O Gênero dos Quadrinhos

O ano de 1895 foi eleito o grande marco da história das tirinhas e, consequentemente, da história em quadrinhos. Nesse ano foi publicada The Yellow Kid, considerada a primeira tirinha. Impressa em Nova York, nos Estados Unidos, e assinada por Richard Outcault, a tira figura em praticamente todas as coletâneas e enciclopédias que procuram identificar a origem da HQ.

Em 1888, anos antes do famoso Yellow Kid ser disputado por diferentes jornais, uma jovem de apenas 13 anos, Rose O’Neil, inscreveu-se e venceu um concurso em um jornal de Omaha com um desenho de sua autoria (Veja quem foi Rose O’neil nesta postagem!!). Vale lembrar que a imprensa, no final do século XIX, vivia um período muito fértil, acompanhado do uso da fotografia na prensa. Contudo, era o universo da ilustração que ainda dominava o cenário.

Apesar da conquista de Rose, Trina Robbins, no excelente A Century of Women Cartoonists, narra a reação dos jurados ao saberem da vitoriosa.

Quando os jurados viram a menina de 13 anos de idade que havia ganho o prêmio, eles a fizeram sentar-se e produzir um desenho in loco, para provar que ela era a artista. Dois anos depois ela vendeu sua primeira ilustração para a revista TRUTH. Aos 15 anos começou a carreira que durou meio século e a levou à fama.” (ROBBINS, Trina, 1993, p. 6, tradução livre).

Isso mesmo! A ilustradora precisou produzir diante dos olhos atentos dos jurados para provar sua autoria. Há quem possa afirmar que a reação era fruto do talento precoce e não resultado do fato de Rose ser mulher. Ora, não sejamos inocentes, são incontáveis as artistas, dos mais diversos campos, que fizeram uso de pseudônimos masculinos para garantir a circulação de suas obras. Além disso, não podemos esquecer que a imprensa, nesse período, era um meio repleto de homens jovens querendo realizar sonhos jornalísticos.

MARIZA. Nós Mulheres, Brasil, março-abril de 1977. Edição 4. Coluna de Humor, p. 9.

MARIZA. Nós Mulheres, Brasil, março-abril de 1977. Edição 4. Coluna de Humor, p. 9.

A história de Rose não nos informa sobre a desconfiança quanto a juventude, mas sim dos silêncios da história das mulheres ilustradoras, cartunistas, quadrinistas, artistas. A história de Rose fala-nos do gênero do desenho, da arte, dos quadrinhos, da ilustração. Os marcos históricos não escapam a essa regra. Jamais saberemos se The Yellow Kid não foi antecedida por algo assinado por uma mulher.

SANDRA. Nós Mulheres, Brasil, março-abril de 1977. Edição 4. Coluna de Humor, p. 9.

SANDRA. Nós Mulheres, Brasil, março-abril de 1977. Edição 4. Coluna de Humor, p. 9.

Na Enciclopédia dos Quadrinhos organizada pelos braslileiros Hiron Goidanich e André Kleinert (2012), por exemplo, em mais de 500 páginas são citadas 28 mulheres quadrinistas, um número pequeno se comparado ao número total de desenhistas, roteiristas e editores homens. São 28 mulheres distribuídas em mais de 500 páginas. Cada página tem em média de três a cinco verbetes, logo, os homens são uma maioria maciça e às mulheres foi cedido um espaço de, em média, 15 páginas. 15 páginas para elas, mais de 485 páginas para eles.

A talentosa brasileira Célia, que publicava historietas no periódico alternativo brasileiro Mulherio (1981-1988), por exemplo, não é citada na coletânea. Ela e tantas outras foram “esquecidas”.

CÉLIA. Mulherio, Brasil, julho de 1987. Edição 30, p.24.

CÉLIA. Mulherio, Brasil, julho de 1987. Edição 30, p.24.

Isso é por que as mulheres inexistem nesse meio? Centenas de cartunistas, incluída Célia, bem como o Lady’s Comics, são uma prova irrefutável de que as mulheres não apenas consomem quadrinhos, como produzem.

A história de Rose, o acanhado número de mulheres em um livro que se denomina enciclopédia, bem como o reduzido número de mulheres trabalhando em grandes editoras como DC e Marvel Comics, é fruto e reflexo da invisibilização do trabalho das mulheres. O gênero dos quadrinhos, portanto, tem se construído – com muito esforço – como masculino. Entretanto, Rose O’Neil, desde 1888, demonstra que não há esforços capazes de barrar a (re)invenção do gênero.

Estando o gênero HQ e o gênero do HQ sendo (re)inventado e questionado desde sempre, o que nos resta hoje é fazer jus à história dessas mulheres. Milhares de artistas, cartunistas, desenhistas e ilustradoras vem sendo sumariamente ignoradas quando o assunto é a história da arte, do HQ, do cartum. Apesar da fama de tagarelas que acompanha as mulheres, como bem aponta Michelle Perrot, a elas tem sido reservado um espaço sempre discreto sob o argumento de que elas não existem nesses campos de produção de conhecimento.

Felizmente há silêncios barulhentos demais para serem ignorados.

Referências

GOIDANICH, Hiron Cardoso e KLEINERT, André. Enciclopédia dos Quadrinhos. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011.

PERROT, Michelle. As Mulheres ou os silêncios da História. Florianópolis,: EDUSC, 2005.

ROBBINS, Trina. A Century of Women Cartoonists.  Kitchen Sink Press: United States, 1993.

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