Mulheres leem HQs tanto (ou mais) que os homens

Uma das maiores falácias já ditas e repetidas entre leitores de quadrinhos é de que as meninas ou mulheres não leem. Pois bem, lá pelo início do século XX, as meninas liam quadrinhos de aventura nos Estados Unidos, que eram publicados em jornais e, por isso, compartilhados por toda a família. Quando os quadrinhos migraram para as revistas, elas continuaram lendo. Tanto que foram criados gêneros específicos para o público feminino, de todas as idades.

Um exemplo disso são títulos como Millie the Model, uma personagem muito popular, publicada nos Estados Unidos de 1945 a 1973, e que no Brasil se chamava Lili, a garota modelo. Nos anos de 1950 e 1960 os romances em quadrinhos faziam sucesso entre as donas de casa.  No Brasil quadrinhos da Mônica e da Magali tornaram-se referências para o público feminino. Sim, as mulheres leem tudo isso e muito mais. Elas são, também, leitoras de quadrinhos de aventura, superaventura, terror, suspense, crime e ficção científica. Apesar do rótulo “coisa de menino” que se dá para estes gêneros, eles sempre tiveram seu público feminino, apenas não era reconhecido.

Atualmente, a indústria dos quadrinhos não pode se dar ao luxo de não reconhecer o público feminino. Basta observar os eventos que envolvem quadrinhos, que ocorrem no mundo todo. As mulheres estão lá e representam uma porcentagem significativa do público consumidor. E elas não apenas leem, mas também roteirizam, desenham e escrevem sobre quadrinhos.

Uma pesquisa recente sobre o mercado livro na França mostra que 56% dos franceses (30,4 milhões) são leitores. Destes, 15.5% (8,4 milhões) são leitores de quadrinhos e mais da metade são mulheres. Sim, em um país onde as mulheres como produtoras de quadrinhos são ainda pouco valorizadas, elas representam o maior público consumidor do produto.

Nos Estados Unidos o panorama não é muito diferente. Embora não haja dados unificados que possam estabelecer um número exato de mulheres que leem quadrinhos, pesquisas feitas por sites especializados e no Facebook apontam para um público leitor de aproximadamente 24 milhões, dos quais as mulheres representam cerca de 46%.

Em uma reportagem publicada pela Time Magazine, em 2015, o quadrinista e pesquisador Scott McCloud disse acreditar que em oito anos as mulheres serão maioria tanto na indústria quanto como leitoras de quadrinhos nos Estados Unidos.  Segundo ele, um novo público leitor vem se formando nos EUA desde a década de 1990, influenciado pelo mangá, e grande parte deste público é de mulheres.

No Brasil, o número de mulheres que leem quadrinhos também é significativo. Não existem, porém, dados concretos que possam estabelecer uma porcentagem aproximada deste público. Em uma entrevista à Folha de São Paulo, em 2008, o jornalista e editor Rogério de Campos afirmou que metade do público leitor de quadrinhos no Brasil era feminino. Quase 10 anos depois há de se supor que esta estimativa tenha, no mínimo, se mantido.

As mulheres, no Brasil como em outras partes do mundo, estão se destacando na produção de quadrinhos, tanto no grande mercado como na produção independente. É de se imaginar que um dos fatores desta expansão tenha sido a formação de novas leitoras.

Em países como a Suécia, por exemplo, o crescimento dos quadrinhos feministas a partir dos anos de 1990 foi decisivo não apenas para a formação de um novo público leitor como, também, para ampliar a participação feminina no mercado, que hoje encontra-se em torno de 50%. Na França, atualmente, existe um movimento encabeçado por veteranas como Chantal Montellier, presidente da Associação Artemísia, que visa dar mais visibilidade às mulheres nos quadrinhos. Incidentes como o ocorrido em 2016, durante o festival de Angoulême, denunciam sexismo na indústria dos quadrinhos, o que ajuda a combatê-lo.

No Brasil, os quadrinhos feministas também têm feito a diferença. Há uma nova geração de mulheres produzindo quadrinhos que falam sobre temas como machismo, discriminação e homofobia, entre outros, e que encontram receptividade em um público leitor que, até então, não encontrava representatividade. Tal como na Suécia, os quadrinhos politizados têm dado às mulheres espaço para mostrarem o que pensam e sentem acerca da sociedade, do mundo em que vivemos. E se o número de leitoras no Brasil cresceu, o de produtoras, também. As mulheres representam atualmente cerca de 35% dos profissionais dos quadrinhos no Brasil.

E o mangá, conforme foi citado por Scott McCloud teve um papel importante na formação de leitoras. A mangaká Sueca, Natalia Batista, foi influenciada pelos mangás na década de 1990. No Brasil, o mangá também foi e é importante para a formação do público leitor feminino. Os anos 1990 podem ser, portanto, apontados como o momento chave para a formação de um público leitor feminino tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos e na Europa.

Fontes:

BARNETT,  David. Kapow! The unstoppable rise of female comic readers (2017). Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2015/sep/18/female-comic-book-readers-women-avengers-a-force, acesso em 02 jul. 2017.

BUARQUE, Daniel. Mulheres são metade do público leitor no Brasil (2008) http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs2506200616.htm. acesso em 01 jul. 2017.

MCNALL, Victoria. Why 2016 is the year we need to stop pretending women aren’t geeks (2015). http://www.mtv.com/news/2683640/geek-media-numbers-breakdown/, acesso em 01 jul. 2017.

MULHERES serão maioria na indústria das histórias em quadrinhos em uma década, diz Time (2015). Disponível em: http://www.luminota.com/pt-br/Mulheres-ser%C3%A3o-maioria-na-ind%C3%BAstria-das-hist%C3%B3rias-em-quadrinhos-em-uma-d%C3%A9cada-diz-Time/, acesso em 03 jul. 2017.

SCHENKER, Brett  Market Research Says 46.67% of Comic Fans are Female (2014). Disponível em: http://www.comicsbeat.com/market-research-says-46-female-comic-fans/, acesso em 02 jul. 2017.

UN rayon bandes dessinées aux multiples visages. Disponível em: http://www.actuabd.com/IMG/pdf/marche_bd_pdf.pdf, acesso em 01 jul. 2017.

 

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