Natalia Batista e o mangá sueco

Natalia Batista

Já publiquei aqui no Lady’s Comics duas matérias sobre quadrinistas suecas, Sofia Olsson e Malin Biller. Hoje, estou trazendo uma entrevista com Natalia Batista, realizada por e-mail no dia 24 de maio deste ano. Na entrevista, Natalia fala um pouco do seu trabalho e sobre a produção de mangas na Suécia.

Natália Batista nasceu em 1986 e é sueca, filha de pai português e mãe polonesa. Aos 12 anos, fazia seus primeiros fanzines juntamente com amigos. Mais tarde, estudou a arte dos quadrinhos na conceituada escola de Malmö, onde atualmente é professora. Especializou-se em mangá, tendo estudo japonês na Universidade de Lund. Atualmente, é uma das mais proeminentes mangakás da Suécia. Em 2009, publicou, de forma independente, seu primeiro mangá, A song for Elise (Uma canção para Elisa). Mas foi em 2010, com seu mangá infantil Mjau!, traduzido também para o português e publicado pela revista portuguesa de mangá, Banzai, que ela estreou na Suécia. Depois, vieram outros trabalhos e publicações em outros países. Atualmente, ela está em negociações para publicar também no Brasil.

Natalia tem uma visão pragmática sobre o mercado dos quadrinhos e levanta questões interessantes, como a marginalização que alguns gêneros sofrem dentro da própria comunidade dos quadrinhos. Ela nos conta sobre as dificuldades de ser quadrinista na Suécia, mostrando uma realidade reproduzida em outras partes do mundo, em diferentes escalas. A mangaká não mede as palavras para falar sobre a profissão, o mercado de quadrinhos e machismo num país que não se considera machista.

N.N. Como surgiu seu interesse em quadrinhos, especialmente em mangá?

N.B. Minha mãe me deu quadrinhos ainda na tenra idade, alguns quadrinhos suecos para crianças como Bamse, mais tarde quadrinhos franco-belgas em sua maioria. Nós líamos juntas, e depois, eu os lia por minha própria conta. Minha mãe também leu livros para todos nós durante toda a minha infância, por isso foi natural para mim começar a contar as minhas próprias histórias. Aos 12 anos, eu comecei uma revista em quadrinhos com meus amigos. Fizemos três números! No entanto, a maior era de quadrinhos de humor de uma página. Foi aos 14 anos que eu encontrei o mangá e fiquei realmente inspirada. Eu fiz vários quadrinhos mais longos, inacabados, em um estilo de arte e narrativa inspirado no mangá. Eu acho que foi principalmente graças a Sailor Moon, que foi ao ar na TV sueca quando eu era adolescente. Eu diria que eu sou parte da Sailor Moon Generation.

N.N. Você estudou e agora ensina na Escola de Quadrinhos de Malmö. Como você diria esta escola influenciou a produção de quadrinhos na Suécia?

N.B. Imensamente! Hoje, de uma forma ou de outra, uma parte considerável das pessoas que trabalham na comunidade dos quadrinhos suecos – artistas e editores – estão ligados à Escola de Quadrinhos de Malmö. É como um caldeirão para formar novos artistas e para o florescimento de novas redes. Lecionando lá e também posso ver como as tendências do mercado sueco e internacional dos quadrinhos afetam os alunos, como eles aplicam isso na escola e quais quadrinhos eles estão produzindo. Este ambiente inspirador os leva a produzir quadrinhos frescos, graças também ao convívio com seus colegas de classe, professores e convidados que visitam a escola.

N.N. Na Suécia, machismo é menor do que em outros países, mas parece que ainda há muito a ser alcançado, especialmente no mercado de trabalho. Nesse sentido, como uma mulher, você tem sido vítima de algum tipo de discriminação?

N.B. Tanto na comunidade dos quadrinhos suecos quanto na Suécia, em geral, ainda há muita coisa para se corrigir para alcançar a igualdade de gênero. Eu acho que a maioria das mulheres (se não todas) de uma forma ou de outra sentem essa discriminação de sexo, e os homens também. Quando se trata da comunidade dos quadrinhos, eu sinto que há partes dela onde eu estou esperanto ser aceita ou criar quadrinhos que sejam aceitos. Embora, para ser justa, muito do meu sentimento de ser discriminada é, na minha opinião, baseado no tipo de quadrinhos que eu faço e na minha escolha de público-alvo. Eu faço quadrinhos inspirados em mangá para crianças e adolescentes. E uma vez que não há prêmios para quadrinhos infantis e eles não são quadrinhos elogiados  (eles não são elogiados pelos meios de comunicação), eu acabo me sentindo ignorada pela comunidade dos quadrinhos, juntamente com os meus colegas artistas de mangá.

N.N. Em geral, quais são as maiores dificuldades para um quadrinista, homem ou mulher, para ser bem sucedido na profissão na Suécia?

N.B. Conseguir dinheiro para fazer quadrinhos. Mesmo um quadrinista que publica continuamente tem sérios problemas em viver apenas disso. A maioria dos quadrinistas vive de doações para artista ou fazem um monte de trabalho encomendado por empresas ou revistas. Metade dos meus é ensinando na Escola de Arte Comic em Malmö, a escola mais proeminente da Suécia para quadrinistas, ao mesmo tempo, fazendo oficinas de mangá em escolas e bibliotecas. Faço meus quadrinhos no meu tempo livre. Felizmente, eu sou uma artista rápida e disciplinada. Sem isso, viver fazendo só quadrinhos seria difícil.

N.N. No Brasil, a maior parte dos mangakás são mulheres. Algumas ganharam fama internacional como Erika Awano. Qual é a participação feminina na produção de manga na Suécia?

N.B. Aqui, também, a maioria dos magakás são mulheres. Algumas fizeram fama internacionalmente, como Åsa Ekström (que é uma mangaká sueca publicada no Japão), outros trabalham em outros países europeus, bem como os EUA. Eu tenho sido publicada na Alemanha e em Portugal. Infelizmente, é um trabalho muito difícil sem um agente, e não temos quaisquer agentes para mangáka. Normalmente, os editores se tornam nossos agentes, mas como os nossos editores suecos não entendem o mercado de mangá, eles preferem não pesquisá-lo para vender nossos trabalhos. Eu tive que fazer todas as minhas vendas de direitos internacionais eu mesma, sozinha. É um monte de trabalho extra!

N.N. Qual é o perfil aproximado do leitor de mangá sueco?

N.B. Bem, isso depende do tipo de mangá, é claro. Como o Japão é o país do mundo com o maior número de quadrinhos (percentualmente), eles possuem gêneros e tipos de mangá diferentes para atender todos os tipos de leitores. Quando se trata do leitor de mangá na Suécia, a resposta também depende de qual geração de leitor de mangá estamos falando. Um dos primeiros mangás que foi importado para a Suécia foi o Lobo Solitário, por volta dos anos de 1980, que foi dirigido para leitores homens na faixa dos 25 anos ou mais velhos. Estes leitores ainda existem, mas eles geralmente são voltados para a velha escola de mangás e animes. As crianças não se interessavam naquela época. Então, nós tivemos a segunda geração de leitores de mangá, no início do século XXI, quando Dragon Ball e One Piece foram traduzidos para o sueco. Esta é a mesma geração que assistiu Sailor Moon na TV, por volta dos anos de 2003-2004. Esta é a minha geração, eu a chamo de “Sailor Moon Generation”. Muitos desses leitores são mulheres e começaram a ler mangás e a assistir animes no início da adolescência. Há uma parte do sexo masculino nessa geração também, graças aos mangás shonen, publicados durante esses anos, mas muitos dos leitores que ainda hoje são ativos, pertencentes a esta geração, são mulheres. Em seguida, a publicação de mangás “morreu”, por volta dos anos de 2009-2010, porque as editoras de mangás não queriam mais publicar. Há muitas razões para isso, entre elas o fato de os adolescentes suecos terem grande conhecimento em inglês, portanto, preferiam ler os scanlations[1] do que comprar uma edição sueca, que sairia vários meses depois. A partir daí, temos visto muito poucos mangás publicados, e uma grande parte deles têm sido de artistas apaixonados que pressionam os editores ou que autopublicam seus trabalhos. A atual geração de leitores de mangá são mais limitados e não são como a anterior, que gosta de comprar um monte de coisas que são publicadas. Eles são jovens e precisam de novos tipos de mangás. Eu gostaria que alguém se prontificasse a publicar para esse grupo de leitores.

N.N. Como você classificaria a atual produção de quadrinhos suecos? Há perspectivas de expansão do mercado? Algumas tendências específicas?

N.B. Eu classificaria como promissor, mas ainda não como eu gostaria que fosse. Vou me concentrar onde eu realmente sinto é o problema: a falta de fãs mangá entre os editores. Nenhum deles entende mangá. Os leitores de mangá, principalmente as meninas, e os magakás, em sua maioria jovens mulheres. Eu tive editores que me disseram que mangá não vende, mesmo eu mostrando os meus números, que estão acima da média para os álbuns em quadrinhos. Muitos editores ainda consideram mangá algo exclusivamente para crianças e adolescentes. Eu acho que isso se resume a uma divisão entre as gerações de fãs de quadrinhos: os homens mais velhos de um lado, e as meninas de outro. Os mais velhos podem aceitar e compreender os quadrinhos políticos ou mesmo feministas que são publicados na Suécia, mas eles não entendem o mangá, e, portanto, decidiram evitá-lo.

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N.N. Na sua opinão, o mangá produzido na Suécia tem características específicas? Quais seriam?

N.B. Ele tem, mas pode ser difícil para mim, como produtora de mangá, dizer quais. Em muitos casos, é uma decisão consciente de magakás como eu fazerem histórias que acontecem na Suécia. Outros estão apenas inconscientemente adicionando traços suecos neles. Mas eu acredito que o mangá é uma linguagem internacional de narrativa gráfica. Ele terá um toque local em alguns aspectos, mas graças à sociedade global que conhecemos hoje, a maioria de nós se inspira nos quadrinhos de outros países. Acho que o tempo de classificar as coisas pela sua origem nacional já passou, já que isso é apenas uma forma de dizer onde mora o artista.

N.N. No mundo, tem havido um crescente debate sobre a importância dos quadrinhos na educação e formação de novos leitores. Qual é a sua opinião sobre isso?

N.B. Claro! Eu vejo meus quadrinhos assim. Fiz uma história em quadrinhos para crianças pequenas, Mjau!, destinada a crianças entre 5 e 10 anos. Esse mangá foi feito com a intenção de introduzir leitores ao mangá a partir de algo inocente, uma história em quadrinhos que poderiam usar para praticar a leitura por conta própria. Eu tive muitos professores e pais que me disseram que meu mangá tem sido tão popular que as crianças emprestam para os colegas e amigos que o leem também. Eu também acho que os quadrinhos podem ser uma ótima maneira de explicar coisas que seriam difíceis de mostrar de outra forma, como em uma história muito pessoal que envolve pessoas que você não quer magoar, mostrando seus rostos. Em vez disso, você pode desenhá-los ou mudar sua aparência. Os quadrinhos podem ser educativos de uma forma criativa, por exemplo, os quadrinhos históricos podem te inspirar a ler mais sobre história, assim como a desenhar seu próprio quadrinho histórico.

Conheça mais do trabalho de Natalia Batista no visitando seu Blog.

[1] Tradução feita por fãs e disponível na internet para download.

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