. O que difere do conteúdo daqui com o de lá, é que no Grupo a cultura é posta à mesa a fim de ver as raízes mais profundas que ainda compõem nossa sociedade. Assim como no cinema e nas artes plásticas, as representações do sexo feminino são questionadas e despidas para que a natureza delas possa ser compreendida.

Quem faz parte desse grupo fechado, em sua maioria, é gente que produz quadrinhos e alguns leitores, somando-se 176 membros.

A discussão é o primeiro passo para buscar uma solução para o problema. O Mulheres em Quadrinhos tem pessoas dispostas a compreender e discutir sobre o assunto. Assim,  centralizei as discussões que mais passam por ali, para reunir opniões para este post:

*ser

 

Quem participou? (Clique na imagem abaixo para visitar o site de cada um)

Thaïs

Ana Luiza

Andre

Lila

Débora

Juliana

Daniela

Montse

Paula

 

 

 

 

Exclusão?

A caricaturista Nair de Teffé (que produziu charges em 1909) talvez seja um ponto de partida de exemplo do que foi dado em resposta por alguns no grupo. Ela nasceu em uma sociedade na qual a mulher servia à figura masculina. Sua educação foi voltada para família e antes do casamento fez suas charges só como a condição de não receber pelo trabalho. Seu pai não queria sua independência financeira. O âmbito social era raramente concedido à mulher. Ela não tinha participação na política, quando trabalhava ganhava menos que os homens e as oportunidades de emprego eram bem menores. Não tem como não trazer essa referência do passado e de como isso influi hoje. Esse resgate histórico cria uma possibilidade palpável de entendermos o processo histórico da presença feminina como quadrinista e até como leitora.

A exclusão vista pelos que responderam no grupo, não é entendida como uma imposição, mas sim um processo gradativo de diversificação de gênero nos quadrinhos – elas estão se interessando e buscando seu espaço nesse mundo ainda masculinizado. O ingresso da mulher na nona arte é ainda pequeno, mas que teve um aumento significativo nos últimos anos. Só pensar em nomes de brasileiras que produziram antes e que passaram a produzir depois dos anos 1990..

 

Amadurecimento precoce?

Já ouvi muito a história de que a mulher amadurece mais cedo, e assim, se afasta dos quadrinhos. De certa forma, é uma resposta muito vaga, porque se formos pensar, há homens que não gostam de quadrinhos, e isso tem relação com afinidade com a arte sequencial e como isso atrai a pessoa. (Clique na imagem abaixo para ampliar)

Vi isso e não me contive em colocar como exemplo sobre a ideia do amadurecimento.

Todo o potencial de novas quadrinistas é perdido, porque a maioria dos quadrinhos tem foco no leitor do sexo masculino. Como vamos incentivar novas quadrinistas e leitoras se a produção de HQs não é diversificada? Quadrinhos bons inspiram novos quadrinhos e novos quadrinistas.



O dito amadurecimento da mulher é só uma ilusão para quem quer deixar de lado uma discussão relevante para os quadrinhos. É bem neste ponto que gostaria de enfatizar que se vivêssemos numa sociedade igualitária e que não fôssemos sempre divididos por gêneros, este blog não estaria aqui. Assim como não veríamos publicações só de mulheres, com a finalidade de dar visibilidade para as poucas quadrinistas existentes. Projetos como “Womanthology” (com 140 artistas e teve captação por crowdfunding para publicação), “Caniculadas” (Espanha), “Chicks on Comics” (de vários países, como Argentina e Colômbia), “Spring” (Alemanha) e, agora no Brasil,”Inverna” cumprem essa ideia de chamar a atenção para a produção feminina. É claro que esse tipo de iniciativa sempre vai funcionar enquanto existir um desequilíbrio entre os gêneros. Até lá, como leitora, aproveito essas incríveis publicações que surgem.

A história do desequilíbrio entre os sexos é um dos mais impressionantes exemplos do potencial desperdiçado dos quadrinhos. – Scott McCLoud

Este é só o primeiro post sobre as discussões do grupo Mulheres em Quadrinhos. Se eu abordasse todos os assuntos aqui, este post ficaria imenso.

 Confira alguns links que já passaram pelo Grupo:

1. Why DC and Marvel will never truly target female readers

2. Documentário Mulheres Invisíveis (fala sobre a participação da mulher no mercado de trabalho no âmbito público e privado)

3. Women in comics it ain’t Over

4. Inverna (Visitem, porque saiu o edital!)

5 comentários em “Mulheres em quadrinhos – parte 1

  1. Eu penso que, como qualquer outro espaço da sociedade, o mercado dos quadrinhos, envolve envolvimento político. E daí, o que se vê é um ambiente super masculinizado, em que predominam as piadas machistas preconceituosas, a imagem da mulher gostosa que serve aos desejos e fantasias do homem. É bem difícil entrar nessa, vê-se, inclusive, muitas das mulheres que acabam tendo visibilidade e espaço tendo uma postura semelhante. Fazendo piada escrota, de baixo calão, apelando pra putaria. É um ambiente difícil de permanecer. Tem que ter saco! hahhaahah Que ironia.

  2. Que legal! Adorei a análise, Samanta! Ando arquivando há tempos alguns posts do Grupo, com finalidade de escrever algo sobre a importância das nossas discussões mas não consegui ainda ter tempo pra isso. Vou arquivar esse seu artigo também, porque ele é bem importante! Beijo.

  3. Pingback: Entrevista – Eti Pellizzari | Lady's Comics

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